À medida que avançam no Congresso Nacional ações de combate ao crime organizado no Brasil, como a aprovação do chamado “PL Antifacção” na Câmara dos Deputados, o governador Romeu Zema (Novo) pega carona nas discussões para fortalecer sua pré-candidatura à Presidência da República em 2026. O chefe do Executivo mineiro tornou os perfis das redes sociais o principal mecanismo para “marcar território” e nacionalizar sua imagem, sobretudo após a megaoperação contra o Comando Vermelho, no Rio de Janeiro, que terminou com 121 mortos no dia 28/10.
Desde então, Zema fez, até 20/11, 55 publicações no Instagram, plataforma em que detém o maior número de seguidores – quase 2 milhões. Ao menos 31 posts tinham a segurança pública e o combate a facções como assunto central ou marginal. As mensagens misturam a defesa do enquadramento de integrantes de quadrilhas armadas como terroristas, críticas ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e apresentação de resultados de operações das forças de segurança pública de Minas contra o crime organizado.
“Hoje, o Brasil vive sob o domínio do medo. No Rio de Janeiro, vi de perto o que acontece quando o Estado se omite: mães com medo de deixar os filhos irem à escola, trabalhadores obrigados a fechar o comércio mais cedo, moradores sem tirar o carro da garagem há dois anos devido às barricadas e assim por diante. Isso não é normal. Quem ocupa território pela força das armas é terrorista. Isso está claro. Aparentemente, só para o governo federal que não”, disse Zema em publicação.
O posicionamento vai ao encontro do tripé apresentado por ele no lançamento da candidatura ao Planalto, de acordo com interlocutores. Ao se posicionar no tabuleiro presidencial, Zema cravou o objetivo de “livrar o Brasil do PT, dos parasitas do estado e das facções criminosas”. “Ele já está posicionado nacionalmente, é pré-candidato à Presidência da República com um discurso muito claro sobre segurança pública desde maio, quando foi a El Salvador”, disse um interlocutor.
Zema tem mesclado o posicionamento intenso nas redes sociais a viagens. Logo após a megaoperação do Rio de Janeiro, ele foi ao estado, onde se reuniu com o governador Cláudio Castro (PL). Também viajou a Brasília para reuniões com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos), e governadores da direita durante a tramitação do PL Antifacção. Na oportunidade, o chefe do Executivo mineiro deu coletiva sozinho após o encontro, chamando para si um protagonismo ao defender mudanças profundas na legislação brasileira para o enfrentamento do crime organizado.
Nos bastidores, o entendimento é o de que o combate às facções está entre os temas de maior interesse da população atualmente, o que justifica a grande atenção dada por Zema à temática. Percepção semelhante à do cientista político Adriano Cerqueira. “A megaoperação no Rio impactou profundamente a política nacional, colocou na agenda de 2026 a questão da segurança pública e deverá ser um dos assuntos dominantes da eleição presidencial”.
Cerqueira diz que, no debate sobre segurança pública, Zema e os demais pré-candidatos da direita ao Planalto, como os governadores Tarcísio de Freitas (Republicanos), de São Paulo, e Ronaldo Caiado (União), de Goiás, podem sair em vantagem na disputa com o presidente Lula (PT). “O presidente não tem reagido bem à operação no Rio de Janeiro, perdeu pontos na avaliação pública”, disse. Em 12 de novembro, pesquisa da Genial/Quaest mostrou que a avaliação do governo Lula caiu para 47%.
Bancada mineira critica avaliações do governador
Enquanto faz da segurança pública sua principal bandeira, Romeu Zema enfrenta resistência entre deputados estaduais que têm as raízes ligadas ao combate à criminalidade. O presidente da Comissão de Segurança Pública da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, Sargento Rodrigues (PL), criticou os posicionamentos do governador.
“Aconteceu a megaoperação, ele viu a visibilidade que teve o governador Cláudio Castro e vem tentando surfar. Mas aqui, em Minas, sabemos que a história é diferente”, afirmou o parlamentar ao criticar a gestão de Zema na segurança pública.
Rodrigues diz que as polícias Militar, Civil e Penal e o Corpo de Bombeiros operam com déficit de oficiais. As corporações também enfrentam dificuldades que vão de problemas na estrutura de unidades à falta de armamentos e equipamentos de trabalho.
“Nesses 27 anos de mandato, e há oito biênios presidindo a comissão, jamais vimos uma situação tão grave de falta de efetivo na Polícia Militar, Polícia Civil e Corpo de Bombeiros. O marqueteiro dele é bom, está tentando, mas nós sabemos qual é a verdade”, disse o deputado.


