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Por Rose Amantéa
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Brasília
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12/05/2026 às 21:04
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Mesmo após anunciar cerca de R$ 144 bilhões em medidas de estímulo à economia, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ainda não conseguiu reverter a deterioração da popularidade.
Pesquisa Genial/Quaest divulgada em abril mostrou desaprovação de 52% ao governo, ante 43% de aprovação — o pior índice do atual mandato —, indicando que a ofensiva eleitoral do Planalto tem produzido impacto político menor do que o esperado.
Nas últimas semanas, o governo acelerou o ritmo de anúncios. A iniciativa se deu em meio ao avanço do pré-candidato da oposição, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), nas pesquisas para 2026 e à persistência da desaprovação de Lula em patamares elevados.
O cálculo das “bondades”, reportado primeiramente pela Folha, reúne medidas anunciadas desde março, concentradas principalmente em expansão de crédito subsidiado, renegociação de dívidas, saques do FGTS, subsídios ao consumo e desonerações.
Só com medidas de expansão de linhas de crédito para pessoas físicas foram R$ 76,2 bilhões. A iniciativa mais recente foi o lançamento do Desenrola Brasil 2.0, nova rodada de renegociação de débitos para famílias, micro e pequenas empresas e produtores rurais, com até R$ 15 bilhões em garantias da União para reduzir juros e ampliar descontos.
O pacote também inclui reforço a programas habitacionais, crédito para caminhoneiros, estudantes e microempreendedores, além de até R$ 32 bilhões em subsídios e renúncias fiscais para conter a alta dos combustíveis provocada pela disparada internacional do petróleo.
A Fazenda informou que outras medidas também estão em elaboração e devem atingir pessoas adimplentes, mas pressionadas por empréstimos com juros elevados, além de trabalhadores informais, taxistas e motoristas de aplicativos — segmentos em que Lula enfrenta maior dificuldade de apoio eleitoral.
Procurado pela Gazeta do Povo, o Ministério da Fazenda afirmou que as mredidas traduzem uma atuação do governo "em sintonia com as demandas de mudança da sociedade".
Desde janeiro de 2023, diz a Fazenda, foram aprovadas no Congresso 72 matérias com perfil econômico de iniciativa do governo ou com seu apoio decisivo. "Os números mostram um governo que trabalha e produz de forma consistente desde o primeiro dia", reforça a nota.
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Izak Carlos da Silva, economista-chefe do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), afirma que o cálculo não considera outras benesses já testadas pelo Planalto sem sucesso. Dentre elas, destacam-se a isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e os reajustes concedidos ao funcionalismo público acima da inflação.
Para ele, o baixo retorno político das medidas reflete uma mudança mais profunda no perfil do eleitorado brasileiro em relação aos primeiros mandatos petistas. Os programas de transferência de renda e benefícios sociais perderam parte da capacidade de gerar identificação política porque passaram a ser percebidos como direitos já incorporados pela população mais pobre.
“Nos anos 2000, as pessoas começaram a perceber Bolsa Família como valor. Hoje a sociedade já percebe aquilo como um direito dela”, afirmou.
Na mesma linha, Fábio Murad, sócio-fundador da Ipê Avaliações, afirma que o governo enfrenta uma dificuldade adicional. Segundo ele, a percepção do eleitorado sobre a economia passou a depender menos do anúncio de medidas isoladas e mais da sensação de estabilidade e melhoria contínua das condições de vida.
“Subsídios, renegociação de dívidas e programas voltados ao custo de vida podem produzir algum efeito positivo, sobretudo entre os grupos mais pressionados pela renda. A recuperação da confiança, no entanto, costuma depender de resultados percebidos de forma mais ampla e contínua”, ressalta.
Brasileiros querem empreender e prosperar
Há outros fatores estruturais. Na avaliação de Silva, a população hoje responde mais à perspectiva de mobilidade social, estabilidade e melhoria da qualidade de vida. Um dos exemplos dessa mudança é, segundo ele, a resistência de parte dos trabalhadores de aplicativos às tentativas de regulamentação defendidas pelo governo desde a campanha eleitoral.
“Muitos desses profissionais passaram a enxergar modelos flexíveis de trabalho como oportunidade de independência financeira e ampliação de renda, e não apenas como precarização das relações trabalhistas”, diz.
Ao mesmo tempo, o economista avalia que o crescimento recente da economia tem baixa capacidade de melhorar efetivamente o padrão de vida da classe média e dos trabalhadores urbanos.
Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostram concentração da geração de vagas formais nas faixas de até dois salários mínimos. Por outro lado, os empregos intermediários seguem escassos.
Na prática, argumenta Silva, o país continua gerando empregos de baixa remuneração e baixa qualificação. Essa tendência ajuda a explicar o descompasso entre indicadores macroeconômicos relativamente positivos e a avaliação negativa do governo. “As pessoas querem ascender socialmente, querem melhorar de vida”, afirmou.
Murad ainda acrescenta que o ambiente de maior desconfiança também dificulta a recuperação da popularidade. “Medidas anunciadas perto do período eleitoral tendem a ser avaliadas com cautela. Para alguns eleitores, representam uma resposta concreta a problemas reais; para outros, podem parecer ações motivadas principalmente pelo calendário político.”
Segundo ele, a reversão da perda de popularidade “dependerá menos do anúncio das medidas e mais da capacidade do governo de mostrar efeitos consistentes sobre renda, preços, endividamento e estabilidade econômica, sem ampliar a percepção de risco fiscal”.
Escala 6×1, risco fiscal e disputa política
Neste sentido, o economista do BDMG cita a discussão sobre o fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho, uma das principais apostas eleitorais do governo. A medida segue em tramitação acelerada no Congresso, sem que tenha havido, segundo ele, um debate amplo com a sociedade sobre custos, produtividade, emprego e arrecadação.
Além do possível impacto sobre o mercado de trabalho, propostas dessa natureza podem ampliar a pressão sobre as contas públicas. O rombo fiscal já é, no momento, um ponto sensível para o governo. A gestão petista enfrenta o aumento de despesas obrigatórias e o crescimento da dívida pública, que deve se aproximar de 100% do PIB em 2027, segundo projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI).
Na avaliação do economista, a proposta ainda não entrou integralmente nas projeções fiscais e pode abrir espaço para novas demandas de compensação ao setor produtivo. Para tanto, podem ser consideradas novas desonerações da folha de pagamento das empresas. “É possível que o governo acabe tendo que compensar uma medida com outra”, afirmou.
Além disso, a possibilidade de que a medida sirva como última “bala de prata” — para alavancar a popularidade de Lula — encontra limites na disputa política dentro do Congresso. O cenário deve se manter, mesmo que as propostas avancem rapidamente. “Me parece difícil que o Legislativo deixe que o Executivo sequestre essa pauta sozinho”, afirmou.
Metodologia
A pesquisa Quaest entrevistou 2.004 pessoas entre os dias 9 e 13 de abril. A pesquisa foi contratada pelo Banco Genial S.A. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos. O nível de confiança é de 95%. Registro no TSE nº BR-09285/2026.
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Fonte: Gazeta Economia


