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Anvisa aprova Wegovy em comprimido: o que falta para versão oral da caneta emagrecedora chegar às farmácias do Brasil?

Fabricante ainda precisa obter autorização para comercialização, com preço máximo definido pela CMED

Ainda não há data de lançamento no país, e farmacêutica prevê oferta 'nos próximos trimestres'

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A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou nesta quarta-feira (4) a versão em comprimido do Wegovy, remédio para obesidade da farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk.

É o primeiro medicamento oral da classe dos agonistas de GLP-1, a mesma das chamadas canetas emagrecedoras, liberado no país para tratar obesidade e sobrepeso.

O comprimido tem o mesmo princípio ativo da caneta, a semaglutida. A diferença é que ele é tomado uma vez por dia, em vez de uma injeção por semana.

"A chegada de um GLP-1 em comprimido representa uma nova ferramenta que vai cada vez mais ampliar as possibilidades de medicações que podem ser utilizadas em diferentes perfis de pacientes", diz a endocrinologista Cynthia Valério, presidente eleita da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica).

Ainda não há preço nem data de lançamento no Brasil. Em nota à imprensa, a Novo Nordisk diz apenas que o comprimido deve chegar às farmácias brasileiras "nos próximos trimestres".

A BBC News Brasil perguntou à empresa qual é a previsão de lançamento e de preço, mas não teve resposta até a publicação desta reportagem.

No exterior, o comprimido está à venda nos Estados Unidos desde janeiro. Depois chegou aos Emirados Árabes Unidos, ao Reino Unido e à Alemanha.

O que falta para o comprimido chegar às farmácias brasileiras

A aprovação da Anvisa é o primeiro passo. Antes de chegar às prateleiras, o remédio precisa ter um preço máximo definido pela CMED (Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos), órgão do governo federal que fixa o valor teto de todos os medicamentos vendidos no país.

Só depois disso a empresa pode começar a vender. A BBC News Brasil também perguntou à Novo Nordisk se o pedido de preço já foi feito à CMED, e aguarda resposta.

A Novo Nordisk pediu o registro do comprimido à Anvisa em 30 de janeiro deste ano. A decisão foi publicada no Diário Oficial da União por meio da Resolução 4.249/2026.

O remédio é indicado para adultos com obesidade, ou seja, com índice de massa corporal (IMC) igual ou maior que 30.

Também vale para adultos com sobrepeso (IMC entre 27 e 30) que tenham pelo menos uma doença associada ao peso, como hipertensão ou diabetes tipo 2. Em todos os casos, deve ser usado junto com mudanças na alimentação e prática de atividade física.

Onde o comprimido já é vendido e quanto custa

Os Estados Unidos foram o primeiro país a aprovar o comprimido, em dezembro de 2025. A aprovação foi da FDA (Food and Drug Administration), a agência reguladora de medicamentos americana.

As vendas começaram em 5 de janeiro. Para quem paga do próprio bolso, o preço vai de US$ 149 (R$ 816) por mês na dose inicial a US$ 299 (R$ 1,6 mil) nas doses mais altas.

Segundo a Novo Nordisk, mais de 7 milhões de prescrições do comprimido já foram dispensadas nos Estados Unidos desde o lançamento.

Em junho, os Emirados Árabes Unidos se tornaram o primeiro país fora dos Estados Unidos a vender o remédio.

No Reino Unido, a agência reguladora local aprovou o comprimido em junho e as vendas começaram em julho, em farmácias privadas. Por enquanto, o remédio não é oferecido pelo sistema público de saúde britânico, o NHS.

A União Europeia aprovou o comprimido em julho, depois de parecer favorável da EMA (Agência Europeia de Medicamentos). A Alemanha foi o primeiro país do bloco a vender o remédio, a partir de 1º de setembro. O comprimido também foi aprovado no Bahrein.

A Novo Nordisk diz que pretende levar o comprimido a outros países nos próximos meses.

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Como o remédio age e por que a dose do comprimido é maior

A semaglutida imita o GLP-1, hormônio que o intestino libera depois das refeições. Ele sinaliza ao cérebro que o corpo já recebeu comida, o que reduz a fome, e faz o estômago esvaziar mais devagar, o que prolonga a sensação de saciedade.

Quando o remédio é engolido, boa parte da substância se perde no sistema digestivo antes de chegar ao sangue. Por isso a dose do comprimido é bem maior: 25 mg por dia na fase de manutenção, contra 2,4 mg por semana na caneta.

O tratamento começa com 1,5 mg, e a dose sobe aos poucos, passando por 4 mg e 9 mg até chegar aos 25 mg. O comprimido deve ser tomado em jejum, com pouca água. Depois disso, é preciso esperar pelo menos 30 minutos para comer, beber ou tomar outros remédios.

Segundo a Anvisa, quem usa a caneta poderá passar para o comprimido, e quem usa o comprimido poderá passar para a caneta, quando o médico considerar adequado.

O que mostrou o estudo que embasou a aprovação

A aprovação se baseou principalmente no estudo OASIS 4, publicado na revista científica The New England Journal of Medicine. Participaram 307 adultos sem diabetes, com obesidade ou com sobrepeso e alguma doença associada, e os resultados foram medidos depois de 64 semanas.

No grupo que tomou o comprimido, a perda média de peso foi de 13,6%. No grupo que recebeu placebo, foi de 2,2%. Quase um terço dos participantes que tomaram o comprimido perdeu 20% do peso ou mais.

A Novo Nordisk diz que a perda de peso com o comprimido é parecida com a obtida com a caneta de 2,4 mg. Segundo a Anvisa, o tratamento também melhorou vários marcadores de saúde cardiovascular e metabólica dos participantes.

Os efeitos colaterais mais comuns foram gastrointestinais, como náusea e diarreia. Eles afetaram 74% de quem tomou o comprimido, contra 42% no grupo placebo, e em geral foram leves ou moderados.

Cerca de 7% dos participantes que tomaram o remédio pararam o tratamento por causa de efeitos adversos, contra 6% no grupo placebo.

O que muda em relação ao Rybelsus, aos genéricos e à pílula concorrente

O Brasil já tinha um comprimido de semaglutida, o Rybelsus, também da Novo Nordisk. Ele é indicado para diabetes tipo 2, em doses menores, e não para tratar obesidade.

O comprimido chega a um mercado que mudou em 2026. A patente da semaglutida caiu no Brasil em 20 de março, e, desde agosto, a Anvisa já aprovou versões genéricas da semaglutida injetável. Por lei, os genéricos precisam custar pelo menos 35% menos que o remédio de referência.

A principal concorrente do comprimido da Novo é o Foundayo (orforglipron), pílula diária para obesidade da americana Eli Lilly, fabricante do Mounjaro. O Foundayo foi aprovado nos Estados Unidos em abril, mas ainda não tem registro no Brasil.

Segundo a endocrinologista Cynthia Valério, a versão oral tende a beneficiar quem não quer usar injeção, quem prefere tomar o remédio todos os dias em vez de uma vez por semana e quem tem dificuldade para guardar a caneta, por exemplo porque viaja muito.

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O comprimido, diferentemente da caneta, não precisa ficar em ambiente refrigerado.

Ela afirma que o comprimido pode facilitar o início do tratamento e o aumento gradual da dose em pacientes que usam muitos outros remédios ou têm várias doenças. Isso permite acompanhar melhor os efeitos colaterais e a tolerância ao medicamento.

"O nosso maior desafio hoje é a adesão de longo prazo e a perda de peso sustentada", afirma a médica. Quem interrompe o tratamento perde os benefícios que conquistou.

Ela alerta que o comprimido não terá o efeito esperado se for tomado junto com outro remédio, com outro líquido que não seja água ou sem respeitar o tempo de jejum.

"Acaba sendo um desperdício de energia, de dinheiro, de tempo do paciente sem que haja boa resposta", diz. "O acompanhamento médico, ele é sempre necessário."

Para Valério, garantir o acesso ao tratamento da obesidade, seja pelo SUS ou pelos planos de saúde, é essencial. "Entendemos que hoje ainda temos esse grande desafio de incorporação dessas tecnologias", diz.

Ela avalia que, no início, o comprimido não deve estar amplamente acessível, e afirma que a Abeso vai lutar para que as novas terapias sejam oferecidas tanto no SUS quanto na saúde suplementar.

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Fonte: Saúde Brasil

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