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Indiciamentos do Master não envolvem políticos e novos pedidos vão poupar ministros do STF

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Eleições 2026

Alexandre Garcia

Por Juliet Manfrin

Por Juliet Manfrin

31/10/2026 às 10:58

31/10/2026 às 10:58

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O primeiro pedido de indiciamento da Polícia Federal no caso Master não incluiu políticos nem autoridades dos três Poderes suspeitos de dar suporte às operações fraudulentas envolvendo o banco e o BRB. Embora a investigação ainda tenha outras frentes, com novos relatórios previstos para novembro, os próximos pedidos também devem poupar, por exemplo, ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) que tiveram seus nomes associados, direta ou indiretamente, ao ex-banqueiro e controlador do Master, Daniel Vorcaro.

Ministros não podem ser indiciados pela PF em razão das prerrogativas do cargo e do entendimento institucional sobre a atuação da PF em relação aos integrantes da Corte. As atuações dos magistrados nem sequer foram investigadas e as apurações precisariam do aval do próprio STF para ter andamento.

Nesse primeiro relatório, quase um ano após a primeira fase da Operação Compliance Zero, a PF pediu o indiciamento de Vorcaro, o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa, o ex-sócio do Master Augusto Lima e de outras 12 pessoas. Esse relatório, apresentado ao STF na quarta-feira (28), está concentrado nas vendas de carteiras de crédito do Master ao BRB – o ponto de partida da investigação, que ainda está longe de ser concluída.

A PF descreve Vorcaro como líder da organização criminosa, atribuindo a ele os crimes de gestão fraudulenta de instituição financeira, induzimento a erro, fraude em fiscalização e lavagem de dinheiro. A defesa do ex-banqueiro nega as acusações. Já Costa é apontado como principal agente de articulação institucional no BRB. A defesa do ex-presidente do BRB também refuta as imputações.

No documento de quase 700 páginas, investigadores pedem ao ministro André Mendonça mais 60 dias para concluir diligências, finalizar perícias e aprofundar análises de documentos, registros bancários, dados fiscais e comunicações eletrônicas.

A reportagem apurou que o caso vai avançar em diferentes frentes com um segundo relatório no início de novembro. Esse deve ser relacionado à investigação que incluiria a rede de sustentação aos supostos crimes envolvendo o Master. Há uma expectativa de que nele apareçam autoridades e os desdobramentos prometem se estender por 2027.

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Relações com Vorcaro colocam seis ministros sob questionamento

O Master passou a envolver questionamentos sobre relações pessoais, profissionais e financeiras entre Vorcaro e seis ministros do STF: Alexandre de Moraes, Luiz Fux, Gilmar Mendes, Kassio Nunes Marques, André Mendonça e Dias Toffoli. Mensagens extraídas pela PF e documentos apontaram supostos vínculos diretos ou indiretos com o ex-banqueiro.

Nenhum dos magistrados é alvo de investigação, apesar de as revelações terem provocado questionamentos sobre conflitos de interesse, transparência e a condução do caso na Corte.

Alexandre de Moraes é um dos principais focos. Além de um contrato entre o Master e o escritório da esposa no valor de R$ 131 milhões, Vorcaro teria trocado mensagens com um número atribuído ao ministro, em que, entre outros pontos, teria perguntado a Moraes, dois dias antes de ser preso no ano passado, se deveria deixar o país.

O ex-banqueiro foi detido em 17 de novembro, quando se preparava para deixar o Brasil. Haveria ainda indícios de viagens de Moraes e a esposa, Viviane Barci de Moraes, em aeronaves ligadas a Vorcaro. O escritório da advogada confirmou que ela contratou serviços de táxi aéreo e que as viagens não tinham vínculo pessoal com o ex-banqueiro. Moraes negou comunicação com Vorcaro e classificou as alegações como falsas.

A relação com Luiz Fux apareceu por meio do filho do magistrado, que é advogado e teria mantido contato com Vorcaro. O advogado também teria orientado o banqueiro a encaminhar informações sobre um evento previsto para Londres à secretária do pai no STF. O ministro nega relação ou troca de mensagens com o ex-banqueiro.

Gilmar Mendes teve seu nome relacionado à contratação de um ex-cunhado seu por Vorcaro, além do financiamento do Master a eventos promovidos pelo magistrado. O ministro nega irregularidades e já fez críticas públicas à conduta de Vorcaro.

Kassio Nunes Marques teve seu nome relacionado a pagamentos ao filho advogado. Também surgiram informações sobre a participação do magistrado em festas privadas com garotas de programa pagas, supostamente, pelo ex-banqueiro. O ministro negou relação financeira com Vorcaro e afirmou não ter julgado ações que pudessem beneficiar o Master.

André Mendonça, relator da investigação, também teve contato com Vorcaro. O ministro confirmou encontro com o ex-banqueiro no início do ano passado para discutir precatórios, mas negou que tenha proximidade ou recebido benefícios de Vorcaro ou do Master.

Dias Toffoli foi o primeiro relator do caso e o primeiro magistrado vinculado ao ex-banqueiro. A PF encaminhou relatório ao presidente do STF, Edson Fachin, sobre transferências entre empresa da família do ministro e fundos ligados ao banco na aquisição de um resort de luxo que pertencia à família de Toffoli.

Toffoli deixou a relatoria em fevereiro de 2026. O ministro negou irregularidades e declarou suspeição para julgamentos relacionados ao caso.

As revelações levaram o STF a discutir a situação dos ministros e procedimentos aplicáveis. Em setembro, o tribunal determinou a certificação dos magistrados citados, mas até agora a Corte não definiu se pretende ou não autorizar a abertura de investigação sobre a conduta dos ministros. Caberá ao plenário essa decisão.

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Caso Master estava praticamente travado desde julho

O indiciamento desta semana ocorre depois de um período de estagnação pública da investigação. Desde julho, quando foi realizada a última fase da Compliance Zero, não houve ações e diligências públicas que demonstrassem avanço significativo. Pelo contrário, foram registrados inúmeros adiamentos ou remarcações de depoimentos de suspeitos ou testemunhas.

A PF afirma que ainda há um volume significativo de documentos, contratos, operações financeiras e comunicações a ser examinado.

Além da investigação sobre a venda de créditos ao BRB, a PF avança em pelo menos outras quatro linhas que envolvem suspeitas de corrupção e eventual participação de agentes públicos na estruturação das operações.

O que está no centro do primeiro indiciamento

A investigação iniciou com a compra e venda de carteiras de crédito entre o Master e o BRB. De julho de 2024 a outubro de 2025, o Master cedeu ao banco público aproximadamente R$ 17,5 bilhões em créditos.

Segundo a PF, ao menos R$ 12,2 bilhões corresponderiam a carteiras sem comprovação de existência. Os investigadores sustentam que os créditos foram utilizados em operações que teriam permitido ao Master obter recursos do BRB com apresentação de ativos inconsistentes.

O relatório aponta que o esquema teria envolvido a aquisição, pelo Master, de créditos atribuídos a uma consultoria e revendidos ao BRB.

A consultoria teria sido constituída com capital inicial de baixo valor, sem empregados e com endereço em um coworking em São Paulo. A Gazeta do Povo não conseguiu contato com seus representantes.

A PF sustenta que a estrutura societária e operacional da consultoria levantou suspeitas sobre a origem e a existência das carteiras de crédito utilizadas nas operações.

No papel, o Master teria adquirido os créditos dessa consultoria e os revendido ao BRB no dia útil seguinte. Segundo os cálculos do Banco Central, o banco público adquiriu cerca de R$ 6,7 bilhões em créditos e os repassou por R$ 12,2 bilhões.

A diferença de aproximadamente R$ 5,5 bilhões é apontada como ganho estimado na operação. Os investigadores alertam que o pagamento à consultoria não teria sido efetivamente realizado: o valor permaneceu registrado em uma conta interna do Master. A PF trata esse registro como um dos indícios de possível lavagem de dinheiro.

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Perícias apontam inconsistências nas carteiras

O relatório também reúne resultados de análises técnicas sobre os contratos utilizados nas operações. Segundo a PF, mais de um milhão de contratos, relacionados a 348 mil CPFs, apresentavam 1.251 valores diferentes. Para os investigadores, a repetição de valores em escala seria um dos sinais de que as carteiras poderiam ter sido produzidas artificialmente.

Em uma amostra de cem cédulas de crédito bancário, os peritos não conseguiram comprovar a existência de nenhuma delas. A investigação também aponta mudanças na versão apresentada pelo Master sobre a origem dos créditos.

Quando o BC cobrou explicações, em março de 2025, o Master atribuiu as carteiras a duas associações de servidores da Bahia. Em junho, passou a apontar a consultoria como a origem dos créditos.

Segundo o relatório, integrantes do Master, da consultoria e de um escritório teriam produzido contratos em massa, procurações e termos de consentimento com datas retroativas para sustentar a nova versão. Uma pasta é apontada pelos investigadores como indicativo da possível geração automática de até 2.700 procurações.

A PF ainda precisa concluir a análise dos documentos e esclarecer quem participou da elaboração, quais informações foram utilizadas e se houve atuação de outras pessoas do Master e do BRB.

A atuação de Vorcaro, Costa e Augusto Lima, segundo a PF

Vorcaro é descrito pela PF como líder da organização, centralizando decisões em relação à produção, aquisição e cessão das carteiras de crédito utilizadas para captação de recursos pelo Master. A PF afirma que Vorcaro tinha conhecimento da origem e das inconsistências dos créditos utilizados nas operações.

O indiciamento atribui ao ex-banqueiro crimes de gestão fraudulenta de instituição financeira, induzimento a erro, fraude em fiscalização e lavagem de dinheiro.

A defesa de Vorcaro contestou as acusações, classificou o indiciamento como um ato “açodado e afoito” e disse que a PF antecipou conclusões que a própria investigação admite ainda não ter alcançado. Os advogados sustentam que o relatório se baseia em uma leitura seletiva de mensagens e em hipóteses que não teriam sido demonstradas tecnicamente.

A defesa também afirma que as operações foram fundamentadas em decisões técnicas e colegiadas das instâncias de governança das instituições supervisionadas pelo Banco Central. Segundo os advogados, as transações estão sendo retratadas como criminosas sem que tenha sido aferido seu resultado econômico.

O ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa é apresentado como agente de articulação institucional, responsável, segundo os investigadores, por garantir que as operações estruturadas pelo Master fossem implementadas no BRB.

A investigação tenta esclarecer como as carteiras de crédito foram recebidas, analisadas e aprovadas pelo banco público, além de identificar a participação de outros integrantes das equipes responsáveis pelas operações.

A defesa de Costa afirma que conversas demonstram que ele não tinha conhecimento das fraudes e que há evidências de que ele identificou irregularidades nas carteiras e levou ao conhecimento do BC. A defesa também sustenta que não foi apontada vantagem financeira recebida por Costa.

Augusto Lima, ex-sócio do Master, também integra a lista dos 15 indiciados. A PF investiga a participação dele na estrutura das operações e nas relações envolvendo as carteiras de crédito utilizadas na negociação com o BRB.

A defesa de Lima afirma que a documentação e os esclarecimentos demonstrariam que ele não participou da fraude investigada e que a conclusão policial vem de uma leitura enviesada de mensagens esparsas, aleatórias e temporalmente desconectadas.

Além dos três, a PF indiciou outras 12 pessoas ligadas ao Master, ao BRB e às operações investigadas. A lista inclui ex-diretores das duas instituições, profissionais relacionados à estruturação das carteiras e outros agentes que teriam participado de diferentes etapas do esquema.

A PF pretende consolidar análises bancárias, fiscais, patrimoniais e financeiras, além de calcular o possível proveito econômico obtido com as fraudes. O relatório menciona operações que teriam contribuído para ampliar a capacidade do BRB de realizar compras de créditos.

A PF aponta que aumentos de capital do banco público, adquiridos em boa parte por fundos ligados ao Master, e a venda de créditos inadimplentes a fundos do mesmo grupo teriam aberto espaço regulatório para novas operações. O BRB reconheceu perdas de R$ 2,7 bilhões relacionadas ao caso.

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