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Eleições 2026
Alexandre Garcia
Por Sílvio Ribas
Por Sílvio Ribas
Brasília
Brasília
24/04/2026 às 12:03
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O presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT) converteu nos últimos dias o confronto com Donald Trump em peça central da sua estratégia para a reeleição. Diante do fortalecimento do principal rival, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e da persistente rejeição ao seu governo, o presidente aposta nas provocações a Washington disfarçadas de defesa da soberania do Brasil como forma de angariar apoio da população.
Na provocação mais recente ao presidente americano, Lula voltou a sugerir que levaria jabuticabas para acalmá-lo. Dias antes, em Portugal, zombou de Trump, dizendo que era preciso dar o Nobel da Paz para ele parar de fazer guerras. Ao longo de semanas, o petista evocou até a coragem dos cangaceiros para se contrapor ao que chama de autoritarismo do americano.
O governo brasileiro também tentou nesta semana retratar como agressão ao Brasil a expulsão de um delegado da Polícia Federal do posto de oficial de ligação no ICE (agência de combate à imigração ilegal nos EUA). O policial é investigado por supostamente manipular o sistema de imigração americano para forçar a deportação do ex-deputado Alexandre Ramagem (PL-RJ), desafeto do governo petista.
Diferente do Brasil, onde o caso recebeu tom político com a determinação por Lula de que um agente americano também seja expulso do Brasil pelo princípio diplomático da reciprocidade, o afastamento do delegado brasileiro vem sendo tratado de forma mais contida pelos EUA.
Segundo analistas ouvidos pela Gazeta do Povo, a lógica perseguida por Lula é velha conhecida da esquerda no mundo. Ao deslocar o foco para conflitos internacionais, o governo busca reduzir a pressão interna e recompor a base, explorando o discurso de defesa da soberania nacional. Após a série de provocações a Trump, Lula parece torcer pelas reações do americano.
No último dia 14, o presidente brasileiro ironizou a hipótese de interferência de Trump nas eleições brasileiras, afirmando que isso “o ajudaria muito”. Segundo o presidente, não há temor desse cenário, embora classifique qualquer ingerência estrangeira como violação da soberania. Lula citou ruídos na relação bilateral e criticou quem busca apoio político da Casa Branca.
A prova evidente de que o confronto com os Estados Unidos tem impacto positivo para a popularidade de Lula está no segundo semestre de 2025. Naquele período, barreiras comerciais contra o Brasil anunciadas pela Casa Branca e outras sanções deram melhora temporária à imagem de petista, revertendo a curva de desaprovação e pondo a oposição na defensiva.
Pesquisas de opinião realizadas logo após o tarifaço imposto por Trump indicaram que a reação de Lula ajudou a conter a sua queda de popularidade e até promover recuperação.
Levantamentos da Genial/Quaest apontaram avanço da popularidade do presidente de 40% em maio para 43% em julho e 46% em agosto, enquanto a desaprovação recuou de patamares mais elevados para 51%. No mesmo período, a AtlasIntel registrou um pico mais abrupto: no fim de julho, a aprovação chegou a 50,2%, superando numericamente a desaprovação (49,7%) pela primeira vez no ano, antes de recuar em agosto para 47,9%.
A Quaest realizou entrevistas presenciais com 2.000 eleitores, margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%, captando melhora consistente ao longo dos dois meses. A AtlasIntel utilizou recrutamento digital aleatório, com amostra de 7.334 respondentes em julho, margem de erro de um ponto e igual nível de confiança, o que favorece a detecção de variações mais rápidas de opinião.
Para o cientista político Márcio Coimbra, Trump funciona como “cabo eleitoral involuntário” de Lula, reeditando a polarização em escala global.
Já o professor Daniel Afonso Silva observa que Lula atua na lógica de “morde e assopra”, tentando extrair ganhos de qualquer movimento de Trump. Ainda assim, ressalta que crises internas — como os casos do INSS e do Banco Master — permanecem como variáveis bem mais sensíveis e ameaçadoras para o plano de reeleição.
Após guerra do Irã, Lula disparou críticas a Trump dentro e fora do país
A relação entre Lula e Trump deteriorou-se rapidamente após breve ensaio de aproximação. Em poucas semanas, episódios diplomáticos e políticos enterraram o diálogo, com o petista elevando o tom contra o americano e acusando-o de agir com ameaças e desprezo ao multilateralismo.
Lula se aproveitou de uma crise sofrida por Trump, que entrou em choque com o papa Leão XIV em abril. Após o papa pedir paz no Irã, Trump disse que ele é terrível em política externa. As rusgas entre os dois continuaram e levaram a um afastamento momentâneo de aliados de Trump, como a primeira ministra italiana Giorgia Meloni e Nigel Farage, do partido Reform UK da Grã-Bretanha.
“Estive com ele [papa Leão XIV] e saí muito bem-impressionado. [Quero] ser solidário a ele, porque está correta a crítica que ele fez ao presidente Trump. Ninguém precisa ter medo de ninguém”, disse Lula em entrevista a órgãos de imprensa alinhados à esquerda.
Lula intensificou críticas em viagens e entrevistas, defendendo que “líderes não devem governar pelo medo” e reagindo ao que chamou de “ingerência dos EUA”.
Nas últimas semanas, Lula elevou o tom em viagens à Colômbia, Espanha, Portugal e Alemanha, com críticas diretas e reiteradas a Trump.
A tensão cresceu com o caso da expulsão de delegado brasileiro, levando o governo a adotar reciprocidade e endurecer o discurso, mesmo defendendo os canais diplomáticos.
Internamente, o presidente também reforçou a narrativa ao elogiar a atuação da Polícia Federal (PF) na tentativa de forçar a deportação do ex-deputado Alexandre Ramagem. O presidente expôs um cenário de atrito bilateral crescente com Washington em meio à disputa eleitoral no país, comparável à ditadura da Venezuela.
Conflito reforçado sepulta perspectiva de novo encontro entre presidentes
A eventual reunião entre Lula e Trump em Washington, que chegou a ser cogitada para breve, vem sendo empurrada para o segundo semestre, se ainda ocorrer. O adiamento preserva o conflito em estado latente — condição ideal para exploração política ao longo da pré-campanha. Ao tensionar a relação com Washington, Lula busca associar Trump à direita brasileira, sobretudo Flávio.
A estratégia simplifica o embate eleitoral, reforçando a narrativa de confronto entre democracia e “ameaça autoritária”. O movimento também dialoga com fatores externos. Desde o início da guerra dos EUA com o Irã, Lula acompanha o desgaste de Trump junto aos públicos americano e internacional e tenta incorporar esse sentimento à sua retórica.
Lula percebeu, logo após o início do conflito envolvendo EUA e Israel contra o Irã que a rejeição ao governo Trump avançou, atingindo o menor nível de aprovação popular desde sua posse.
Pesquisas de abril de 2026 indicam que a aprovação do presidente Donald Trump nos EUA atingiu seu nível mais baixo no segundo mandato, situando-se entre 36% e 37% em levantamentos recentes. A pesquisa Reuters/Ipsos, realizada online com 4.557 adultos, apontou 36% de aprovação e 62% de desaprovação, impulsionada pela guerra com o Irã e custos elevados.
Críticos atribuem a derrota nas eleições do primeiro-ministro húngaro Viktor Orban não só à sua proximidade com o ditador russo Vladimir Putin, mas também ao pedido de apoio do aliado Trump.
Em discursos, Flávio Bolsonaro tem frisado que a solução para os problemas do Brasil está nas mãos do brasileiro, visando afastar qualquer insinuação de pedido de intervenção.
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Fonte: Gazeta Política


