Entrevista ao El País
O cantor brasileiro Caetano Veloso afirmou em entrevista ao jornal espanhol El País que acredita que o Brasil não pode mais “ser salvo”.
Veloso foi entrevistado devido à sua turnê europeia, que na quinta-feira (4) terá uma apresentação em Madri.
Preocupação e desilusão
“No momento, a preocupação predomina em mim; às vezes, uma espécie de desilusão. Tento evitar uma visão excessivamente sonhadora da realidade. A música popular brasileira ainda representa uma das grandes forças culturais do país, mas as coisas estão tão feias hoje em dia… O Brasil parece que não pode ser salvo”, afirmou.
“Mas, ao mesmo tempo, continuo com a sensação de que [o país] ainda pode dizer algo importante ao mundo, contribuir com uma presença diferente, uma outra sensibilidade. Esse sentimento não morreu dentro de mim”, acrescentou o cantor baiano.
Vida política no Brasil
Embora não tenha falado da eleição presidencial brasileira, que será realizada em outubro, Veloso fez comentários sobre a vida política no país.
“Há pessoas que dizem publicamente que gostariam que a ditadura militar voltasse. E dizem isso como se não fosse nada. Para mim, isso é insuportável. Prisão, confinamento e exílio foram experiências muito dolorosas. Ficamos presos por dois meses, depois confinados por vários meses em Salvador e, em seguida, mais de dois anos no exílio. Isso até mudou a forma como encaro o mundo”, afirmou.
Veloso também falou sobre as críticas que recebeu tanto “de conservadores quanto de setores da esquerda”.
“As críticas da esquerda nos fizeram sofrer, claro, mas faziam parte do debate cultural. Certamente, me fizeram sentir mais livre. O que doeu foi a atitude dos militares: a prisão, o confinamento, o exílio. Isso até abalou minha coragem”, disse o cantor.
“Quando escrevi ‘Verdade Tropical’ [sua autobiografia, publicada em 1997], disse que a esquerda precisava dar mais atenção às questões raciais, sexuais e comportamentais. Mas hoje, me parecem excessivas a racialização, a sexualização e a ênfase em questões de gênero. Isso gera muita confusão”, afirmou.
Fonte: Gazeta Mundo


