Viajar está na essência da empresária Amanda Lima, 28, desde que se entende por gente. Aos 6 anos, depois de chegar de uma excursão da escola, em vez de correr para os braços dos pais como os colegas fizeram, ela desatou a chorar. “Voltei para o ônibus porque queria viajar mais”, recorda. “Acho que o despertar do desejo (de viajar) veio por meio da profissão do meu pai, que sempre exigiu muitas viagens, inclusive mudanças da família toda para fora do país”, contextualiza. Os episódios ativaram nela um prazer jamais abandonado: o de estar sempre na estrada.

A vontade de explorar novos lugares já levou Amanda, nascida em São Paulo, mas moradora de Belo Horizonte, a conhecer 15 países, da América à Europa. Além disso, a empresária, que acabou de retornar de uma viagem de férias, destina, todos os meses, parte de seus rendimentos para a próxima aventura fora de casa. “Eu e meu marido nos organizamos mensalmente e separamos parte do nosso orçamento para os nossos hobbies, entre eles, viajar”, conta.

O que explica esse desejo genuíno de Amanda? Para muitas pessoas, esse comportamento pode ser denominado “dromomania”. Entretanto, segundo especialistas, o conceito, que se caracteriza por um impulso incontrolável de sair de casa e perambular sem destino, tem sido associado ao prazer constante em estar fora de casa, quando, na verdade, em seu sentido original, diz respeito a uma condição psicológica, geralmente proveniente de um tipo de transtorno mental.

Doutor em psicologia social e professor da Escola de Ciência da Informação da UFMG, Cláudio Paixão destrincha o conceito: “‘Dromomania’ vem do grego, em que ‘dromo’ é correr, e ‘mania’, impulso incontrolável. Originalmente, pessoas com esquizofrenia, transtorno de personalidade, fuga dissociativa ou borderline tinham impulsos de sair andando sem destino, de perambular ou até de morar na rua”, explica o psicólogo.

Com a difusão da palavra, observa o psicólogo, começou-se a observar descrições distintas da palavra original. “O segundo conceito tem uma ideia meio romântica de pessoas que resolvem viajar com pouco dinheiro, envolvem-se em aventuras e são descritas como livres”, conceitua. “Por fim, a terceira ideia é um desenho intermediário entre os dois conceitos e fica entre o sintoma psiquiátrico de doença mental e do outro conceito mais ‘modinha’. Essa pessoa tem uma compulsão por viajar, e aí despende uma energia muito grande para isso. É uma espécie de vício”, complementa o especialista.

A própria Amanda não se considera uma pessoa com dromomania, porque não viaja seguindo um impulso incontrolável ou para ficar longe da própria casa. A empresária sempre se planeja e busca o novo em busca de experiências construtivas. “Viajo pela paixão por conhecer o mundo, as diferentes culturas, culinárias, línguas… Tudo desperta o meu interesse e curiosidade”, pondera. O psicólogo, inclusive, analisa positivamente esse tipo de atitude. “Existe um desejo de viajar extremamente interessante chamado de ‘ludambulismo’, no qual há prazer e divertimento em sair do lugar em que vive para ter experiências novas, como faz o peregrino”, discute.

Gatilhos, riscos e tratamentos para a dromomania

Pensando na dromomania em seu conceito original, além de afetar pessoas com quadros psiquiátricos, ela pode ser ativada por meio de alguns gatilhos. Uma crise familiar pode levar uma pessoa a ter esse comportamento, por exemplo. “Também há pessoas que querem fugir da sua rotina cotidiana buscando outro tipo de vida, ou passam por situações desagradáveis e escolhem abandonar esses problemas, como acontece com adolescentes que fogem”, exemplifica Cláudio.

Quanto aos problemas de um comportamento dromomaníaco, estão riscos à integridade física da pessoa que sofre da condição, uma vez que o impulso de sair de casa pode levá-la a morar na rua, além de interferir nas relações pessoais e de trabalho. “Esse comportamento se torna um problema quando começa a interferir na vida da pessoa a ponto de prejudicá-la, gerando dívidas e uma situação que vai sacrificá-la dentro da sociedade”, analisa.

A dromomania pode ser tratada por meio de terapia ou de uso de remédios, como ansiolíticos. Antes de mais nada, é preciso identificá-la. “Se a pessoa fica deprimida de tal maneira após uma viagem a ponto de não conseguir se integrar novamente à rotina, ou se gasta todo o dinheiro e tempo dela em viagens, são exemplos de casos em que é preciso procurar tratamento”, diz o psicólogo.

Por fim, Cláudio destaca a máxima de que “tudo que é demais é impulso”. Isso significa que viajar é ótimo, especialmente quando a ideia é vivenciar novas experiências e conhecer outras culturas. Mas, para uma vida equilibrada, é primordial integrar viagens ao cotidiano, não transformá-las em objetivo único de vida.

próximo artigoMinistério da Saúde distribui novo medicamento para pacientes com HIV
Artigo seguinteRaio X: veja como está o elenco do Cruzeiro, por posição, e quem pode sair