InternacionalComo o Irã aproveita para se rearmar enquanto a guerra perde intensidade

Como o Irã aproveita para se rearmar enquanto a guerra perde intensidade

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Guerra EUA x Irã

Por Fábio Galão

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15/09/2026 às 21:31

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Estados Unidos e Irã acertaram em abril um cessar-fogo e, apesar de várias trocas de ataques desde então, a guerra não retornou à intensidade que havia apresentado nas primeiras semanas do conflito. Dois relatos da semana passada indicaram que o regime islâmico tem se aproveitado dessa relativa calma para se rearmar.

Uma reportagem do The Wall Street Journal (WSJ) mostrou que o Irã retomou a produção de mísseis balísticos utilizando componentes em estoque e operando em instalações subterrâneas.

Citando autoridades dos Estados Unidos e de países do Oriente Médio informadas sobre o assunto, o jornal nova-iorquino relatou que o Irã tem se dedicado à montagem de mísseis de propelente líquido — que precisam ser abastecidos pouco antes do lançamento — e de mísseis de propelente sólido, que podem ser armazenados prontos para disparo.

As fontes do WSJ afirmaram que o complexo de mísseis de Khojir, no sudeste do Irã, é um dos pontos onde esse trabalho está sendo realizado. O regime também está buscando construir novos locais de montagem subterrâneos para dificultar ataques americanos.

“Quando não há bombardeios às instalações, é possível substituir a infraestrutura danificada, bem como comprar novos componentes de outros países e armazená-los nas instalações”, disse Tal Inbar, analista sênior da organização sem fins lucrativos Missile Defense Advocacy Alliance, ao WSJ. “É preciso ser extremamente ingênuo para pensar que o Irã não está reconstruindo suas capacidades de produção de mísseis.”

Um desafio enfrentado pelo Irã, entretanto, é que os ataques a instalações industriais de produção de componentes e dos próprios mísseis e o bloqueio naval imposto pelos Estados Unidos – que dificulta a importação de peças e insumos – têm, em grande parte, forçado o regime persa a montar os novos mísseis a partir de componentes que já havia estocado e em quantidades mais limitadas do que antes da guerra.

Também na semana passada, o think tank americano Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês) divulgou um relatório que apontou que está ocorrendo a maior movimentação já registrada na montanha Pickaxe (Kuh-e Kolang em persa), que abriga um complexo nuclear do regime islâmico na região central do Irã.

Com base em imagens de aeronaves e de satélite, o think tank americano disse que o padrão de atividade “indica uma transição do local de uma fase de escavação ativa para uma de provável construção interna e contínuo reforço externo”.

A montanha Pickaxe está localizada perto da instalação de enriquecimento de urânio de Natanz, já atacada durante a atual guerra contra os Estados Unidos e Israel, e abriga dois complexos a cerca de 100 metros de profundidade, escavados em granito sólido.

O CSIS destacou que as características do complexo de Pickaxe dificultariam sua destruição mesmo com a utilização das chamadas bombas bunker-buster, como a GBU-57.

Em agosto, o porta-voz do Exército iraniano, Mohammad Akraminia, disse que o país já havia conseguido reconstruir seus sistemas de armas.

“Sistemas de todos os ramos das Forças Armadas, incluindo aqueles que haviam sido danificados, foram reconstruídos, e novos sistemas também foram importados”, disse o porta-voz em declarações à TV estatal, reproduzidas pela agência France-Presse (AFP).

“Novos sistemas vieram da indústria de defesa e do Exército, e alguns também foram importados do exterior; esses equipamentos ampliaram nossas capacidades de combate”, alegou Akraminia.

Embora o porta-voz não tenha detalhado de quais países vieram essas importações, desde o início da guerra foram publicados vários relatos que apontaram o envio de ajuda militar da Rússia e da China ao Irã.

Trump e Netanyahu lançam advertências ao Irã

Essas movimentações têm preocupado Estados Unidos e Israel. Na quarta-feira (9), durante a convenção do Partido Republicano para as eleições de meio de mandato presidencial, em Dallas, o presidente americano, Donald Trump, disse que os americanos “perceberam” a atividade em Pickaxe.

“Aconselho o Irã a não tentar nenhuma gracinha, pois teremos de atingi-los com muita força”, ameaçou.

No dia seguinte, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, confirmou que o Irã está tentando reconstruir sua capacidade de desenvolver armas nucleares.

“O presidente Trump anunciou que o Irã está tentando se rearmar com armas nucleares, isso é verdade”, afirmou o premiê, que garantiu que, enquanto ele continuar à frente do governo, “o Irã não terá armas nucleares”.

A alegação de que o Irã estava perto de obter armas nucleares foi a motivação para a atual guerra no Oriente Médio, iniciada em fevereiro. A redução do programa de mísseis iraniano também era um dos objetivos da ofensiva de EUA e Israel.

O coronel da reserva e analista militar Paulo Roberto da Silva Gomes Filho, colunista da Gazeta do Povo, disse em entrevista à reportagem que as informações publicadas não permitem, por enquanto, saber exatamente o estágio de desenvolvimento dos mísseis iranianos.

“O que é fato é que a resiliência da capacidade de mísseis do país está sendo muito maior do que a que os americanos supunham inicialmente. Os últimos ataques à base americana na Jordânia, que obrigaram os americanos a usarem os seus já escassos mísseis Patriot para a defesa antiaérea, comprovam isso”, disse Gomes Filho.

O analista citou que as reportagens recentes que abordaram o apoio da Rússia à designação de alvos na região, inclusive bases americanas, com fornecimento de imagens de satélite e informações de inteligência, indicam um apoio externo que “explicaria em boa medida a resiliência” que o Irã tem apresentado na guerra.

Ou seja: apesar das alegações de Trump de que o regime islâmico estaria acabado militarmente, a ameaça permanece.

“Creio que o Irã se preparou longamente para essa guerra. A manutenção de estoques e de uma cadeia de comando altamente descentralizada, que permite a continuidade das ações mesmo com a eliminação das lideranças e dos meios de comunicações, comando e controle, é um indicador disso”, afirmou Gomes Filho.

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Fonte: Gazeta Mundo

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