Um dos criadores do Real culpa a Rússia e os países asiáticos pelo freio no plano

BRASÍLIA. O economista Winston Fritsch, hoje com 77 anos, era um conceituado professor acadêmico quando, em maio de 1993, recebeu e aceitou o convite do amigo Fernando Henrique Cardoso (FHC) para trocar o Rio de Janeiro por Brasília, as salas de aula da PUC-Rio pelos gabinetes da Esplanada dos Ministérios.

O sociólogo Fernando Henrique, que era ministro das Relações Exteriores, havia acabado de aceitar o convite de Itamar Franco para mudar de cargo e assumir o Ministério da Fazenda. O presidente queria uma solução rápida e certeira para acabar com a hiperinflação, o mal maior da economia do país.

Com Fritsch como secretário de Política Econômica, FHC montou a equipe responsável pela criação do Plano Real. A nova moeda foi lançada em 1º julho de 1994. Ela trouxe estabilidade ao país, pondo fim aos anos de hiperinflação, herdados dos governos militares (1964-1985). FHC acabou eleito presidente e reeleito presidente do Brasil.

Passados 30 anos, Fritsch não esconde o orgulho de ter feito parte daquela equipe. “É inegável que o Plano Real deu certo e trouxe o desejado equilíbrio financeiro”, afirma. Mas ele reconhece que a estabilização não foi suficiente para deslanchar o crescimento econômico, um problema da economia brasileira até hoje.

Prejudicado pelo cenário internacional 

Para Fritsch, o maior culpado pelo freio no real, a moeda, foi o cenário internacional, que levou à rápida desvalorização diante do dólar. A equipe econômica desejava que a nova moeda continuasse equiparada à norte-americana por mais tempo. “Mas houve as crises no México, na Ásia, na Rússia…”, cita Fritsch.

O ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda acredita que o Brasil só não foi sugado por essas crises porque o real já estava consolidado. “Mas não tinha como passar ileso. Ruíram a maioria das instituições financeiras estatais estaduais e alguns bancos privados”, lembra Fritsch.

Para evitar uma quebradeira no Brasil nos oito anos de governo FHC, os economistas usaram a política cambial para ajudar a enfrentar a crise mundial. “A equipe econômica também teve que elevar os juros. Não tinha como ser diferente. A crise mundial levou a uma retirada de dólar em grandes volumes”, defende Fritsch.

Inflação baixa e juro alto resultaram em pouco crescimento econômico, sustentado em boa parte pelas exportações. O Produto Interno Bruto (PIB), que mede a riqueza produzida no país, crescia quase 6% no lançamento do Plano Real. Quatro anos depois, em 1998, a economia brasileira praticamente parou de crescer.

No mesmo ano, o mundo enfrentava os efeitos das crises externas da Ásia e da Rússia. Com a queda nas exportações e o fantasma da recessão, o governo brasileiro desvalorizou fortemente o real no início de 1999. O dólar, que custava R$ 1, passou a custar mais R$ 2, voltando depois a R$ 1,75. O Banco Central adotou o câmbio flutuante e o sistema de metas para a inflação.

As medidas deram certo em relação à maior preocupação dos economistas e da maioria dos brasileiro, a inflação. Ela esteve fora do controle nos 15 anos anteriores ao Plano Real. Vários planos econômicos foram adotados no período. E depois de cada fracasso, a inflação voltava ainda mais alta. Com o Real, foi domada. E mesmo as turbulências econômicas ou políticas não ameaçaram a estabilidade da moeda.

As crises mundiais que afetaram o Real

Crise Asiática: Em 1997, países do Sudeste e Nordeste asiático enfrentaram crise financeira que desvalorizou fortemente suas moedas, derrubou suas bolsas de valores, interrompeu o crescimento econômico e resultou na queda de governos. Países emergentes, como Rússia, Brasil e Argentina, foram atingidos. Uma das causas da crise de confiança foi o endividamento excessivo do setor privado e a incapacidade do setor financeiro de recuperar boa parte dos empréstimos concedidos. Grandes empresas asiáticas foram à falência. Governos aumentaram as taxas de juros, usaram reservas internacionais para evitar maior desvalorização cambial e pediram empréstimos ao FMI, que aprovou pacotes de ajuda financeira.

Crise do México: A crise econômica de 1994, mais conhecida como Efeito Tequila, foi provocada pela falta de reservas internacionais, causando desvalorização do peso, durante os primeiros dias da presidência de Ernesto Zedillo, com repercussão mundial. Uma depressão que fez com que em todo o mundo caíssem as cotações dos títulos dos países emergentes. Mais de 200 mil mexicanos perderam seus empregos e milhares de empresas fecharam as portas. Nas primeiras semanas do processo de desvalorização da moeda mexicana, o então presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, em articulação com organizações multilaterais, garantiu um empréstimo de US$ 50 bilhões ao México, sendo US$ 18 bilhões por meio do FMI.

Crise da Rússia: Também conhecida como a Moratória russa de 1998, resultou em uma desvalorização do Rublo e na declaração da moratória (interrupção dos pagamentos externos) até a renegociação da dívida externa. O país enfrentou altas taxas de endividamento, desemprego e inflação e baixos índices de crescimento econômico (PIB). Em grande medida este processo foi resultado de uma transição acelerada e mal sucedida de uma economia planificada para uma economia de mercado, em meio ao colapso político da União Soviética. Em 1997, a crise financeira asiática piorou sensivelmente a situação da Rússia, basicamente devido à redução da oferta de crédito internacional e à queda no preço das commodities (agrícolas, minerais e energéticas) exportadas pela Rússia.

 

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