Política Nacional de Saúde Bucal, lançada em 2004, foi retomada no ano passado, como especialidade obrigatória do Sistema Único de Saúde

O bancário Thiago Magalhães Tavares, 43, tem por hábito ir ao dentista a cada seis meses, mesmo quando não há nenhuma dor o incomodando. “Sempre vou para fazer uma limpeza completa, o que não é possível no dia a dia”, explica. Esse trabalho preventivo é fundamental para evitar cáries e outros problemas de saúde bucal. Mas o exemplo de Tavares não representa a realidade de grande parte dos brasileiros. Pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde, em parceria com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre 2013 e 2019, revela que 55% da população não vai ao consultório na frequência recomendada – espera-se uma consulta por semestre ou pelo menos uma vez ao ano.

A pandemia ampliou um desestímulo que aponta para uma questão cultural, apesar de o governo federal ter investido na higiene oral a partir da implantação da Política Nacional de Saúde Bucal em 2004, um marco na tentativa de democratizar o acesso aos cuidados odontológicos no Brasil. “Somos, realmente, um país de desdentados, obviamente pela questão da cultura – não só de ir ao dentista, como também em relação aos cuidados básicos de higiene em casa”, ressalta a cirurgiã-dentista Patrícia Goulart, sócia-proprietária do Instituto Bionúcleo Buritis Odontologia Especializada.

“O que esperamos é (uma frequência) de seis em seis meses ou, pelo menos, uma vez ao ano. Infelizmente temos a cultura de ir ao dentista somente quando há uma emergência ou em caso de dor. Há uma geração, dos anos 1950 e 1960, que passou por tratamentos odontológicos muito invasivos, quando arrancavam muito mais dentes, gerando muitos traumas. É uma geração traumatizada e que passou isso para as gerações seguintes, criando esse medo de ir ao dentista”, analisa Patrícia, que ressalta que esse quadro é mais perceptível nas classes C e D.

Melhora

A Política Nacional de Saúde Bucal tem buscado criar ferramentas para, justamente, tornar o dentista mais acessível a essa camada da população. “Houve, sim, uma melhora, com diminuição da taxa de CPOD (padrão que avalia a prevalência da cárie dentária, usado pela Organização Mundial da Saúde) e consequente aumento de dentes restaurados. Mas não é suficiente para garantir a saúde bucal. Ainda temos muito a evoluir em relação à propagação de políticas públicas para uma conscientização maior da população em relação aos hábitos corretos”, enfatiza a cirurgiã-dentista Thaís Lupiañez Malta.

Assim como Patrícia, Thaís também enxerga uma questão cultural que, “como qualquer outro tabu, ainda vai precisar de algumas décadas para que, de fato, as pessoas entendam o assunto e sua importância, especialmente como a saúde bucal está relacionada diretamente à saúde geral”. Esse é um alerta importante do qual poucos têm conhecimento – a higienização correta pode ajudar a prevenir o desenvolvimento de outras enfermidades, como a endocardite bacteriana, a pneumonia, o agravamento da diabetes e até mesmo a impotência sexual.

“Tenho essa preocupação (com a saúde bucal) há muito tempo, desde quando era mais novo e precisei usar aparelho nos dentes. A minha geração e as mais novas têm esse cuidado, mas a de meus pais não teve tanto esse hábito. Procuro provocá-los para que possam ir ao dentista com maior frequência”, confirma Tavares. Outro reforço nesse sentido foi dado pelo governo federal. No ano passado, o presidente Lula sancionou o Projeto de Lei 8.131/2017, que inclui a Política Nacional de Saúde Bucal na Lei Orgânica da Saúde. Com isso, os atendimentos odontológicos passam a ser um dos itens obrigatórios do Sistema Único de Saúde (SUS).

Prevenção.

“Apesar de não trabalhar na rede pública, eu noto que realmente houve um investimento, principalmente em termos de atendimento, nos postos de saúde, com mais equipamentos e aumento no número de consultórios e profissionais, mas isso tudo na parte de tratamento. A falha talvez seja na falta de maior empenho na prevenção”, observa Patrícia Goulart. “Acredito que, por ser um projeto relativamente recente incrementado no Brasil, ele ainda não tenha atingido um número considerável de pessoas”, pondera Thaís Malta.

Além da questão cultural e da falta de recursos de classes menos favorecidas, Patrícia aponta ainda, entre os “culpados”, a alimentação do brasileiro. “As crianças estão tomando refrigerante e comendo muito alimento açucarado desde cedo, assim como alimentos pastosos, que aderem ao dente. As pessoas escovam os dentes pela manhã, saem e ficam o dia inteiro sem escovar porque não têm o costume de andar com uma escova na bolsa, sem poder fazer a higienização após almoçar. O mínimo são três escovações ao dia e uso do fio dental, que é o mais importante”, recomenda.

BH conta com 347 equipes de odontologia

Subsecretário de Atenção à Saúde da Secretaria Municipal de Saúde em Belo Horizonte, André Menezes destaca que a Política Nacional de Saúde Bucal favoreceu a entrada das equipes de higiene bucal no Programa de Saúda da Família, oferecido pelos 152 centros de saúde instalados na capital mineira. Atualmente são 347 equipes dedicadas à odontologia.

Aliás, o Brasil registra atualmente cerca de 45% de cobertura em saúde bucal. A meta do governo federal, divulgada na semana passada pela ministra da Saúde, Nísia Trindade, justamente para celebrar as duas décadas da Política Nacional de Saúde Bucal, é alcançar pelo menos 70%.

“Ao longo desses 20 anos, o que Belo Horizonte vem fazendo é agregar equipes nas unidades de saúde, além de ampliar especialidades odontológicas”, registra. Também passaram a ser feitas próteses removíveis nos centros de saúde, ampliando, segundo ele, o acesso da população a essa oferta.

Em 2023, de acordo com dados fornecidos pela secretaria, foram feitas 489.890 consultas odontológicas, quase 70 mil a mais do que em 2022, que registrou 421.008 consultas. Neste ano, até maio, já foram realizadas 192.084 consultas.

“Nesses últimos dois anos, sobretudo, ampliamos também a odontologia hospitalar, na rede própria, para casos em que há necessidade de uma internação ou procedimento maior, sob efeitos de sedação”, explica Menezes, lembrando que casos mais complexos vão para o Hospital Odilon Behrens.

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