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Quarto mandato de Lula começa sob risco de crise de crédito por dívida crescente

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Por Vandré Kramer

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03/11/2026 às 21:00

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A combinação de dívida pública crescente, juros elevados e famílias e empresas pressionadas pelo custo do crédito coloca o Brasil sob risco de uma crise de financiamento no quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Economistas ouvidos pela Gazeta do Povo alertam que, sem um ajuste fiscal capaz de conter o endividamento e recuperar a confiança dos investidores, os bancos podem restringir empréstimos e dificultar a rolagem de dívidas.

O temor é que a continuidade da atual política econômica agrave um quadro já marcado pelo alto comprometimento da renda das famílias e pelas dificuldades das empresas para obter financiamentos. Na prática, uma crise de crédito pode significar juros ainda mais altos para quem precisa financiar um carro ou uma casa, além de menos recursos disponíveis para empresas manterem suas atividades e investirem.

Para o economista-chefe da Genial Investimentos, José Márcio Camargo, a reeleição de Lula representa a continuidade de uma política que, nos últimos quatro anos, levou ao aumento da dívida pública, do déficit fiscal e do endividamento das famílias e do próprio governo.

É desse desequilíbrio que nasce o risco de uma crise de crédito. Os bancos podem se tornar mais seletivos na concessão de empréstimos, especialmente se a deterioração das contas públicas mantiver os juros elevados e aumentar a percepção de risco sobre a economia brasileira.

As famílias já enfrentam um quadro de forte comprometimento da renda. Segundo o Banco Central (BC), em agosto, metade da renda anual das famílias estava comprometida com dívidas bancárias. Quase um terço da renda era destinado ao pagamento de parcelas e juros.

O custo do dinheiro também pesa sobre as empresas. A dificuldade para obtenção de crédito contribuiu para recordes de pedidos de recuperação judicial e falências. A Allianz Trade, líder mundial em seguro de crédito, projeta que as insolvências de empresas no Brasil devem crescer até 2027.

Além do custo do dinheiro, a desaceleração econômica também pressiona os negócios. "As empresas estão enforcadas nas suas respectivas dívidas", afirma Camargo.

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Mercado financeiro cobra medidas concretas de Lula

Após o resultado das urnas, o mercado financeiro passou a cobrar do governo reeleito medidas concretas para recuperar a confiança dos investidores. Entre as principais exigências estão um ajuste fiscal imediato, uma equipe econômica com autonomia para conduzir as contas públicas e um acordo de governabilidade com o Congresso Nacional, de perfil conservador.

No primeiro pregão após a eleição, na segunda-feira (26), a Bolsa brasileira acionou o circuit breaker — mecanismo que interrompe temporariamente as negociações em momentos de forte queda — pela primeira vez em seis anos. O dólar comercial chegou a R$ 5,60, enquanto os juros futuros com vencimento em janeiro de 2029 atingiram 15,25% ao ano.

"Desta vez, Lula vai ter que contratar credibilidade", aponta Roberto Motta, estrategista macro da Genial Investimentos. Na avaliação dele, o presidente não terá a mesma tolerância concedida no início do mandato anterior, em 2022.

Sem uma âncora fiscal considerada confiável, os ativos brasileiros tendem a refletir o risco associado às contas públicas. Em um cenário sem ajuste, a Genial Investimentos projeta uma queda de cerca de 20% do Ibovespa até o fim de 2026. A Oby Capital estima que o dólar pode chegar a R$ 5,85 em 2027 e a R$ 6,85 até 2030.

Escolha da equipe econômica será a primeira prova de fogo

A escolha dos nomes que comandarão a política econômica é apontada por analistas como o primeiro teste do governo Lula 4.

Para Thomas Haugaard, gerente de portfólio da Janus Henderson, uma das maiores gestoras de fundos do mundo, os investidores observarão três sinais: a nomeação de uma equipe respeitada pelo mercado, a autonomia política concedida ao ministro da Fazenda e a apresentação de um plano de ajuste fiscal concentrado no controle de gastos, com apoio do Legislativo.

Entre os nomes cotados para compor o núcleo econômico estão o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT). Outra possibilidade é a permanência de Dario Durigan no comando do Ministério da Fazenda.

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Dívida crescente e Orçamento engessado dificultam ajuste fiscal

O principal desafio fiscal do próximo mandato é a trajetória da dívida pública bruta, que chegou a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB) em agosto de 2026. A Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado projeta que o indicador alcance 86,4% do PIB no fim de 2027. Em um cenário sem mudanças na política fiscal, a dívida pode ultrapassar 100% do PIB até 2030.

O problema é agravado pela rigidez do Orçamento federal: mais de 90% das despesas da União são obrigatórias, o que limita a margem de manobra do governo para cortar gastos.

Lula assumirá o quarto mandato em uma situação na qual já serão necessários ajustes para cumprir a meta fiscal de 2027. O Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) enviado pelo governo ao Congresso prevê superávit primário de R$ 18,6 bilhões, equivalente a 0,13% do PIB. A IFI, porém, estima déficit de R$ 86,1 bilhões, ou 0,7% do PIB. A diferença de R$ 104,7 bilhões decorre principalmente de premissas mais conservadoras para a arrecadação.

O quadro ainda pode ser agravado por compromissos assumidos durante a campanha. O governo terá de lidar com uma herança estimada entre R$ 70 bilhões e R$ 90 bilhões em novos gastos e desonerações prometidos.

Para estabilizar a dívida, os cálculos de analistas apontam que o país precisaria manter superávits primários — resultado das contas públicas antes do pagamento dos juros — entre 1% e 2,5% do PIB. Alessandra Ribeiro, diretora de macroeconomia da Tendências Consultoria, afirma que, com juros reais de 5%, seria necessário um superávit de 2,5% do PIB para ancorar a dívida.

"Caso o governo reeleito não apresente, de forma tempestiva e convincente, um compromisso efetivo com a sustentabilidade fiscal, os investidores poderão exigir prêmios de risco mais elevados, pressionando a curva de juros, encarecendo o financiamento da economia e comprometendo as perspectivas de crescimento", afirma Cássio Viana de Jesus, diretor de investimentos da Pilar Capital.

Entre as medidas sugeridas por analistas estão mudanças na regra de reajuste do salário mínimo, que vincula o aumento real do benefício ao crescimento da economia e amplia despesas obrigatórias. Cada R$ 1 de aumento gera R$ 413,2 milhões em gastos.

Também são apontadas a limitação das emendas parlamentares impositivas e a desvinculação dos pisos constitucionais de saúde e educação. Em conjunto, essas mudanças poderiam gerar uma economia acumulada de R$ 40 bilhões a R$ 53,6 bilhões até 2030.

Durante a campanha, porém, Lula se posicionou contra alterações na regra do salário mínimo e nos pisos sociais, o que reduz o espaço político para algumas das medidas defendidas por economistas.

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Fonte: Gazeta Economia

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