Devem chegar nos próximos dias em São João del-Rei, cidade da região do Campo das Vertentes, uma remessa de testes rápidos para detecção da bactéria Streptococcus, que está sob investigação como possível causa da morte de três crianças, com idades entre 3 e 10 anos, em um intervalo de 30 dias. A informação foi confirmada a O TEMPO na noite desta quarta-feira (25 de outubro) pela Prefeitura do município, que tem pouco mais de 90 mil habitantes.

De acordo com o município, os testes são a forma mais veloz de se detectar a presença da bactéria, já que o diagnóstico leva apenas cerca de 15 minutos. “O exame padrão ouro é o Swab Orofaríngeo, que o município já disponibiliza. Entretanto, o resultado demora um pouco mais para sair, pois necessita de uma análise mais aprofundada do material”, completou a Prefeitura de São João del-Rei. Apesar disso, a cidade não informou quando os exames deverão estar disponíveis para a população.

A cidade está com suas escolas municipais com as aulas suspensas por 11 dias para a realização de uma força-tarefa para a desinfecção das instituições, que deverá ir até o próximo dia 5 de novembro. Os trabalhos já começaram nesta quarta e, mais cedo, a Prefeitura divulgou um vídeo que mostra desinfecção sendo feita com água sanitária em uma das escolas.

Em vídeo divulgado pela Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG), o subsecretário de Vigilância em Saúde, Eduardo Campos Prosdocimi, destacou que o Governo de Minas promoveu, também nesta quarta, uma capacitação com 120 profissionais de saúde do município, levando o que ele chamou de “melhor instrução aos profissionais da ponta”. 

“Fizemos também uma agenda com a equipe do Ministério da Saúde no sentido de trazer a equipe do SUS Avançado para colaborar em uma grande investigação, para entender o que de fato acontece em São João del-Rei e região. Mas o fato é que, até o presente momento, nada indica a necessidade de alteração da rotina dos moradores da região. Portanto, estamos atentos e vigilantes e vamos dar uma resposta à população”, completou Prosdocimi.

A bactéria

Conforme o infectologista Carlos Starling, as bactérias streptococcus contam com algumas cepas que são “mais agressivas” e que podem provocar casos graves. No entanto, com um diagnóstico rápido, é possível começar um tratamento com antibiótico e eliminar o risco de morte. “Determinadas cepas são muito agressivas, mas respondem bem a antibióticos. No entanto, o diagnóstico precisa ser rápido, pois a evolução pode ser rápida também”, explica.

O infectologista Estevão Urbano também ressalta a importância de um diagnóstico precoce. Mesmo que os sintomas possam parecer algo comum e corriqueiro — como dor de garganta — ele aconselha que as pessoas do município e região procurem logo auxílio médico. Segundo ele, a preocupação maior deve ser entre os moradores locais, já que a doença costuma ficar mais localizada. No momento, é pouco provável que se espalhe e chegue a municípios mais distantes.

De acordo com Urbano, as ocorrências em São João del Rei acendem um alerta, mas é essencial haver estudos mais aprofundados para entender de fato o quadro geral na cidade. “Nós não sabemos de onde veio, se tem alguma fonte que possa estar distribuindo a bactéria. Geralmente uma pessoa passa para a outra, e algumas desenvolvem a doença. É preciso achar o elo que justifique os casos, um forte estudo epidemiológico”, afirma.

Conforme o especialista, a bactéria pode ser tão agressiva que qualquer pessoa, de qualquer idade, saudável ou não, pode desenvolver algo grave e perder a vida. No entanto, há aqueles que são ainda mais vulneráveis. “Imunossuprimidos, crianças muito novas e idosos podem ser mais suscetíveis”, diz ele.

Perguntas e respostas

Como ocorre a transmissão da bactéria? 

A transmissão é feita de uma pessoa para a outra, por meio contato próximo ou através de tosses ou espirros. “A transmissão é feita por gotículas de saliva, quando a pessoa infectada fala, tosse, espirra. Às vezes, alguém tosse na mesa, uma criança encosta e depois leva a mãozinha à boca”, explica a a infectologista Janaína Teixeira, que atua na cidade de São João del-Rei. 

O que ela pode causar? 

Conforme a infectologista Janaína Teixeira, a bactéria pode causar a chamada “síndrome do choque tóxico”, que é uma infecção invasiva grave. “É incomum, uma prevalência de 1 a 5 casos para cada 100 mil habitantes, mas que, infelizmente, tem uma mortalidade alta”, explica a médica. 

A síndrome de choque tóxico é um grupo de sintomas graves e rapidamente progressivos. Entre os sintomas estão febres, erupção cutânea, pressão arterial perigosamente baixa e insuficiência de vários órgãos.

Quais os sintomas? 

Entre os sintomas provocados pela Streptococcus estão febre alta, acima dos 38 °C, dores musculares intensas, falta de apetite e vômito. Conforme a infectologista Janaína Teixeira, os doentes também podem ter quadros de diarreia, desidratação, alterações no comportamento e sonolência excessiva. 

Como é o tratamento? 

O tratamento pode ser feito com antibióticos, segundo a infectologista Janaína Teixeira. No entanto, conforme a especialista, tem sido relatado 
um aumento no número dessas infecções.

“São infecções que podem causar desde infecções de pele, a erisipela, celulite, escarlatina, impetigo, e causa muito comumente infecção de garganta, principalmente em crianças menores de 10 anos. E, em algumas situações, ela pode causar infecções com gravidade maior, pneumonias, artrites, meningite, que não são tão comuns”, detalha. 

Como prevenir? 

A higienização e o isolamento do paciente, a partir do diagnóstico, são as melhores formas de prevenção. “A primeira coisa é a criança doente não ir à escola. Deveria ser um mantra. Criança doente, com dor de garganta, com febre, fica em casa”, alerta a infectologista. Conforme a especialista, também deve ser evitado o compartilhamento de materiais utilizados pela pessoa doente. “Não devemos compartilhar utensílios, copo, talher, garrafinha”, completa. 

Ainda de acordo com Janaína, outra forma importante de prevenção é sempre manter os ambientes bem ventilados e, principalmente, é manter as as vacinas em dia. “As infecções virais podem ser a porta de entrada, o primeiro passo para que, depois, uma infecção bacteriana aproveite da queda da imunidade causada pela infecção viral”, finaliza a infectologista, que também destacou não existir uma vacina. 

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