EconomiaMentiras, lobbies e medo do eleitor marcam reviravolta do governo na taxa...

Mentiras, lobbies e medo do eleitor marcam reviravolta do governo na taxa das blusinhas

Receba notícias por email

Banco Master

Banco Central

Por Roberta Ribeiro

Por Roberta Ribeiro

13/05/2026 às 17:51

13/05/2026 às 17:51

Ouça este conteúdo

Após arrecadar cerca de R$ 9 bilhões com a taxação de compras internacionais abaixo de US$ 50, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) revoga a medida e agora comemora o fim de um dos principais símbolos de desgaste político de seu terceiro mandato.

Entre pressões da indústria nacional, necessidade de arrecadação e sinais de rejeição popular, a narrativa do governo mudou diversas vezes ao longo da tramitação e vigência da chamada “taxa das blusinhas”.

O avanço da tributação ocorreu em meio à estratégia do Ministério da Fazenda de ampliar receitas para sustentar a meta de equilíbrio fiscal e reduzir o déficit das contas públicas.

Diante disso, houve afirmações de que quem pagaria seriam as empresas, e não os consumidores; de que o PT não apoiava a medida — sendo que todos os seus parlamentares votaram pela aprovação —; e até mesmo de que ela visava combater contrabando e contravenções.

Em 2023, quando a tributação começou a ser defendida, Lula afirmou, em entrevista ao portal Brasil 247, que o país não poderia viver com o aumento da importação de produtos que não pagam impostos. Naquele momento, o principal argumento do governo era o de que empresas estavam usando a isenção para pessoas físicas para burlar regras de importação.

“Está crescendo a importação de produtos que não pagam nenhum imposto nesse país, ou seja, como é que a gente vai poder ficar vivendo assim?”, disse Lula. O presidente ainda afirmou que queria manter uma “relação extraordinária com os chineses”, mas que não podia aceitar que as empresas seguissem vendendo para o Brasil sem pagar impostos.

Repercussão negativa "suavizou" discurso do governo

Em 2024, diante da repercussão negativa da “taxa das blusinhas”, Lula começou a “suavizar” a defesa da tributação. Em entrevista ao portal UOL, disse que havia sido resistente à medida.

Ele afirmou que a “classe média” que viaja ao exterior pode gastar até US$ 2 mil sem ser tributada. Assim, discordava do imposto de 20% para compras de até US$ 50, feitas, em sua maioria, pela população de baixa renda.

Sobre a sanção da proposta, afirmou que ela visava manter a unidade do governo com o Congresso e responsabilizou a Câmara e o Senado pela aprovação da medida. A fala de Lula omitia o fato de a proposta ter sido encabeçada pelo então ministro da Fazenda, Fernando Haddad.

Em abril deste ano, Lula aprofundou as críticas e disse que achava a taxa “desnecessária”. Em entrevista aos portais Brasil 247, Revista Fórum e DCM, o presidente chegou a afirmar que a medida trouxe “prejuízo” ao governo, desconsiderando os valores arrecadados:

2024 (jun-dez) — R$ 2,88 bilhões

2025 (jan-dez) — R$ 5 bilhões

2026 (jan-maio) — R$ 1,8 bilhão

Diante de críticas do varejo e da indústria nacional, que argumentam que a reversão da taxa das blusinhas significa a “destruição” de setores, o governo retomou a narrativa inicial — até mesmo a fim de evitar o rótulo de "destruidor da indústria e do varejo".

Na cerimônia de assinatura da medida provisória que encerrou a taxação, o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, disse que, após “eliminar o contrabando e regularizar o setor”, a gestão Lula pode reverter a medida.

VEJA TAMBÉM:

Governo publica fim da “taxa das blusinhas” e mudança passa a valer

“Taxa das blusinhas” se tornou principal desgaste político de Lula, apontam pesquisas

Taxa das blusinhas é principal desgaste de Lula

Ao longo de quase dois anos de vigência, a tributação se tornou um dos principais pontos de desgaste para a terceira gestão de Lula. De olho na reeleição e com altos índices de desaprovação, o governo tem apostado tudo para tentar reverter esse quadro.

A razão é clara: o imposto de importação tem o maior índice de reprovação entre todas as medidas do governo. Levantamento da AtlasIntel em parceria com a Bloomberg, divulgado em março deste ano, mostrou que 62% dos brasileiros consideram a medida equivocada. Apenas 30% classificaram a medida como um acerto, enquanto 8% disseram não saber responder.

Arrecadação falou mais alto que consumo de baixa renda

A taxa das blusinhas se mostrou controversa desde o início das discussões. Em 2023, Haddad alegou que plataformas e empresas burlavam as regras para deixar de pagar a alíquota de 60% sobre importações de até US$ 50. A primeira-dama, Rosângela Lula da Silva, juntou-se ao ministro na defesa da tributação. 

Em sua conta no antigo Twitter, atual X, Janja respondeu a uma postagem do perfil Choquei que criticava a taxa das blusinhas. Segundo ela, a “taxação era para as empresas e não para o consumidor". A declaração contrariava a lógica da tributação e se logo se provou mentirosa: assim que o imposto começou a ser cobrado, as empresas o acrescentaram ao preço dos produtos.

O mal-estar foi grande: as redes foram tomadas por memes criticando Janja e Haddad. Em meio à confusão, a Fazenda chegou a anunciar formalmente a medida, mas a Presidência voltou atrás logo em seguida.

Taxa das blusinhas foi implementada gradualmente

A solução encontrada foi criar o programa Remessa Conforme para “regular” o setor. Dessa forma, as plataformas que se cadastrassem junto à iniciativa, na Receita Federal, ficariam isentas da tributação.

Um ano depois, em meados de 2024, sob pressão da indústria nacional — que, desde o início, alegou disparidade competitiva em relação às empresas estrangeiras —, a matéria avançou no Congresso. O ex-presidente da Câmara, deputado Arthur Lira (PP-AL), e os líderes do governo e do PT no Senado, Jaques Wagner (PT-BA) e Beto Faro (PA), apoiaram a iniciativa.

A proposta foi inserida como um “jabuti” — matéria estranha ao projeto original — pelo deputado Átila Lira (PP-PI) no projeto de lei que institui o Programa Mobilidade Verde e Inovação (Mover). Após idas e vindas no Congresso, a taxa das blusinhas foi aprovada como um anexo ao Mover.

Alguns integrantes do governo buscaram se descolar da tributação. A então presidente do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PR), disse que o partido era contra o imposto e jogou a responsabilidade da aprovação em Lira. O placar das votações no Congresso desmentiu a parlamentar: tanto no Senado quanto na Câmara, desconsideradas as abstenções, todos os deputados e senadores da sigla proferiram voto favorável à taxa das blusinhas, incluindo a própria Gleisi.

VEJA TAMBÉM:

Apoio governista e investida contrária do PL: relembre o placar da “taxa das blusinhas”

Governo cogita reverter “taxa das blusinhas” para reduzir desgaste eleitoral

Plataformas de e-commerce e indústria nacional divergem

O choque de argumentos e narrativas não se restringiu à Esplanada. Pesquisas encomendadas por plataformas de e-commerce atingidas pela taxa das blusinhas — como Shopee, Shein e Amazon — e pelo varejo nacional apresentam diferentes perspectivas sobre o imposto de importação.

Um levantamento demonstrou que a tributação teve impacto mais acentuado sobre o consumidor de baixa renda, principal eleitor de Lula. Pesquisa da consultoria Plano CDE identificou que 14 milhões de pessoas das faixas C, D e E deixaram de importar produtos on-line entre agosto de 2024 e abril de 2025, uma queda de 35%. Nas classes A e B, a redução foi menor, de 11%.

Agora, após o fim da taxação, a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) afirmou que a decisão volta a ampliar a “assimetria competitiva” entre a indústria nacional e plataformas internacionais de e-commerce. Segundo a entidade, a indústria brasileira já opera sob elevados custos de produção, alta carga tributária e desafios logísticos que impactam diretamente sua competitividade.

Fim da tributação é "tsunami" para indústria e varejo nacionais, diz Hang

Um dos principais defensores da tributação, o empresário Luciano Hang, dono da Havan, afirmou que o fim da taxa das blusinhas é um verdadeiro “tsunami". Segundo ele, a reversão da medida, sem oferecer contrapartida, pode acelerar falências e desemprego. “É a destruição do varejo e da indústria nacional", disse o empresário.

Você pode se interessar

Santa Catarina cria rota oficial do Big Surf

Santa Catarina cria rota oficial do Big Surf

Filhas de condenados por educação domiciliar leem 30 livros por ano

Filhas de condenados por educação domiciliar leem 30 livros por ano

O veredito de teólogos católicos sobre a descoberta de alienígenas

O veredito de teólogos católicos sobre a descoberta de alienígenas

STF impede pais de vetar participação dos filhos em aulas de gênero

STF impede pais de vetar participação dos filhos em aulas de gênero

Deixe sua opinião

Encontrou algo errado na matéria?

Comunique erros

Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Principais Manchetes

Flávio teria negociado com Vorcaro financiamento milionário para filme sobre Bolsonaro

Fachin quer julgar lei da dosimetria com “brevidade” no STF, mas esbarra em Moraes

Gazeta Agora: Governo despeja R$ 144 bilhões para tentar “comprar” aprovação; assista

Por que as “bondades” de mais de R$ 100 bilhões não recuperam a popularidade de Lula

Tudo sobre:

consumo

Fernando Haddad

Importação

Impostos

Indústria

Janja – Rosângela Silva

Luciano Hang

Ministério da Fazenda

tributação

Receba nossas notícias NO CELULAR

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.

Fonte: Gazeta Economia

DestaquesNo ZUG!

Subscribe
Notify of
guest
0 Comentários
Newest
Oldest Most Voted
Ipatinga
nuvens quebradas
22 ° C
22 °
22 °
94%
2.1m/s
75%
sex
27 °
sáb
34 °
dom
30 °
seg
31 °
ter
30 °