Duas produções mineiras e uma dramaturga de Belo Horizonte estão entre os vencedores da 36ª edição do Prêmio Shell de Teatro, realizada na noite de quarta-feira (18/3), no Teatro Paulo Autran, no Sesc Pinheiros, em São Paulo. O espetáculo “(Um) Ensaio sobre a Cegueira”, do Grupo Galpão, recebeu o prêmio de direção para Rodrigo Portella, enquanto “Velocidade”, do grupo Quatroloscinco, foi reconhecido na categoria iluminação, assinada por Marina Arthuzzi. A dramaturga belo-horizontina Silvia Gomez venceu na categoria dramaturgia, por “Lady Tempestade”.
A montagem “(Um) Ensaio sobre a Cegueira”, inspirada no romance de José Saramago, marca um encontro antigo entre Portella e o Grupo Galpão. Idealizado pelo diretor há cerca de 25 anos, o espetáculo explora diferentes camadas narrativas, com os atores alternando entre personagens e narradores. “É inegável o caráter ensaístico do ‘Ensaio Sobre a Cegueira’. Em muitos momentos, não se sabe exatamente quem está falando, se é o autor, o narrador ou o personagem, porque não há pontuação convencional, como travessões. Essa indefinição entre vozes faz parte da proposta. Para mim, esse aspecto deveria estar presente na encenação”, apontou o diretor em uma entrevista à época da estreia, no ano passado.
A encenação usa poucos elementos materiais e integra o público à cena, com uma proposta interativa que faz sentido para a montagem – no palco, parte do público tem a experiência de viver pessoas afetadas pela doença misteriosa que deixa a população cega, de maneira que o desconcerto dessas pessoas é bastante apropriado para o papel que desenvolvem: a desorientação, afinal, é esperada naquele contexto. Em janeiro, “(Um) Ensaio sobre a Cegueira” havia vencido outra importante premiação das artes cênicas, o Prêmio da Associação Paulista de Críticos da Arte (APCA) na categoria Espetáculo.
Além do trabalho com o Galpão, Portella também esteve entre os premiados da noite com outra montagem: “O Motociclista no Globo da Morte”, que rendeu a Eduardo Moscovis o troféu de melhor ator pelo júri do Rio de Janeiro – este foi o seu primeiro Prêmio Shell em 37 anos de carreira. O monólogo acompanha um matemático cuja trajetória é atravessada por um episódio de violência, em uma encenação centrada na atuação.
Já o espetáculo “Velocidade”, décima montagem do grupo Quatroloscinco, teve sua iluminação premiada pelo júri carioca. Concebida por Marina Arthuzzi, a luz integra a estrutura dramatúrgica da obra, construída em torno de reflexões sobre o tempo – e a nossa relação com ele. Em diferentes momentos, o desenho de luz atua como elemento narrativo, acompanhando as variações entre aceleração e pausa que organizam a encenação.
Por vezes, o jogo de luzes funciona quase como um personagem ou até como a própria personificação do tempo. No desfecho, por exemplo, o espaço é tomado em um fluxo quase lisérgico, condensando visualmente, entre pausas e vertigens – como a visão que se tem de dentro de um globo da morte –, o debate que percorre toda a encenação. Na última sexta (13/3), em sessão lotada, a peça voltou a ser apresentada em Belo Horizonte, onde estreou no ano passado, após circular por quatro estados brasileiros.

Na categoria dramaturgia do júri de São Paulo, Silvia Gomez foi premiada por “Lady Tempestade”, solo interpretado por Andrea Beltrão e dirigido por Yara de Novaes, que retrata a vida da advogada Mércia Albuquerque (1934-2003), conhecida por defender direitos humanos durante a ditadura militar. A montagem reflete sobre os impactos da repressão e a busca por justiça. Nascida em Belo Horizonte, a autora da dramaturgia tem trajetória no teatro e no audiovisual, com textos encenados no Brasil e no exterior e reconhecimentos anteriores como os prêmios APCA e Aplauso Brasil.
A cerimônia contou ainda com homenagens à atriz e cantora Zezé Motta, que relembrou momentos de sua trajetória no teatro, iniciada na década de 1960. Ao todo, mais de 70 profissionais e coletivos foram indicados nesta edição, distribuídos em cerca de 40 espetáculos avaliados pelos júris de São Paulo e do Rio de Janeiro.
Veja a lista completa de premiados
Vencedores pelo júri de São Paulo
- Dramaturgia. Silvia Gomez por “Lady Tempestade”
- Direção. Rodrigo Portella por “(Um) Ensaio Sobre a Cegueira”
- Ator. Renato Livera por “Deserto”
- Atriz. Sirlea Aleixo por “Furacão”
- Cenário. Luh Maza por “Carne Viva”
- Figurino. Eder Lopes por “Pai Contra Mãe ou Você Está Me Ouvindo?”
- Iluminação. Wagner Antônio e Dimitri Luppi por “Filoctetes em Lemnos”
- Música. Clara Potiguara por “Tybyra – Uma Tragédia Indígena Brasileira”
- Energia que Vem da Gente. Leda Maria Martins – pesquisa e orientação artística
Vencedores pelo júri do Rio de Janeiro
- Dramaturgia. Mauricio Lima e Tainah Longras por “Vinte”
- Direção. Camila Bauer por “Instinto”
- Ator. Eduardo Moscovis por “O Motociclista no Globo da Morte”
- Atriz. Larissa Luz por “Torto Arado – O Musical”
- Cenário. Cachalote Mattos por “À Vinha d’Alhos”
- Figurino. Ananda Almeida e Raphael Elias por “Negra Palavra – Poesia do Samba”
- Iluminação. Marina Arthuzzi por “Velocidade”
- Música. Muato por “Vinte”
- Energia que Vem da Gente. Turma Ok – trajetória de mais de 60 anos
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