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Por Fábio Galão
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06/11/2026 às 21:09
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O papa Leão XIV iniciou nesta sexta-feira (6) no Uruguai a viagem apostólica mais longa do seu pontificado até agora e que até o dia 17 também incluirá a Argentina e o Peru, em um momento em que estes países e outros da América Latina registram diminuição das proporções das suas populações católicas.
A escolha por esses países é carregada de simbolismos. No seu pontificado de 12 anos, o antecessor de Leão XIV, o papa Francisco, não visitou a Argentina, seu país natal.
O Peru tem um significado especial para o atual papa, escolhido em 2025, já que ele atuou no país sul-americano entre 1985 e 1986, 1988 e 1998 e 2015 e 2023, sendo que neste último período foi arcebispo de Chiclayo e obteve a cidadania peruana.
Já o Uruguai é o país com menor população proporcional de católicos declarados na América Latina. De acordo com a mais recente pesquisa da consultoria Cifra, 32,5% dos uruguaios se declaram católicos; em 1997, eram 58%.
Um relatório divulgado este ano pelo think tank americano Pew Research Center apontou que há 12 anos mais de 60% dos adultos se diziam católicos na Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México e Peru.
“Hoje, aproximadamente metade dos brasileiros e chilenos identifica-se como católica (46% em cada país, em 2024), enquanto Argentina (58%), Colômbia (60%), México (67%) e Peru (67%) possuem maiorias católicas significativamente menores do que as registradas em 2013-2014”, disse o estudo.
Porém, o caso uruguaio ilustra como não se declarar católico não significa que uma pessoa deixou de acreditar em Deus. Além de muitos habitantes dos países citados estarem migrando para denominações evangélicas, o professor da Universidade Católica do Uruguai (UCU) Néstor da Costa ressaltou em entrevista este mês ao jornal La Diaria que sete em cada dez uruguaios se declaram crentes em Deus.
“Uma pessoa que vivencia condições que transformam sua vida, ou que são fundamentais para ela, não as abandona só porque o Estado não as reconhece”, afirmou o pesquisador, citando lacunas nas pesquisas sobre declaração de fé.
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Em entrevista à Gazeta do Povo, João Alfredo Lopes Nyegray, professor dos cursos de negócios internacionais e relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), disse que o relatório do Pew Research Center revela uma transformação muito mais profunda do que uma simples redução no número de católicos.
“O que estamos observando é uma mudança na relação entre religião, sociedade e instituições na América Latina”, afirmou o analista. “Aproximadamente nove em cada dez entrevistados continuam acreditando em Deus. Portanto, não estamos necessariamente diante de uma América Latina que está deixando de ser religiosa, mas de sociedades nas quais a religiosidade já não se traduz automaticamente em pertencimento à Igreja Católica.”
“Isso significa que a Igreja enfrenta desafios diferentes conforme o país: em alguns lugares, disputa fiéis com outras denominações cristãs; em outros, precisa dialogar com uma população que continua acreditando em Deus, mas questiona a necessidade de uma instituição intermediando sua experiência religiosa”, acrescentou.
A respeito da visita do papa iniciada nesta sexta-feira, Nyegray destacou que Leão XIV é o primeiro sumo pontífice nascido nos Estados Unidos e ao mesmo tempo possui uma trajetória profundamente latino-americana.
“Isso lhe confere uma perspectiva singular em um continente historicamente marcado pela influência política e econômica de Washington. Evidentemente, o papa não representa os interesses americanos, mas sua experiência nas duas regiões pode contribuir para uma compreensão mais próxima das tensões sociais e políticas do continente”, disse o analista.
Nyegray afirmou que a viagem de Leão XIV traz visibilidade, mobiliza comunidades e pode fortalecer o sentimento de pertencimento dos católicos, mas dificilmente será suficiente, por si só, para reverter uma tendência de décadas.
“O problema é estrutural e envolve mudanças geracionais, transformações culturais, novas formas de sociabilidade e também questões internas à própria Igreja”, disse o analista, que destacou que as gerações mais jovens apresentam índices menores de identificação católica do que as mais velhas, “o que significa que o desafio não se limita a recuperar pessoas que abandonaram a Igreja, mas também envolve a transmissão da identidade religiosa entre gerações”.
“Por isso, os encontros de Leão XIV com jovens, universidades e comunidades socialmente vulneráveis merecem atenção. A questão central é saber se a Igreja conseguirá transformar a visibilidade proporcionada pela visita em vínculos institucionais duradouros”, apontou Nyegray.
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Fonte: Gazeta Mundo


