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Por Sílvio Ribas
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Brasília
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10/08/2026 às 21:35
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Flávio Bolsonaro transformou o fim da reeleição presidencial em um dos principais ativos na negociação com partidos de centro e centro-direita. A promessa de cumprir apenas um mandato busca reduzir resistências à sua candidatura no pleito atual e manter aberta a disputa para concorrer ao Palácio do Planalto nas eleições de 2030.
O compromisso foi formalizado na Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 4/2026, apresentada pelo senador em março, que impede o presidente de disputar um segundo mandato seguido. O texto prevê aplicação imediata – até para quem vencer a eleição deste ano – e sem transição prevista em outros pleitos.
"Ao eliminar a possibilidade de reeleição consecutiva para o Presidente da República, pretende-se fortalecer a independência decisória do governante, reduzir incentivos ao uso estratégico da máquina pública, reafirmar o compromisso republicano com a limitação temporal do poder político e um movimento de volta à normalidade democrática", justificou Flávio Bolsonaro.
Aliados trabalham com a possibilidade de aprovar a emenda no início de 2027, caso Flávio seja eleito presidente em outubro deste ano. Nesse cenário, ele ficaria impedido de concorrer novamente em 2030. A aprovação, porém, depende de três quintos dos votos, em dois turnos, tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado.
Além de atrair o eleitor de centro e de direita, a sinalização de Flávio mirava conquistar o apoio de siglas como PP, União Brasil, Republicanos e PSD, mas isso não se concretizou para o primeiro turno.
O PSD lançou candidato próprio em 2026 – Ronaldo Caiado. Já o Republicanos e a Federação União Progressista – composta por PP e União Brasil – decidiram manter a neutralidade nacional, apesar do apoio de nomes influentes dessas legendas ao candidato do PL.
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Antes de Jair Bolsonaro (PL) indicar o filho como seu representante nas urnas, líderes do Centrão e o mercado financeiro trabalhavam pelo lançamento da candidatura presidencial do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), em uma ampla aliança a ser apoiada pelo ex-presidente.
Uma das composições discutidas colocava a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro como vice, condição que ajudaria a transferir para a chapa o capital eleitoral da família, o voto evangélico e a presença feminina. Aliados chegaram a afirmar que Jair Bolsonaro já havia dado aval à composição.
Mas Tarcísio optou pela reeleição ao Palácio dos Bandeirantes e preservou o seu nome para 2030. É justamente essa expectativa que Flávio procura manter ao propor a renúncia antecipada a um segundo mandato, sem interromper a fila de pretensos presidenciáveis para o próximo pleito.
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Renúncia à reeleição ajudaria governo de transição com alto custo político
Na construção apresentada aos aliados, o eventual governo de Flávio Bolsonaro teria caráter de transição. Caberia a ele na condição de presidente enfrentar ajustes fiscais, rever despesas e adotar medidas econômicas potencialmente impopulares, preparando o país para uma nova candidatura do campo conservador quatro anos depois.
Ao mesmo tempo, Flávio manteria como prioridade política a libertação de Jair Bolsonaro, a revisão das penas aplicadas aos condenados pelos atos de 8 de janeiro e a busca por uma nova configuração do Supremo Tribunal Federal (STF). O senador e candidato do PL já declarou que anistiar o ex-presidente e aliados é prioridade.
O mandato único também serviria de instrumento de pacificação familiar. A disputa pública entre Flávio e a madrasta, Michelle – já superada – foi vista por analistas como choque por espaço, comando e herança política do sobrenome Bolsonaro na falta do patriarca. A crise chegou a afetar a organização da campanha, mas os dois já deram declarações públicas de que o episódio já ficou no passado e o foco agora é enfrentar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a esquerda nas urnas.
No cenário que considera a eleição de Flávio em 2026 e a PEC do fim da reeleição durante a próxima legislatura do Congresso, Michelle, Tarcísio e outros aliados poderiam disputar a eleição de 2030 sem enfrentar o filho do ex-presidente.
Já o deputado federal Nikolas Ferreira (PL), parlamentar influente na internet e que dialoga com os jovens conservadores, segue fora dessa sucessão, pois só terá idade para concorrer a presidente em 2034.
São Paulo pode se tornar a plataforma nacional da campanha de Flávio
Flávio participou da convenção do Republicanos que confirmou Tarcísio candidato à reeleição em São Paulo e procurou apresentá-lo como trunfo da gestão Bolsonaro, na qual o governador comandou o Ministério da Infraestrutura.
Tarcísio, por sua vez, reiterou apoio a Flávio, enquanto o PL ingressou na coligação estadual do Republicanos. A campanha calcula que uma vitória de Tarcísio no primeiro turno fortaleceria Flávio na etapa decisiva da eleição. Se a disputa paulista estiver resolvida, o governador mobilizaria empresários e ampliaria o alcance do candidato do PL ao Planalto entre eleitores de centro.
A promessa de Flávio de disputar só um mandato busca se diferenciar de compromissos apenas políticos ao ser transformada numa proposta formal de emenda à Constituição. A estratégia procura reduzir a desconfiança de eleitores e aliados, lembrando que tanto Jair Bolsonaro quanto Lula chegaram a manifestar que não buscariam novo mandato.
A PEC é apresentada como um mecanismo para vincular o compromisso a uma mudança institucional. O discurso também resgata o debate iniciado com a mudança constitucional de 1997, que instituiu a reeleição para presidente, governadores e prefeitos. Primeiro beneficiado pela regra, Fernando Henrique Cardoso (PSDB) passou a afirmar que a mudança “foi um erro” histórico.
Especialistas veem esforço de Flávio para reduzir a rejeição de partidos
Leandro Gabiati, diretor da consultoria política Dominium, avalia que, embora a PEC do fim da reeleição proposta por Flávio Bolsonaro não tenha conseguido avançar no Senado até o momento, o seu principal objetivo é simbólico e de efeito eleitoral, além de pautar articulações com os partidos do Centrão.
“Flávio precisa diminuir a rejeição, assim como Lula. Uma das formas de ele fazer isso é justamente mostrar de forma ainda mais enfática o seu compromisso com a democracia e a alternância no poder. Sinalizar ser contra a reeleição para o mandato de presidente parece ir nesse sentido”, diz.
Para Marcus Deois, diretor da consultoria política Ética, não foi por acaso que Flávio manifestou, pouco após o anúncio de sua pré-candidatura, o interesse em mandato único para a chefia do Executivo, relembrando a PEC sobre o assunto. “O assunto não é novidade, mas ainda pode avançar”.
O analista entende que o fim da reeleição agrada parte dos parlamentares de centro, pois “assegura que, em 2030, Flávio não buscará eventual recondução ao cargo, abrindo espaço para outros nomes, [como o de] Tarcísio”.
A prioridade de Flávio era definir um vice-presidente para a sua chapa. O nome escolhido foi o do deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL), que presidiu a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPMI) do INSS.
Superada essa etapa, Deois avalia que Flávio deve começar a sinalizar os nomes que pretende levar para um eventual governo.
“Após isso, ele deverá repetir a estratégia do pai, começando a fazer anúncios extraoficiais de nomes para compor a sua equipe ministerial, como Justiça e Economia”.
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Fonte: Gazeta Política


