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Como nova onda de ataques às vacinas gerou efeito reverso nas redes sociais, segundo levantamento

Torabit analisa 93,7 mil posts em quatro plataformas ao longo de oito dias

Surto de sarampo em São Paulo reforça mensagens favoráveis à imunização

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A nova onda de ataques às vacinas promovida por políticos de direita ampliou a discussão sobre imunização nas redes sociais, mas foi seguida por uma reação majoritariamente favorável à vacinação, segundo levantamento da plataforma de monitoramento digital Torabit obtido pela BBC News Brasil.

A Torabit analisou 93.755 publicações únicas contendo o termo "vacina" no X, Facebook, Instagram e Bluesky entre os dias 3 e 10 de agosto.

No período, 54,4% das publicações foram classificadas como pró-vacina, enquanto 28,3% foram classificadas como antivacina. Outros 9,4% ficaram sem classificação e 7,9% foram considerados informativos.

Considerando apenas as publicações que assumiram uma posição sobre o tema, 65,8% eram favoráveis à vacinação e 34,2%, contrárias.

A análise acompanha um período de aumento da discussão sobre vacinas no Brasil, marcado pela repercussão de declarações de políticos brasileiros, e pelo surto de sarampo em São Paulo (23 dos 24 casos do país foram identificados no estado) e pelo debate nos Estados Unidos.

Nos Estados Unidos, a discussão também foi alimentada pela audiência do imunologista Anthony Fauci no Senado, em 29 de julho.

Fauci, que foi um dos principais responsáveis pela resposta americana à pandemia de Covid-19 e se tornou uma das figuras mais associadas à defesa das medidas de controle da doença, foi chamado a depor por um comitê liderado pelo senador republicano Rand Paul, seu antigo crítico, em uma investigação sobre a origem do coronavírus e a atuação do governo durante a pandemia.

Durante a audiência, Fauci se recusou a responder às perguntas e invocou a Quinta Emenda da Constituição americana, que protege contra a autoincriminação, mais de cem vezes.

O episódio ocorreu depois que republicanos divulgaram trechos dos diários pessoais de Fauci escritos durante a pandemia e reacendeu acusações feitas pela direita americana sobre sua atuação, incluindo questionamentos sobre a origem do vírus e pesquisas de "ganho de função" —embora não tenha surgido, na audiência, nova evidência que alterasse as conclusões científicas estabelecidas sobre vacinas ou a origem da Covid-19.

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Nesse contexto, o presidente Donald Trump assinou na segunda-feira (10) uma ordem executiva que determina uma revisão das recomendações federais de vacinação infantil e reduz de 18 para 11 o número de doenças para as quais a vacinação é recomendada de forma universal.

Outras vacinas passam a ser consideradas para grupos específicos ou por decisão conjunta entre médicos e pacientes. A medida também orienta o governo a separar a vacina tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) em três aplicações distintas.

O governo Trump diz que a mudança busca alinhar o calendário americano ao de outros países desenvolvidos. A decisão foi criticada por organizações médicas e especialistas em saúde pública, que apontam falta de evidências novas que justifiquem a alteração.

Ataque e defesa da vacina nas redes

Os dois primeiros dias do levantamento da Torabit concentraram 52,9% de todas as publicações registradas no período. Na segunda-feira (3), foram 19,6% do volume total e, na terça-feira (4), 33,3%. Na quarta-feira (5), o volume caiu para 4%, mas voltou a subir nos dias seguintes.

Segundo a Torabit, a movimentação inicial foi impulsionada pela repercussão do depoimento do imunologista Anthony Fauci ao Senado americano e por um vídeo publicado pelo deputado Nikolas Ferreira em 2 de agosto, no qual ele retomou alegações sobre a pandemia de Covid-19.

Na segunda metade do período, o debate voltou a ganhar força com o avanço do surto de sarampo em São Paulo e com um vídeo publicado pelo ex-deputado Eduardo Bolsonaro em 7 de agosto.

O vídeo mostrava uma declaração assinada no Texas assumindo a responsabilidade pela decisão de não vacinar a filha e defendia que os pais tenham liberdade para decidir sobre a imunização dos filhos, usando o modelo texano como exemplo para o Brasil.

A proporção de publicações favoráveis e contrárias às vacinas variou ao longo dos oito dias analisados.

No dia 3, primeiro dia do levantamento, havia praticamente um empate: 41,2% das publicações eram pró-vacina e 41,1% eram antivacina.

No dia seguinte, a vantagem passou para o campo favorável à imunização: 56,1% contra 32,8%. Na quarta-feira (5), a diferença aumentou, com 66,9% de publicações pró-vacina e 16% antivacina. Na quinta-feira, os percentuais foram de 64,6% e 16,8%, respectivamente.

A tendência se alterou novamente na sexta-feira (7), quando o vídeo de Eduardo Bolsonaro passou a repercutir. Naquele dia, 48% das publicações foram classificadas como pró-vacina e 22,2% como antivacina. No sábado, os percentuais foram de 48,5% e 24,3%.

A reação favorável à vacinação voltou a crescer no domingo (9), chegando a 66%, contra 18,8% de conteúdos antivacina. Na segunda-feira (10), último dia do levantamento, a diferença foi ainda maior: 82,1% das publicações eram pró-vacina e 10,3%, antivacina.

A Torabit identificou, portanto, um padrão semelhante após as duas principais ondas de conteúdo antivacina analisadas: aumento imediato da discussão e posterior reversão da tendência. Segundo a empresa, o efeito de cada investida sobre a distribuição das posições durou aproximadamente 48 horas.

Os dados não permitem determinar se os ataques provocaram diretamente o aumento das manifestações pró-vacina. O período também foi marcado pelo surto de sarampo em São Paulo e pelo início da campanha nacional de multivacinação, acontecimentos que contribuíram para ampliar a discussão sobre imunização.

Vídeos de Nikolas e Eduardo tiveram repercussões diferentes

Os dados da Torabit permitem separar a repercussão dos vídeos de Nikolas Ferreira e Eduardo Bolsonaro.

No caso de Nikolas Ferreira, o vídeo publicado no dia 2, em que o deputado retomou afirmações sobre a pandemia de coronavírus, representou 3% de todas as menções sobre vacinas registradas no período. O pico ocorreu na segunda-feira (3), quando o conteúdo apareceu em 6,5% das menções sobre vacinas daquele dia.

A maioria das publicações que mencionavam Nikolas, no entanto, era favorável à vacinação: 87,9% foram classificadas como pró-vacina, contra 5,8% antivacina. A repercussão perdeu força rapidamente e, a partir da quarta-feira, passou a representar menos de 1,5% das menções diárias.

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A repercussão do vídeo de Eduardo Bolsonaro foi maior e mais prolongada. O conteúdo representou 6,4% de todas as menções sobre vacinas no período. Publicado na sexta-feira (7), respondeu por 9,7% das menções daquele dia, mas atingiu seu pico no sábado e no domingo, quando esteve presente em 26,2% das publicações sobre vacinas em cada um dos dois dias.

Também houve maior presença de conteúdo antivacina entre as publicações que citavam Eduardo: 31,6%, contra 60,9% de conteúdo pró-vacina. Ainda assim, as manifestações favoráveis à imunização foram maioria.

A diferença entre os dois episódios também aparece no conteúdo das reações. No caso de Nikolas, as publicações mais compartilhadas contestavam suas afirmações sobre a pandemia.

No caso de Eduardo, a discussão incluiu críticas sobre responsabilização e contradições atribuídas à família Bolsonaro. Algumas publicações afirmavam que integrantes da família são vacinados enquanto fazem campanha contra a vacinação.

Sarampo impulsionou defesa da vacinação

O surto de sarampo em São Paulo também teve papel importante na conversa sobre vacinas durante o período.

As menções ao surto representaram 10,6% de todas as publicações analisadas. A participação do tema aumentou ao longo da semana: era de 3,7% das menções sobre vacinas na segunda-feira (3), passou para 15% na sexta-feira (7) e chegou a 15,7% no sábado (8).

Entre as publicações que mencionaram o sarampo, 72,7% foram classificadas como pró-vacina, 24,1% como informativas e apenas 2,1% como antivacina. Outros 1,2% não puderam ser classificados.

O levantamento também identificou diferença entre perfis femininos e masculinos.

Entre os perfis femininos com posição definida, 67% das menções eram pró-vacina e 33% antivacina. Entre os perfis masculinos, 56% eram pró-vacina e 44% antivacina.

No levantamento anterior do Valor, que considerava apenas os primeiros cinco dias, 68% das menções de perfis femininos eram positivas em relação às vacinas, contra 51% entre os homens.

A Torabit também separou a classificação de posição da análise de sentimento das publicações.

No período completo, 42,3% das menções tinham tom negativo, enquanto 27,2% tinham tom positivo. O tom, porém, não indica necessariamente uma posição contrária às vacinas.

Segundo a plataforma, 62% das publicações classificadas como negativas eram, na verdade, pró-vacina. Isso ocorre porque uma publicação pode defender a vacinação e, ao mesmo tempo, usar linguagem negativa ao criticar um político ou uma declaração antivacina.

A Torabit afirma que os dois indicadores são analisados separadamente: a classificação de posição mede se o conteúdo é favorável ou contrário à vacinação, enquanto a análise de sentimento identifica o tom da publicação.

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Fonte: Saúde Brasil

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