Telescópios indicam que o teste de defesa planetária da Nasa teve sucesso

O inédito teste para “salvar a Terra” orquestrado pela Nasa no começo da semana foi acompanhado, em tempo real, por cientistas e curiosos de vários cantos do mundo e também por dois grandes observatórios da agência espacial americana: os telescópios James Webb e Hubble. Ontem, foram divulgadas as primeiras imagens feitas pelos equipamentos — que, pela primeira vez, observaram simultaneamente um mesmo alvo celeste. Elas sinalizam que o impacto pode ter sido maior do que o previsto, o que reforça a expectativa de que a missão teve o seu objetivo alcançado.

O Double Asteroid Redirection Test (DART) foi lançado em novembro passado para se colidir com Dimorphos a 11 milhões de quilômetros de distância da Terra e, com o choque, mudar a rota do asteroide. A colisão ocorreu conforme o planejado. Agora, dados colhidos pelos telescópios vão ajudar a equipe a concluir se o desvio aconteceu. Segundo Ian Carnelli, da Agência Espacial Europeia (ESA), as fotografias retratam um impacto aparentemente “muito maior que o esperado”.

“Eu realmente fiquei preocupado que não restasse nada do Dimorphos”, admitiu Carnelli à agência France-Presse de notícias (AFP). A ESA lançará a missão Hera, prevista para outubro de 2024, para chegar ao asteroide em 2026 e avaliar a cratera. A previsão era de que ela tivesse aproximadamente 10m de diâmetro. Carnelli conta que, com as imagens feitas pelos telescópios, os planos mudaram. “Parece que será muito maior se houver uma cratera. Talvez, uma parte do Dimorphos tenha sido cortada”, cogita.

DART, que tinha o tamanho de um carro de passeio, colidiu, na segunda-feira, com o asteroide de 160m de diâmetro, o equivalente a quatro Cristos Redentor, a uma velocidade superior a 20.000km/h. Dimorphos estava a um quilômetro do asteroide Didymos, com 780m, e o orbita em 11 horas e 55 minutos. A expectativa é de que, com o choque, esse tempo seja reduzido em 10 minutos.

É provável que os telescópios e radares ligados à Terra levem pelo menos uma semana para uma primeira estimativa de quanto a órbita do asteroide foi alterada. Para uma medição precisa, Carnelli diz que o prazo é de três ou quatro semanas. “Estou esperando uma deflexão muito maior do que planejamos”, confessa o gerente de projetos da missão Hera.

Astrônomo da Queen’s Universisty Belfast, Alan Fitzsimmons afirma que, mesmo se nenhuma matéria tivesse sido “arremessada para fora” do Dimorphos, o DART teria afetado levemente sua órbita. “Mas quanto mais matéria e quanto mais rápido estiver se movendo, maior será a deflexão”, explica.

Dados diversos

Segundo a Nasa, as imagens feitas pelos telescópios mostraram uma vasta nuvem de poeira expandindo para fora do Dimorphos e Didymos. Em comunicado, a agência relata que o Webb fez cinco horas de registro e capturou 10 imagens. Uma delas mostra “plumas de material aparecendo como mechas saindo do centro de onde ocorreu o impacto”. “Essa é uma visão sem precedentes de um evento sem precedentes”, resumiu Andy Rivkin, líder da equipe de investigação da DART na Universidade Johns Hopkins em Laurel.

As imagens do Hubble — de 22 minutos, cinco e oito horas após a colisão inédita — mostram o spray de matéria em expansão do lugar onde DART bateu. “Quando vi os dados, fiquei literalmente sem palavras, atordoado com o incrível detalhe do material ejetado que o Hubble capturou”, disse Jian-Yang Li do Instituto de Ciências Planetárias em Tucson, Arizona, que liderou as observações do telescópio.

Os equipamentos capturaram o impacto em diferentes comprimentos de onda de luz — Webb em infravermelho e Hubble em visível. Essa diversidade de dados permitirá que os cientistas tenham acesso a detalhes do impacto, como a distribuição dos tamanhos das partículas na nuvem de poeira e se foram lançados pedaços grandes do corpo rochoso ou partículas finas.

Ameaças reais

Um resultado positivo da missão DART também amplia as expectativas para o uso da operação contra corpos rochosos capazes de causar grandes estragos na Terra. “Isso teria grandes implicações na defesa planetária, pois significa que essa técnica pode ser usada para asteroides muito maiores”, avalia Carnelli.

Nas imediações do planeta, há cerca de 25 mil asteroides catalogados, de diferentes tamanhos, e nenhum deles ameaça a Terra pelos próximos 100 anos, segundo os cientistas. Os maiores, com um quilômetro ou mais de diâmetro, foram quase todos avistados. Porém, apenas 40% dos menores, que medem 140 metros ou mais, são conhecidos.

Agente de defesa planetária da Nasa, Lindley Johnson disse, um pouco antes do teste histórico, que é trabalho da agência espacial “encontrar os que faltam”. Logo depois do impacto, Lori Glaze, diretora de Ciências Planetárias da Nasa, avaliou que, com o cumprimento das primeiras etapas da missão, a humanidade estava “embarcando em uma nova era, onde potencialmente temos a capacidade de nos proteger de um perigoso impacto de asteroide”.

Além de avanços na área de defesa espacial, a agência acredita que os registros feitos por Hubble e Webb podem ajudar no aprofundamento de “questões científicas importantes relacionadas à composição e à história do Sistema Solar.” A operação conjunto inédita dos equipamentos também é destacada pelo órgão. “Webb e Hubble mostram o que sempre soubemos ser verdade: aprendemos mais quando trabalhamos juntos”, afirma, em nota, Bill Nelson, administrador da agência.

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