Brasil deve evitar extrema direita ou esquerda radical no poder, diz escritor

Lisboa — Dentro de pouco menos de duas semanas, o Brasil irá às urnas sob o olhar atento do mundo. O resultado das eleições mais polarizadas da história terá reflexos não apenas na América Latina, mas no planeta como um todo, sobretudo pelo fato de o país abrigar um dos ícones da extrema-direita, o presidente Jair Bolsonaro (PL), que tenta a reeleição.

Na avaliação do professor e economista Rafael Pampillón, da IE University, com sede em Madri, os riscos são grandes tanto se a maioria der mais quatro anos de mandato a Bolsonaro quanto se a vitória for do petista Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Com a reeleição do atual presidente, as instituições terão de ser fortes o suficiente para conter movimentos autocráticos, e, no caso de eleição de Lula, para garantir que prevaleça a social-democracia e não o radicalismo inerente à parcela da esquerda.

Autor do livro Quando os eleitores perdem a paciência, Pampillón avalia que a opção do eleitorado por regimes extremistas decorre das consecutivas crises econômicas, das perdas acumuladas pelas classes menos favorecidas dos países ricos com a globalização, da corrupção frequente e das imensas desigualdades sociais.

Cansada, insegura, inquieta, a população acaba se rendendo ao populismo barato e às falsas promessas. Esse quadro está presente nos Estados Unidos, na Europa, na Ásia e na América Latina, em especial, no Brasil. “Quando as pessoas estão insatisfeitas com o governo, a frustração quase sempre leva a uma mudança política radical”, assinala. Esse movimento, acredita ele, intensificou-se durante a pandemia.

O que todos devem ficar atentos é que, em meio à confusão e às incertezas, os eleitores podem cometer erros históricos, como o que levou Adolf Hitler ao poder na Alemanha, nos anos de 1930, que resultaram na Segunda Guerra Mundial. Para que fatos como esse não se repitam, mesmo que em menor proporção, políticos moderados, sejam de esquerda, sejam de direita e mesmo de centro, devem estar presentes no debate público e adotar um discurso que rompa com o radicalismo.

Na avaliação do professor, hoje, a percepção é a de que os eleitores não se sentem representados pelos partidos políticos de centro e, por isso, votam nos extremos. “Candidatos populistas, tanto da extrema direita quanto da extrema esquerda, parecem mais aptos a capitalizar a frustração dos eleitores, gerada, em 2020, pela pandemia e, agora, pela crise energética causada pela invasão russa na Ucrânia”, reforça. E acrescenta: “Os populismos de extrema direita e extrema esquerda, como é o caso do Brasil, surgem como consequência da insegurança social, econômica e trabalhista de muitos cidadãos”.

O escritor diz, ainda, que o confronto entre Lula e Bolsonaro gerou um sério conflito de legitimidade política, justamente em um momento em que políticas ortodoxas — defendidas com mais vigor por partidos de centro — seriam providenciais para resolver a crise econômica do país, envolver pessoas mais qualificadas para executar um plano de ação global e buscar maior apoio social.

“Como se não bastasse, os problemas no Brasil se agravam porque a classe política atual é, provavelmente, a menos qualificada em muitas décadas. Os atuais líderes promovem a divisão e a vitimização, abusam da manipulação de informações e estão mais preocupados com o marketing eleitoral do que com o bem-estar da população”, sentencia.

A seguir, os principais trechos da entrevista de Pampillón ao Correio.

Temos assistido a mudanças radicais tanto na política quanto na economia mundo afora. O que isso representa?

As oscilações dos pêndulos da política e da econômica são fenômenos que vêm ocorrendo ao longo da história nos últimos 200 anos. Quando as pessoas estão insatisfeitas com o governo, a frustração quase sempre leva a uma mudança radical. Ou seja, as pessoas votam na alternativa política, esperando que sua situação econômica melhore.

O senhor afirma, em seu livro, que os eleitores perderam a paciência. O que efetivamente quer dizer com isso?

Os eleitores perdem a paciência com os governantes quando seu bem-estar é reduzido. Ou seja, quando o desemprego aumenta, o crescimento econômico diminui, a pobreza cresce e a inflação dispara. Assim, os cidadãos vão às urnas e punem o partido no poder. Em muitos países latino-americanos, como, por exemplo, Chile, Peru e Colômbia, à medida que a covid-19 se espalhava, os eleitores se sentiam cansados. E abandonaram os partidos tradicionais, dando lugar a governos de esquerda.

Quais as consequências para os países desse sentimento de desgosto dos eleitores?

Às vezes, as consequências são boas, às vezes, não. Em alguns casos, os eleitores estavam certos, em outros, errados. Na Alemanha dos anos de 1930, os cidadãos ficaram frustrados com a má-gestão da República de Weimar. Hitler foi, então, alçado ao poder para tirar a economia alemã da Grande Depressão. Eles estavam errados. Por outro lado, os norte-americanos estavam certos quando o Ronald Reagan (republicano) ganhou as eleições em 1980 nos Estados Unidos. De fato, Jimmy Carter (democrata), que se tornou presidente em 1976, estava errado com suas políticas econômicas. Carter tentou resolver vários problemas muito graves, como os altos índices de inflação e desemprego, mas falhou.

Isso fez com que, na disputa eleitoral seguinte, em 1980, os eleitores dessem apoio maciço ao seu rival, Ronald Reagan. De (Richard) Nixon até hoje, os eleitores norte-americanos vêm alternando entre presidentes democratas e republicanos, dependendo da frustração econômica de cada momento. No meu livro, “Quando os eleitores perdem a paciência”, são analisados casos radicais de política econômica na história dos Estados Unidos e da Europa Ocidental. Mas, também, encontramos a China em suas páginas, para entender a situação atual do gigante asiático, que teve uma mudança de pêndulo em sua economia desde 1978.

Quando ficou claro esse descontentamento dos eleitores?

O processo de globalização melhorou a renda das classes médias nos países emergentes — como o Brasil —, mas piorou a renda das classes média baixa e baixa no mundo desenvolvido. Foram essas classes menos privilegiadas dos países ricos, que perderam seus empregos porque trabalhavam em setores sem futuro, que geraram um clima de protesto contra seus governos. Criou-se uma perigosa amálgama, numa sociedade cansada, hipersensível e cada vez mais confusa.

São precisamente esses setores desfavorecidos da população que votaram em Donald Trump, nos EUA; em Marine Le Pen, na França; em Viktor Orbán, na Hungria; em Jair Bolsonaro, no Brasil; em Tayyip Erdogan, na Turquia; em Geert Wilders, na Holanda; em Vladimir Putin, na Rússia; etc. São políticos populistas, que se consideram intérpretes e executores da “vontade do povo”.

Defendem um nacionalismo baseado em um Estado de bem-estar amplo e, em alguns casos, no medo da imigração, que associam à perda de oportunidades para os cidadãos nativos. Além disso, durante o ano de 2020, à medida que a covid-19 se espalhava pelo mundo, alguns desses líderes populistas defenderam políticas de “negação”, rejeitando a existência e/ou a importância do vírus ou negando as vacinas que foram aprovadas para combatê-lo.

O Brasil saiu de um governo de esquerda para um de extrema direita? Por que esse movimento tão brusco?

Talvez porque os eleitores não se sintam representados pelos partidos políticos de centro e, por isso, votam nos extremos. Candidatos populistas, tanto da extrema-direita quanto da extrema-esquerda, parecem mais aptos a capitalizar a frustração dos eleitores, gerada, em 2020, pela pandemia e, agora, pela crise energética causada pela invasão russa na Ucrânia. Os populismos de extrema direita e extrema esquerda, como é o caso do Brasil, surgem como consequência da insegurança social, econômica e trabalhista de muitos cidadãos. Frustração que se deve também à crescente desigualdade na distribuição de renda, provocada pelo aumento do desemprego e pela redução dos salários nos grupos menos privilegiados.

Mas não são apenas as seguidas crises econômicas que estão por trás de todas as mudanças que estamos assistindo, certo?

De acordo com as pesquisas, muitos cidadãos percebem que há outros problemas que permanecem sem solução: corrupção, desigualdade, democracia insuficiente e promessas quebradas. As eleições são, portanto, uma oportunidade para muitos eleitores expressarem, por meio do seu voto, se percebem ou não a crise econômica, mas, também, são um termômetro que mede o desinteresse demonstrado pelos entrevistados, em pesquisas de opinião, por Bolsonaro.

Como vê a polarização extrema entre Lula e Bolsonaro?

O confronto entre Lula e Bolsonaro gerou um sério conflito de legitimidade política, justamente em um momento em que políticas ortodoxas — defendidas com mais vigor por partidos de centro — seriam providenciais para resolver a crise econômica, envolver pessoas mais qualificadas para executar um plano de ação global e buscar maior apoio social.

Como se não bastasse, os problemas no Brasil se agravam porque a classe política atual é, provavelmente, a menos qualificada em muitas décadas. Os atuais líderes promovem a divisão e a vitimização, abusam da manipulação de informações e estão mais preocupados com o marketing eleitoral do que com o bem-estar da população. O capitalismo é posto em causa e confia-se ao Estado resolver os principais problemas econômicos.

Vemos essa polarização radical em todo mundo, com a extrema direita ganhando espaço rapidamente. Por que isso?

De fato, a extrema direita está ganhando espaço na Itália, na França, na Hungria e nos Estados Unidos. Mas os governos do centro também têm ganhado destaque. Ou seja, políticos mais equilibrados, como Emmanuel Macron, na França; Olaf Scholz, na Alemanha; António Costa, em Portugal; Mark Rutte, na Holanda; e Justin Trudeau, no Canadá. São exemplos de políticos de países ricos que decidiram não embarcar na onda populista.

Apontam mais para políticas de estabilidade macroeconômica, administrações públicas mais eficientes, sistemas fiscais mais equitativos, supressão do favoritismo e excesso de procedimentos burocráticos, bem como a promoção da concorrência e da segurança jurídica. Isso significa que o conflito redistributivo nos países mencionados tenderá a ser menor.

E deve-se notar, também, que alguns países europeus, incluindo Alemanha, França, Espanha, Portugal e Holanda, estão conseguindo vínculos cada vez mais fortes e caminham para um mercado mais integrado e uma maior união política na Europa. No entanto, também existem incertezas no horizonte europeu. Olhando para as próximas eleições presidenciais na França (um dos motores da União Europeia), as duas principais alternativas ao presidente Macron, que não poderá concorrer a um terceiro mandato, são a extrema-direita de Le Pen e a extrema-esquerda de Jean-Luc Mélenchon.

O que os resultados das eleições presidenciais do Brasil vão sinalizar para o mundo? Por quê?

O Brasil é o país mais populoso e tem a maior economia da Ibero-América, com uma influência que se projeta na região e no mundo. É importante por sua participação no Brics, no qual divide a mesa com China e Rússia em um momento difícil. Por um lado, será interessante ver, se Lula vencer, como o eleitor reagirá após quatro anos de bolsonarismo, se a esquerda tradicional latino-americana optará por posições mais inclinadas e ideológicas ou retornará à social-democracia, como ocorreu em um passado recente.

Neste momento, os governos de Gabriel Boric (Chile), Gustavo Petro (Colômbia) e, potencialmente, o de Lula, no próximo ano, têm que decidir entre uma esquerda moderada, que favoreça o mercado acompanhado de medidas sociais, ou se opta por um caminho mais radical, como aconteceu na Argentina e na Nicarágua, o que seria desastroso para a região e para o Brasil.

O crescimento da extrema direita é irreversível? Os eleitores estão realmente mais conservadores?

Mais do que extrema direita ou extrema esquerda, o crescimento em nível internacional se dá em movimentos populistas que, dependendo do país, têm características diferentes. Nos países mais polarizados, as eleições estão sendo decididas por uma margem estreita de votos, como aconteceu nos EUA, onde Joe Biden derrotou Trump, que pode ser considerado populista e não de extrema-direita. Enquanto a democracia gozar de instituições sólidas, os eleitores poderão mudar sua opção política. E, de fato, o fazem porque o extremismo de qualquer tipo geralmente não oferece resultados satisfatórios para a sociedade.

O problema é quando as instituições democráticas não têm força para resistir à passagem de um autocrata como chefe de Estado, como aconteceu com Nayib Bukele, em El Salvador, Daniel Ortega, na Nicarágua, e Viktor Orbán, na Hungria. Nesses casos, mais do que um crescimento de posições extremas, o que se observa é uma perseguição legal, midiática e até física aos moderados, o que faz com que percam cargos nas eleições.

Como convencer os eleitores dos riscos de movimentos extremistas?

Explicando a eles que, para a economia crescer e criar empregos no longo prazo, é preciso aumentar a produtividade. O que um governo precisa fazer para aumentar a produtividade? Na minha opinião, comprometer-se com um sistema educacional que premia a excelência e melhora o capital humano das empresas. Também proporcionar às empresas mais inovação, facilitando, por exemplo, o aumento do investimento em pesquisa e tecnologia. Além disso, é essencial obter energia mais barata.

Outro aspecto fundamental é conseguir uma maior unidade de mercado ou, o que dá no mesmo, reduzir os custos das empresas que operam em vários territórios, o que implica submeter-se a múltiplas regulamentações regionais e municipais. Por fim, é conveniente favorecer o crescimento em tamanho das empresas.

Os políticos mais moderados ainda têm condições de reconquistar os eleitores?

Tanto a esquerda quanto a direita liberais e não extremistas têm condições de voltar a cativar os eleitores, mas precisam lançar um novo contrato social focado em responder às preocupações e às necessidades da maioria social neste momento. Soluções consideradas não demagógicas ou ideologizadas. Para isso, é necessário que a centro-direita e a centro-esquerda não joguem com o extremismo e o populismo, pois, quando começam a imitar os extremos, os eleitores têm a opção de “comprar” o original (extremismo) ou uma cópia (partidos políticos imitando extremistas), mas acabam optando pelo extremismo.

O mundo ainda está saindo de uma pandemia, há uma guerra entre a Ucrânia e a Rússia. Que impacto isso tem entre os eleitores?

Incerteza, ansiedade, insegurança… Diante disso, parte da sociedade busca soluções simples, que gerem segurança. E é nesse terreno fértil que o populismo e o extremismo, com suas mensagens, podem capitalizar o apoio eleitoral.

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