Presidente disse que está disposto a discutir o Orçamento com todos os segmentos, mas cobrou a contrapartida da desoneração, destacando compromisso com o trabalhador

BRASÍLIA – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta terça-feira (18) ter ficado “perplexo” com o cenário apresentado por sua equipe econômica em relação à necessidade de ajuste fiscal. Ele criticou isenções às empresas e disse que o governo prepara uma proposta de Orçamento para encaminhar ao Congresso, com possibilidade de redução de despesas, mas não deu detalhes.

“Estou disposto a discutir o Orçamento com a maior seriedade com a Câmara, com o Senado, com a imprensa, com os empresários, com os banqueiros, mas para que a gente faça com o povo mais humilde e trabalhador não seja prejudicado como em alguns momentos da história foi”, afirmou Lula em entrevista à rádio CBN.

A fala ocorreu um dia após o presidente reunir a equipe econômica no Palácio do Planalto para iniciar a discussão sobre a revisão de gastos do governo.

“A equipe econômica tem que me apresentar as necessidades de corte. Ontem quando eu vi a demonstração da [ministra do Planejamento, Simone Tebet], disse para ela que fiquei perplexo”, contou Lula. A gente discutindo corte de R$ 10 bilhões, R$ 15 bilhões aqui e de repente você descobre que que tem R$ 546 bilhões de benefício fiscal para os ricos nesse país, como é que é possível?” questionou.

“Você pega, por exemplo, a Confederação da Agricultura, que tem uma isenção de quase R$ 60 bilhões, pega setor de combustível que tem isenção de quase R$ 32 bilhões, ou seja, você vai tentar jogar isso em cima de quem? Do aposentado? Do pescador? Da dona de casa? Da empregada doméstica? Então quero discutir com seriedade”, afirmou o presidente.

Ele repetiu que está disposto a discutir o Orçamento com todos os segmentos, mas cobrou a contrapartida da desoneração, destacando compromisso com o trabalhador. “Sobre falta de contrapartida em relação à desoneração: achamos que não é normal.”

Lula disse que aprendeu com a sua mãe a não gastar mais do que tem. “Eu aprendi com uma mulher analfabeta, Dona Lindu, a não gastar aquilo que não tenho. É por isso que estamos fazendo um estudo sério sobre Orçamento. País cresce acima do que o mercado imaginou, gerando emprego, salário crescendo. Situação é boa do ponto de vista econômico, melhor do que pegamos.”

O governo vem sendo pressionado a promover um equilíbrio nas contas públicas por meio da revisão de despesas, e não apenas com aumento de arrecadação.

Na última quarta-feira (12), o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), devolveu ao Executivo uma Medida Provisória que limita o crédito de PIS/Cofins para empresas após reação negativa entre parlamentares e empresários.

Essa foi a primeira vez no atual mandato de Lula que o Legislativo rejeitou uma medida provisória, o que é visto como um recado de que o Congresso não aceitará novas medidas de arrecadação que mexam nos tributos.

Lula dispara contra Campos Neto

Também na entrevista à CBN, o petista não poupou o presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto. Lula chegou a questionar se o comandante da instituição financeira tem posição política e está interessado em assumir cargo no governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos) em São Paulo.

“Só temos uma coisa desajustada neste país, que é o comportamento do Banco Central. Essa é uma coisa desajustada. Presidente que tem lado político, que trabalha para prejudicar o país. Não tem explicação a taxa de juros estar como está”, afirmou Lula.

“Eu me reuni com presidentes de bancos do mundo todo e eles nunca estiveram tão otimistas no Brasil. Nos tornamos o 2º maior destino de investimentos no mundo. Nosso país não necessita dessa taxa de juros tão proibitiva de investimento no setor produtivo. É preciso baixar a taxa de juros compatível com a inflação”, completou.

Lula questionou se Campos Neto, cujo mandato termina neste ano, tem pretensões político-eleitorais. “A quem esse rapaz é submetido? Como vai a festa em São Paulo quase assumindo candidatura a cargo no governo de São Paulo? Cadê a economia dele?”, indagou.

Perguntado se Tarcísio tem influência no BC, Lula não titubeou: “[Tarcísio] Tem mais [poder de influência] que eu. Não é que ele [Campos Neto] encontrou com Tarcísio numa festa. A festa foi para ele, foi homenagem do governo de São Paulo para ele, certamente porque o governador de São Paulo está achando maravilhoso a taxa de juros de 10,5%.”

Campos Neto foi homenageado em jantar oferecido por Tarcísio de Freitas, na noite de segunda-feira (10), no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista.  Na ocasião, segundo o jornal Folha de S.Paulo, o presidente do BC disse que aceitaria ser ministro da Fazenda em um eventual governo de Freitas.

O evento reuniu cerca de 60 pessoas, entre banqueiros, empresários e ex-ministros. Campos Neto foi nomeado para o BC por Jair Bolsonaro, de quem Tarcísio foi ministro e é colocado como herdeiro político visando a eleição presidencial de 2026.

Lula compara Campos Neto a Sergio Moro

Lula comparou Campos Neto ao ex-juiz e hoje senador Sergio Moro (União-PR), que foi o responsável por condená-lo na Lava-Jato. Ele assumiu o Ministério da Justiça no governo de Jair Bolsonaro, que viu Lula ser retirado da corrida eleitoral de 2018 devido às ações de Moro.

“Então, quando ele se [Campos Neto] auto lança para um cargo, eu fico imaginando, a gente vai repetir um Moro? O presidente do BC está disposto a fazer o mesmo papel que o Moro fez? Um paladino da Justiça, com rabo preso a compromissos políticos? Então o presidente do BC precisa ser uma figura séria, responsável e ele tem que ser imune aos nervosismos momentâneos do mercado”, questionou Lula.

Ainda na entrevista à CBN, sobre o sucessor de Campos Neto, Lula disse que indicará para a presidência do Banco Central uma pessoa que tenha “compromisso com o crescimento do país”.

“Então, veja, eu trato com muita seriedade, muita seriedade, vou escolher um presidente do BC que seja uma pessoa que tenha compromisso com o desenvolvimento desse país, controle da inflação, mas que também tenha na cabeça que a gente não tem que pensar só no controle da inflação. Nós temos que pensar em uma meta de crescimento, porque é o crescimento econômico, da massa salarial, que vai permitir a gente controlar a inflação”, ponderou Lula.

PT diz que BC é ‘bolsonarista’

Nesta terça-feira, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado analisará uma proposta que transforma o Banco Central em uma empresa pública.

Na segunda-feira (17), o PT de Lula emitiu uma nota se posicionando contra propostas que preveem a desvinculação das aposentadorias do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) do salário mínimo, além de mudanças nas normas de gastos com Saúde e Educação.

Na mensagem, o partido argumenta que está sendo fabricada uma “inexistente crise fiscal” no país por “setores econômicos privilegiados, pela imprensa e por analistas de mercado”. A nota também reitera críticas à manutenção das taxas de juros no atual patamar pelo Banco Central, classificando-o como “bolsonarista”.

O comunicado do PT foi divulgado após setores do mercado financeiro e empresariais aumentarem a pressão para que o governo realize cortes nos gastos.

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