PolíticaFarra dos penduricalhos prova que nem o Judiciário respeita mais o STF

Farra dos penduricalhos prova que nem o Judiciário respeita mais o STF

Renan Ramalho

Análise, bastidores e informações sobre Poder e Justiça, direto de Brasília

Por Renan Ramalho

Por Renan Ramalho

Brasília

Brasília

12/05/2026 às 11:53

12/05/2026 às 11:53

Ouça este conteúdo

Acossados pelo escândalo do Master, os ministros do Supremo decidiram que a moralização da Justiça deve vir do andar de baixo. Nada de código de ética para vetar caronas em jatinhos de empresários, convescotes regados a uísque em Londres ou parentes com acesso privilegiado aos gabinetes.

Para estancar a crise de credibilidade escancarada pelo jet set de Daniel Vorcaro, elegeram os penduricalhos da primeira instância como bode expiatório ideal. A plateia, incauta, aplaudiu.

Afinal, é fácil flagrar o escândalo de um juiz que recebe R$ 200 mil num único mês; difícil é rastrear quem financia o luxo de ministros no exterior.

A tentativa de purgação, porém, virou farsa. Em fevereiro, depois das primeiras decisões suspendendo praticamente qualquer adicional nos salários, juízes, promotores e advogados públicos espernearam. Em março, o plenário do STF criou um “sobreteto”, elevando o limite de remuneração de R$ 46,3 mil para R$ 78,8 mil.

Foi a senha para o vale-tudo no pagamento das “verbas indenizatórias”. As várias exceções permitidas – “ajuda de custo para alteração do domicílio legal”, “pro labore pela atividade de magistério”, “indenização de férias não gozadas”, “gratificação pelo exercício em comarca de difícil provimento” e outras mamatas do tipo – multiplicaram-se.

Tribunais e procuradorias correram para aprovar, a toque de caixa, variações dessas rubricas para engordar, novamente, a remuneração dos doutores. A pressa foi tanta que sequer aguardaram o acórdão do STF, documento que fixa as regras, publicado no dia 8.

Surgiram cargos especiais para “locais pobres”, de “difícil acesso”, com “atribuições complexas”. Inventaram uma “gratificação de proteção à primeira infância e à maternidade”, nome mais pomposo para o velho auxílio-creche. Advogados da União aprovaram pagamento de academia para cunhados.

Uma desembargadora que recebeu R$ 85 mil por mês, em média, no ano passado, choramingou que os limites imporiam um “regime de escravidão”.

Com o fiasco da tentativa de reabilitar a imagem do Judiciário, Gilmar Mendes, Flávio Dino, Alexandre de Moraes e Cristiano Zanin ameaçaram punir os responsáveis pelos novos penduricalhos.

Com o acórdão publicado, a novela seguirá agora nos “embargos declaratórios”, recursos em que as associações de classe poderão interpor contra a decisão do plenário, para buscar, em cada vírgula, a brecha legal para o próximo saque.

O vai-e-volta dos penduricalhos revela uma verdade incômoda: o exemplo vem de cima. Se ministros vivem como bilionários, por que os demais magistrados devem se contentar com o mísero teto? Se eles dobram a lei a torto e a direito em prol de suas vontades, por que não democratizar essa prerrogativa para toda a magistratura?

As manobras do sobreteto provam que o STF já não é respeitado nem pelos seus pares. Nunca é demais recordar que ministros, desembargadores, procuradores e advogados públicos são todos recebedores de impostos. No teatro do Judiciário brasileiro, todos fingem que controlam a gastança, enquanto você, invariavelmente, é quem paga.

VEJA TAMBÉM:

Charge sobre penduricalhos gera celeuma entre juízes e notas de repúdio

Coalizão denuncia “efeito cascata” de supersalários e pede freio a penduricalhos

Ministros do STF rejeitam código de ética de Fachin, mas julgam juízes com manual da ONU

Jornalista de política especializado na cobertura de Justiça. Desde 2009 em Brasília, observa de perto como se move o poder, o direito e a imprensa. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.

Você pode se interessar

Caso do detergente Ypê é mais grave do que parece

Caso do detergente Ypê é mais grave do que parece

Futura Inteligência divulga nova pesquisa para presidente

Futura Inteligência divulga nova pesquisa para presidente

Espinosa: o homem que quis reinventar Deus

Espinosa: o homem que quis reinventar Deus

Pais são condenados a 50 dias de detenção por ensino domiciliar

Pais são condenados a 50 dias de detenção por ensino domiciliar

Deixe sua opinião

Encontrou algo errado na matéria?

Comunique erros

Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Principais Manchetes

Farra dos penduricalhos prova que nem o Judiciário respeita mais o STF

Para agradar eleitores, Lula lança programa de R$ 11 bilhões para a segurança pública

Associação de imprensa agiu para Moraes suspender Lei da Dosimetria

Caso de aluno expulso da USP após perseguição política motiva criação de projeto de lei

Tudo sobre:

Judiciário

Justiça

STF

Receba nossas notícias NO CELULAR

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.

Fonte: Gazeta Política

DestaquesNo ZUG!

Subscribe
Notify of
guest
0 Comentários
Newest
Oldest Most Voted
Ipatinga
nublado
23 ° C
23 °
23 °
100%
0m/s
100%
sáb
36 °
dom
29 °
seg
32 °
ter
30 °
qua
37 °