Você é uma criança e as suas únicas preocupações são brincar com os amigos e assistir o seu desenho preferido. De repente, você se encontra no corpo mais desenvolvido, diferente de todos os seus colegas. Os pêlos começam a crescer, a acne aparece no rosto e a silhueta muda subitamente. Parece enredo de filme de ficção, mas é a realidade de quem passa pela puberdade precoce.

Calliandra Rochelle, estudante de Administração na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, foi uma dessas crianças. Aos 5 anos, ela já tinha espinhas no rosto. Aos 7, os seios começaram a crescer. Aos 9, ela menstruou pela primeira vez. 

“As pessoas ao meu redor achavam que eu estava doente, que tinha alguma coisa errada comigo. E eu me perguntava: ‘Isso não é normal?’. Porque eu via nos livros de ciências da escola, mas não entendia que não era normal para a minha idade”, relata Calliandra.

Enquanto ela só queria brincar, os pais a levaram a um endocrinologista. Foi lá que ela entendeu o motivo de o seu corpo não condizer com a idade — era a puberdade precoce.

O que é a puberdade precoce?

“A puberdade precoce é quando há um desenvolvimento sexual antes da idade considerada normal, geralmente antes dos 8 anos nas meninas e antes dos 9 nos meninos”, explica o dr. Bruno Leandro, pediatra e professor do curso de Medicina do Centro Universitário de João Pessoa (Unipê).

As causas podem ser multifatoriais: fatores genéticos, problemas do sistema endócrino e doenças que estimulam a produção de hormônios sexuais antes do esperado são alguns dos motivos. 

“No endocrinologista, viram que os meus níveis hormonais estavam muito alterados e a minha idade óssea era mais avançada do que a idade real”, conta Calliandra.

No caso dos meninos, a puberdade precoce geralmente está associada a uma doença mais grave, como tumor cerebral, doença de McCune-Albright, hipotireoidismo ou deficiência no hormônio de crescimento.

Quais são os sinais da puberdade precoce?

Para Calliandra, os primeiros sintomas da condição foram o surgimento de espinhas no rosto, o desenvolvimento das mamas e a menstruação. Nas meninas, esses costumam ser os principais sinais, além do crescimento de pêlos nas axilas e nas regiões íntimas e o aumento do odor corporal.

Já nos meninos, as mudanças são mais sutis. A principal alteração é o crescimento dos testículos, bem como os pêlos, o odor corporal e o engrossamento da voz. Por isso, é muito importante que os pais ou responsáveis estejam atentos ao crescimento dos filhos, para não deixar nenhum sinal passar despercebido.

“Mas é importante lembrar que a gente precisa ver cada caso individualmente por um especialista”, ressalta o dr. Bruno.

Qual é o tratamento da puberdade precoce?

Foi o que Calliandra fez. Assim que as primeiras mudanças aconteceram, ela passou por diversos especialistas até chegar no endocrinologista que a diagnosticou. De acordo com o pediatra, os profissionais que podem ajudar são:

  • os próprios pediatras, que já acompanham o desenvolvimento da criança;
  • os endocrinologistas pediátricos, mais capacitados para fazer essa avaliação;
  • ou os geneticistas, que também podem colaborar no diagnóstico.

“Com 7 anos, comecei a tomar uma injeção mensal de bloqueadores hormonais para retardar a puberdade e evitar a minha menstruação, porque tinham medo que eu parasse de crescer”, relata Calliandra.

Ao longo do processo normal da puberdade, o organismo passa a produzir certos hormônios em maior quantidade, como o LH e o FSH. São eles que provocam as mudanças no corpo e também alteram o humor e o comportamento. A primeira menstruação é a última fase do processo, desacelerando o crescimento da menina, que normalmente vai até os 11 anos.

Na puberdade precoce, porém, esses hormônios são produzidos antes do tempo, o que faz com que a criança cresça rapidamente, mas também pare de crescer na mesma velocidade, por volta dos 8 anos.

O tratamento de Calliandra consistia na aplicação de injeções de supressores hormonais que param ou desaceleram o desenvolvimento sexual e o crescimento ósseo. Mas como o medicamento era muito caro na época, a família não conseguiu continuar o tratamento.

“Minha mãe chegou a comprar duas ou três doses e não teve mais dinheiro. Eu só fui retomar a partir dos 9 anos, quando eu comecei a menstruar e ela conseguiu a medicação pelo SUS”, explica a estudante.

A menstruação ficou suspensa durante a aplicação dos bloqueadores hormonais, que se prolongou até os 12 anos de idade. Ao encerrar o tratamento, o fluxo voltou normalmente e Calliandra ainda cresceu alguns centímetros, chegando aos 1,56 cm de altura. “Basicamente, o meu desenvolvimento continuou de onde tinha parado”, afirma. 

Em geral, o tratamento é feito com os supressores hormonais, que estão disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS), não possuem efeitos colaterais graves e não afetam a fertilidade. Já quando a puberdade precoce é um sintoma de outra doença, como um tumor, o tratamento é voltado para esse problema e pode envolver cirurgia.

A saúde mental das crianças durante a puberdade precoce

Ao longo de todo o tratamento, é fundamental continuar passando pelo médico para monitorar o progresso da criança. Até porque, além da baixa estatura, existem outras complicações que podem ser provocadas pela puberdade precoce, como maior risco de desenvolver obesidade, diabetes tipo 2 e câncer de mama ou testículo.

“Há ainda os problemas emocionais e impactos psicossociais, principalmente porque há um amadurecimento do corpo antes do tempo previsto. Muitas vezes, o lado emocional não está preparado para lidar com as limitações e adaptações que vêm junto”, alerta o dr. Bruno.

Ansiedade, baixa autoestima, depressão e dificuldade no relacionamento com os colegas são algumas das condições que podem acompanhar esse período. 

Calliandra sempre viu as mudanças que aconteciam com ela com muita naturalidade, acreditando que apenas estava passando mais cedo por alterações que iriam acontecer com todo mundo. Os seus familiares, no entanto, ficaram muito nervosos e acabaram conduzindo a situação no sentido contrário.

“Tudo o que é diferente assusta. Eles não conheciam ninguém que tivesse passado pela mesma situação, então parecia que eu estava errada de estar tranquila”, diz a estudante. “Eu sinto que a minha infância acabou muito rápido. Eu não aproveitei como as outras crianças. Porque tem toda uma questão de que quando a menina se torna ‘mocinha’, tem que se comportar de tal jeito, se vestir de tal jeito, não pode mais brincar. Acho que eu pulei algumas etapas”, continua.

O entendimento dos pais ou responsáveis é essencial para garantir tranquilidade à criança e a compreensão do que está acontecendo com ela. “É fundamental oferecer apoio emocional e criar um ambiente aberto para comunicação, buscando orientação dos profissionais de saúde para lidar com as causas e ir atrás dos tratamentos adequados”, aconselha o pediatra. 

O apoio psicológico especializado também é uma alternativa. 

Atenção redobrada aos assédios

Essa rede de apoio se torna ainda mais importante devido ao risco de assédio na infância. Infelizmente, o desenvolvimento de características sexuais em uma criança a torna mais vulnerável para o risco de abuso sexual e gravidez precoce, colocando até mesmo a sua vida em perigo. 

Desde os 7 anos, Calliandra se lembra dos olhares estranhos e dos assovios na rua. Na época, ela não entendia o que estava acontecendo, já que sempre andava acompanhada de um familiar ou responsável. A compreensão só veio anos depois. “Definitivamente, os assédios começaram mais cedo para mim”, afirma.

“É importante conversar com as meninas sobre assédio, mas também com os meninos. Os pais devem usar uma linguagem apropriada para a idade e incentivar que a criança relate qualquer tipo de situação em que se sinta desconfortável. Se tiverem alguma dificuldade, podem pedir ajuda de um profissional”, recomenda o dr. Bruno.

É importante acreditar na criança e sempre oferecer escuta, para que elas não tenham vergonha ou medo de procurar um adulto de confiança. Se a criança for vítima de assédio, o indicado é denunciar o ocorrido às autoridades e tomar as medidas adequadas para protegê-la. 

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