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América Latina
Guerra EUA x Irã
Por John Lucas
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Por Fábio Galão
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04/11/2026 às 20:43
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O avanço democrata nas eleições de meio de mandato desta terça-feira (3) expôs o desgaste do presidente Donald Trump após menos de dois anos de seu retorno à Casa Branca. A conquista da maioria na Câmara e no Senado, com vitórias inclusive em estados tradicionalmente republicanos, revela a insatisfação de eleitores com o custo de vida e os efeitos das decisões de política externa, especialmente a guerra contra o Irã. O resultado também coloca em xeque a força da coalizão que levou Trump à Presidência em 2024 e antecipa desafios para o futuro do movimento MAGA (Make America Great Again) e a sucessão republicana de 2028.
Trump disse que aceitará os resultados das midterms e procurou se distanciar do mau desempenho republicano, afirmando que seu nome "não estava na cédula de votação". “Se estivesse, teríamos vencido de lavada!”, escreveu na Truth Social. Posteriormente, ele admitiu que a guerra contra o Irã teve impacto na derrota eleitoral de seu partido.
Alguns republicanos, porém, já estão responsabilizando Trump pelo desastre. Bobby Charles, candidato republicano ao governo do Maine, disse ao portal de notícias Politico que, apesar da derrota, ele está otimista quanto ao futuro, "porque Trump não estará mais no cargo em dois anos”.
Enquanto republicanos procuram identificar os responsáveis pela derrota, analistas políticos ouvidos pela Gazeta do Povo observam que o resultado das urnas oferece um diagnóstico mais amplo sobre o governo Trump, com alguns recados que ajudam a explicar o revés e apontam os desafios do presidente – e do partido – até o fim do mandato.
Insatisfação com o custo de vida
Trump retornou à Casa Branca, com o controle do Congresso, em janeiro de 2025 prometendo combater a inflação e recuperar o poder de compra dos americanos. Contudo, após dois anos de mandato republicano, uma parcela expressiva da população afirma não perceber melhorias nas finanças familiares. Uma pesquisa da Reuters/Ipsos realizada com 1,7 mil americanos até a véspera da votação mostrou que 48% dos eleitores registrados consideravam o custo de vida o principal fator para decidir seu voto.
O levantamento também identificou que 49% dos americanos consideravam que a situação financeira de suas famílias havia piorado desde o início do segundo mandato de Trump. Apenas 13% relataram melhora, enquanto 37% não perceberam mudanças significativas.
O principal recado enviado a Trump e os republicanos pelos eleitores, na avaliação de Marco Aurélio da Silva, consultor de empresas em negócios internacionais e professor dos cursos de Comércio Exterior e Relações Internacionais do Centro Universitário da Serra Gaúcha, foi a insatisfação com os rumos econômicos dos EUA e a condução do governo por Trump.
“O resultado sinaliza uma cobrança direta por ajustes operacionais e pragmatismo”, disse ele. “A insatisfação econômica e o custo de vida exerceram um impacto substancialmente mais abrangente no resultado do que pautas identitárias ou de segurança”, complementou.
Guerra contra o Irã e tarifas ampliaram o desgaste do governo
Parte desse desgaste está relacionada aos efeitos das tarifas comerciais e da guerra contra o Irã, conforme afirma a professora de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) Natali Hoff. A alta dos combustíveis, fruto da guerra no Oriente Médio, e o aumento dos preços de certos produtos, devido às tarifas aos produtos importados, ampliaram a preocupação de famílias americanas que já enfrentavam dificuldades com despesas de alimentação, moradia e serviços.
Na pesquisa da Reuters/Ipsos, 55% dos entrevistados avaliaram que os resultados da operação militar contra o Irã não justificaram os custos envolvidos nela, enquanto 25% tiveram uma avaliação contrária. Outra pesquisa da Reuters/Ipsos, divulgada em 9 de outubro, identificou que a maioria dos americanos considerava as tarifas de importação aplicadas por Trump como um dos fatores que contribuíram para o encarecimento dos produtos no país.
Eduardo Galvão, especialista em relações governamentais e professor do Ibmec Brasília, considera que a guerra contra o Irã contribuiu para o desgaste do governo Trump, que culminou na derrota eleitoral desta terça, principalmente pelos impactos sobre os preços da energia e dos combustíveis, que atingiram diretamente os consumidores americanos.
“Quando os efeitos de um conflito internacional chegam ao orçamento das famílias, a política externa passa a influenciar de maneira muito mais direta o debate eleitoral doméstico”, afirmou o especialista à Gazeta do Povo.
Para Marco Aurélio da Silva, a insatisfação demonstrada pelos eleitores com os efeitos econômicos da guerra também poderá pressionar Trump a rever suas prioridades na política externa.
“A reação nas urnas tende a intensificar a pressão interna, inclusive dentro do próprio partido, para que o governo recalibre suas ações internacionais e priorize a estabilidade econômica interna em detrimento de compromissos externos prolongados”, afirmou ele à Gazeta do Povo.
Galvão, porém, salienta que os resultados também precisam ser interpretados dentro da tradição eleitoral americana, em que o partido no comando da Casa Branca costuma perder cadeiras no Congresso nas eleições de meio de mandato. Isso expõe uma demanda do eleitorado americano por maior equilíbrio institucional no país, com parte desse eleitorado buscando ampliar a capacidade do Congresso de fiscalizar as decisões da Casa Branca.
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Em 2024, Trump conseguiu voltar à Casa Branca após ampliar seu apoio entre grupos que tradicionalmente votavam nos democratas, especialmente jovens, latinos e homens negros. Dois anos depois, os resultados das eleições de meio de mandato mostram que os republicanos perderam parte desse avanço, com esses grupos voltando a favorecer os candidatos democratas.
A mudança ficou mais evidente entre os eleitores mais jovens. Segundo uma pesquisa de boca de urna realizada pela agência Associated Press (AP), que ouviu aproximadamente 80 mil eleitores americanos, cerca de sete em cada dez eleitores com menos de 30 anos apoiaram candidatos democratas à Câmara dos Deputados nesta terça-feira (3). Na eleição presidencial de 2024, esse mesmo grupo havia dividido seus votos de maneira quase equilibrada entre Trump e a democrata Kamala Harris.
Entre os latinos, a pesquisa identificou que cerca de 60% apoiaram candidatos democratas, enquanto aproximadamente 33% votaram nos republicanos. Em 2024, Trump havia conquistado cerca de 40% dos votos desse eleitorado.
O desgaste de Trump dentro desses grupos já aparecia em um levantamento do Pew Research Center divulgado em outubro. A aprovação do republicano entre os latinos que votaram nele em 2024 caiu de 93%, no início de seu segundo mandato, para 57%, segundo o levantamento. O resultado indicava que parte dos eleitores responsáveis pelo avanço republicano estava insatisfeita com o governo do presidente.
A insatisfação com a política migratória de Trump também pode ter contribuído para o afastamento de parte dos eleitores latinos dos republicanos. Em entrevista ao jornal americano Politico após as eleições, o senador estadual republicano Bill Clifford afirmou que as operações do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) tiveram impacto no comportamento eleitoral no sudoeste do Kansas, por exemplo. Em três condados de maioria latina na região, vencidos por Trump com ampla vantagem em 2024, os democratas conquistaram a maioria dos votos na disputa pelo Senado desta terça-feira (3), segundo a imprensa americana.
“As recentes operações do ICE no sudoeste do Kansas mudaram o comportamento do eleitorado daqui”, disse Clifford.
Janet Murguía, presidente da UnidosUS, organização americana de defesa dos direitos dos latinos, também atribuiu a mudança no comportamento desse eleitorado nas eleições desta terça à insatisfação econômica e à atuação do governo Trump na área migratória. Uma pesquisa divulgada pela organização nesta quarta-feira (4) mostrou que 27% dos eleitores latinos colocaram a questão migratória e as operações do ICE entre suas três principais preocupações. O custo de vida e a inflação, porém, tiveram um peso ainda maior, sendo citados por 58% dos entrevistados.
Eduardo Galvão, porém, pondera que, embora a mudança no comportamento desses eleitores nessas eleições de meio de mandato merece atenção, mas ainda é cedo para afirmar que isso representa um afastamento definitivo deles do Partido Republicano. Ainda resta saber se os democratas conseguirão manter o apoio recuperado nessas eleições ou se os republicanos terão condições de reconquistá-los antes da eleição presidencial de 2028.
O que muda para Trump nos próximos dois anos
A conquista da maioria democrata no controle das duas Casas representa uma mudança importante para a segunda metade do mandato presidencial. Trump passará a depender agora de negociações com a oposição para aprovar medidas no Legislativo e propostas que necessitem de recursos orçamentários.
Trump, contudo, continuará dispondo de instrumentos fortes, como o poder de veto – que já disse que usará –, a condução da política externa e diversas outras competências do Executivo, incluindo a aplicação por decreto de algumas tarifas e sanções. Para derrubar um veto presidencial, o Congresso precisa reunir pelo menos 290 votos na Câmara dos Deputados e 67 no Senado, considerando a participação de todos os parlamentares.
Segundo projeções da imprensa americana, os democratas deverão conquistar cerca de 258 das 435 cadeiras da Câmara. No Senado, o partido já assegurou 54 das 100 cadeiras, incluindo dois independentes alinhados à legenda, enquanto outras duas disputas ainda estão indefinidas.
Com esses números, os democratas ainda dependeriam do apoio de pelo menos 32 deputados e 13 senadores republicanos para derrubar um eventual veto de Trump, caso todos participem da votação e os independentes votem com a oposição.
Apesar dessa barreira, os democratas ainda poderão impor obstáculos a diversas iniciativas do governo. Além de dificultar a aprovação de novas medidas econômicas e migratórias, a oposição terá condições de comandar comissões e ampliar as investigações sobre o governo federal e o próprio Trump, incluindo decisões relacionadas à política externa e às operações militares.
Uma ala democrata já se mostra disposta a investigar o presidente. O deputado Robert Garcia, que deve ser o próximo presidente do Comitê de Supervisão da Câmara dos Representantes, mandou um recado aos republicanos na noite de terça-feira: "Contratem um advogado". Ele promete investigar a família Trump, a atuação do Departamento de Segurança Interna (DHS) e do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) e a maneira como a Casa Branca lidou com a divulgação dos arquivos de Jeffrey Epstein.
Para Galvão, a nova composição do Congresso colocará Trump diante do desafio de negociar com a oposição para viabilizar sua agenda de governo, sem abrir mão das principais bandeiras que sustentam o apoio de sua base conservadora.
“De um lado, a nova composição do Congresso aumenta a necessidade de negociação para aprovar medidas legislativas e orçamentárias. De outro, o presidente pode buscar preservar o apoio de sua base conservadora por meio da continuidade de suas principais bandeiras, especialmente imigração, protecionismo comercial e segurança nacional”, afirmou.
O futuro dos republicanos em jogo
As derrotas também poderão ter consequências dentro do próprio Partido Republicano. Com a sucessão presidencial de 2028 se aproximando, o desempenho eleitoral de candidatos apoiados por Trump deve entrar nas discussões sobre o futuro do Partido Republicano e sua capacidade de recuperar o apoio de independentes e moderados.
Marco Aurélio da Silva avalia que os resultados podem aumentar as divergências entre os aliados mais fiéis de Trump e os republicanos que defendem uma aproximação com o eleitorado moderado. Uma pesquisa realizada pela Associated Press durante a eleição desta terça mostrou que cerca de 67% dos eleitores moderados apoiaram candidatos democratas à Câmara dos Deputados nessas eleições.
“O desempenho do partido nas midterms tende a expor fissuras entre a ala alinhada ao movimento MAGA e republicanos tradicionais ou moderados que enfrentaram disputas acirradas nos estados decisivos”, afirmou ele à Gazeta do Povo.
Essas divergências poderão antecipar as articulações para a eleição presidencial de 2028. Em análise publicada pelo GZERO Media, o cientista político Ian Bremmer avalia que o resultado deve estimular os republicanos a começar a planejar o futuro da legenda sem depender do atual presidente. Segundo ele, a derrota torna mais provável uma disputa aberta nas primárias republicanas de 2028, com espaço para uma nova geração de candidatos.
Entre os possíveis sucessores estão o vice-presidente JD Vance e o secretário de Estado Marco Rubio, que enfrentam o desafio de preservar a proximidade com Trump sem herdar o desgaste de seu governo.
Para Bremmer, a eleição também representou uma rejeição à forma como o republicano conduziu seu segundo mandato, e não necessariamente às bandeiras que o levaram à Casa Branca. "Esta é uma mensagem contra a maneira como ele governou", afirmou o analista.
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Fonte: Gazeta Mundo


