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Flávio usa “padrão Bukele” para apresentar agenda de segurança

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Por Wesley Oliveira

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22/08/2026 às 21:03

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A equipe de articuladores da campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência pretende transformar o discurso sobre endurecimento contra o crime em uma das principais marcas da disputa, tendo o modelo de segurança de El Salvador como referência. Ao defender o chamado “padrão Bukele”, o candidato promete ampliar presídios, aumentar penas e restringir benefícios para integrantes de organizações criminosas.

A estratégia ganha espaço em um momento em que a segurança pública aparece como a principal preocupação dos brasileiros. Pesquisa Quaest divulgada em 14 de agosto mostra que a violência foi citada por 33% dos entrevistados, à frente dos demais problemas avaliados, como economia (15%), saúde (14%) e corrupção (14%).

Na campanha, Flávio tem associado a proposta de endurecimento à ideia de recuperar o controle das ruas. Durante a live desta quinta-feira (20), o candidato afirmou que pretende “devolver as ruas” à população e disse que “hoje, o bandido domina a rua, domina até o governo”.

Em Nova Iguaçu, nesta sexta-feira (21), voltou ao tema e fez um apelo direto às organizações criminosas: “metam o pé até o final do ano, enquanto vocês têm um presidente da República que passa a mão na cabeça de vocês”.

Em outra frente, o PL tenta associar o discurso de endurecimento a uma referência a Nayib Bukele, presidente de El Salvador. O país da América Central registrou queda acentuada nos homicídios durante sua gestão, mas a política também é alvo de críticas de organizações de direitos humanos por prisões arbitrárias, tortura e mortes sob custódia do Estado.

Além de Flávio, o modelo salvadorenho passou a ser citado como referência por políticos de outros países latino-americanos que defendem respostas mais rigorosas à criminalidade. Na proposta do senador, a linha de endurecimento inclui classificar PCC, Comando Vermelho e milícias como organizações terroristas, ampliar o sistema prisional e aumentar o tempo de cumprimento das penas.

Na agenda de Nova Iguaçu, por exemplo, o candidato do PL também afirmou que pretende estabelecer pena mínima de oito anos para ladrões de celulares e receptadores. “Eu não vou mais admitir passar a mão na cabeça de ladrão de celular. Ladrão de celular vai ter que trabalhar para pagar a sua estadia. Para dar valor e saber como é difícil comprar um celular”, discursou.

Plano de Flávio amplia agenda de endurecimento contra o crime

A estratégia de Flávio de explorar a redução da maioridade penal também está atrelada ao amplo apoio da medida diante do eleitorado brasileiro. A avaliação entre assessores da campanha ouvidos pela Gazeta do Povo é de que o tema pode expor o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que tem um histórico de ser contra a medida.

Pesquisa Real Time Big Data, divulgada em maio, mostrou que 90% dos brasileiros são favoráveis à redução da idade de responsabilização penal para 16 anos, enquanto apenas 8% se declaram contrários à medida e 2% não souberam responder. O apoio à proposta se estende inclusive a parcelas do eleitorado de esquerda.

Segundo o levantamento, 81% dos eleitores de Lula apoiam a redução da maioridade penal, contra 16% que se posicionam contra. Entre os eleitores do senador Flávio Bolsonaro, a taxa de apoio chega a 96%.

Além de incluir o tema em seu plano de governo, integrantes do PL pretendem explorar a articulação da direita para tentar avançar com uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que tramita no Congresso. No último dia 12, uma comissão especial foi instalada na Câmara dos Deputados para discutir o projeto, mas a votação só deve acontecer após o período eleitoral.

“É um debate importante, elevado e vamos tratar esse tema com absoluta responsabilidade. Eu defendi que esse tema fosse deliberado pela comissão especial e pelo plenário da Casa pós-eleição. Porque se houvesse uma aprovação anterior ao processo eleitoral se diria que estávamos querendo politizar e levar à eleição um tema que impacta fortemente na sociedade. Vamos fazer como acordado”, afirmou Mendonça Filho (PL-PE), relator da proposta na Câmara.

A expectativa dentro do PL é de que uma eventual vitória de Flávio na disputa presidencial amplie a mobilização para que o texto seja aprovado. Para ilustrar a urgência da reforma, Flávio tem citado o caso recente ocorrido em uma escola de Pernambuco, onde cinco adolescentes foram apreendidos sob a acusação de estupro coletivo contra duas estudantes de 14 anos.

“Eu não quero só para 16 anos a maioridade penal. Eu quero a maioridade penal para 14 anos em casos de crimes hediondos como este. Por isso quero pedir para que só votem em deputados federais e senadores que sejam a favor da redução da maioridade penal”, disse Flávio durante sua live semanal.

O programa do candidato também prevê mudanças no regime de cumprimento das penas para condenados por crimes hediondos, com o objetivo de restringir a possibilidade de progressão de regime. A campanha apresenta a medida como parte de uma política de maior rigor na execução das condenações.

Outra proposta é a retomada da discussão sobre castração química para condenados por crimes sexuais. A medida aparece entre as pautas que Flávio tem levado aos atos de campanha ao defender uma política penal mais severa para crimes considerados de maior gravidade.

A proteção às mulheres também foi incorporada ao discurso de segurança. Em Nova Iguaçu, Flávio afirmou que pretende usar tecnologia para ampliar a capacidade de resposta policial em casos de violência contra mulheres.

“Nós vamos garantir com tecnologia que a mulher não seja mais vítima desse machismo, porque, se chegarem perto delas, a polícia é acionada automaticamente”, disse.

Propostas de segurança também enfrentam desafio de execução

Apesar do esforço do PL de usar o modelo Bukele como referência da campanha de Flávio, especialistas também colocam em discussão os limites e os custos de uma política de segurança baseada no endurecimento das medidas contra o crime. Em El Salvador, a estratégia adotada pelo presidente reduziu drasticamente os homicídios, mas passou a ser alvo de críticas por causa da suspensão de garantias constitucionais e da possibilidade de prisões sem ordem judicial.

Como mostrou a Gazeta do Povo, cerca de 84 mil pessoas foram presas sob o regime de exceção adotado por Bukele. Organizações como a Anistia Internacional e a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) denunciaram casos de prisões arbitrárias, tortura e mortes sob custódia do Estado.

O principal símbolo dessa política é o Centro de Confinamento do Terrorismo (CECOT), megaestrutura com capacidade para 40 mil detentos, inaugurada em 2023. O modelo passou a inspirar iniciativas em outros países da América Latina, mas também enfrenta questionamentos sobre seus efeitos institucionais e sociais.

O próprio desempenho de El Salvador apresenta desafios em outras áreas: o número de domicílios em situação de pobreza extrema quase dobrou entre 2019 e 2022. Para o advogado criminalista e professor Gabriel Cardoso Cândido, a avaliação de propostas de segurança deve partir da capacidade de transformar promessas em políticas efetivas.

Segundo ele, entre os pontos a serem observados pelo eleitor estão a definição de medidas concretas para reduzir a violência, a viabilidade de execução e a indicação das competências, recursos e órgãos envolvidos. “Prometer o combate às ações criminosas é diferente de apresentar um plano para alcançá-lo. Toda iniciativa precisa indicar como será executada”, afirma.

Metodologias de pesquisas citadas na reportagem

A pesquisa Quaest citada na reportagem realizou o levantamento por meio de entrevistas presenciais com 2.004 pessoas, aplicadas em âmbito nacional entre 10 e 13 de agosto de 2026. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%. O levantamento foi contratado pela Rede Globo e registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-06773/2026.

O levantamento Real Time Big Data ouviu 2 mil pessoas em todo o país entre os dias 2 e 4 de maio. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. A pesquisa foi realizada com recursos próprios do instituto e está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o protocolo BR-03627/2026.

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Fonte: Gazeta Política

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