Historicamente, sempre que os Estados Unidos entram diretamente em um conflito armado, o mercado financeiro internacional passa a operar sob maior tensão. O que ocorre, na prática, é uma reprecificação de risco, e as bolsas tendem a sentir primeiro, com maior volatilidade e pressão negativa nos principais índices globais. É um movimento clássico de aversão ao risco que acontece muito nesses casos.
A avaliação é de Cesar Queiroz, especialista do mercado financeiro e CEO da Queiroz Investimentos e Participações. Para ele, esta segunda-feira (02/03) deve ser marcada por incertezas e precauções dos investidores. “Nesse ambiente, entendo que o dólar tende a se fortalecer. Mesmo que a moeda americana estivesse em uma dinâmica recente de desvalorização, quando temos um cenário de instabilidade global, essa trajetória costuma se inverter. Nestes casos, o investidor busca proteção e o dólar, claro, continua sendo um dos principais refúgios em momentos de tensão”, disse. Nesse raciocínio, o real tende a se desvalorizar.
É o que também aponta o economista da Fundação Ipead, Paulo Casaca. “Quando ocorre um movimento desses, gera-se uma situação de incerteza e os investidores correm para moedas mais fortes, fugindo de moedas de países emergentes. Então, mesmo com os Estados Unidos à frente desse ataque, o dólar deve se fortalecer e, por consequência, o real deve se desvalorizar”, explica.
Queiroz lembra também que os títulos do governo americano passam a ser mais demandados e o capital migra para ativos considerados mais seguros. Para países emergentes, como o Brasil, isso normalmente significa pressão adicional no câmbio e maior sensibilidade dos mercados locais, principalmente se houver uma saída mais intensa de recursos.
“Outro ponto que considero central neste cenário é o petróleo. Sempre que há tensão ou conflito envolvendo o Golfo Pérsico, o mercado imediatamente passa a precificar o risco sobre a cadeia de oferta global. O Estreito de Ormuz é uma das principais rotas de escoamento de petróleo do mundo, por onde transita uma fatia significativa da produção internacional (cerca de 20%). Quando surge qualquer ameaça de bloqueio, restrição ou instabilidade na região, o mercado antecipa um possível gargalo logístico”, prevê o CEO da Queiroz Investimentos e Participações.
“Mesmo que o fechamento não perdure, o simples aumento do risco já é suficiente para gerar preocupação com a redução da oferta. E, em commodities, a expectativa de menor oferta tende a resultar em pressão de alta no preço do barril, com reflexos diretos na inflação e na dinâmica econômica global”, completa. Com a guerra, o preço do petróleo do tipo Brent, referência internacional, avançou 10% somente neste domingo no mercado de balcão, alcançando cerca de US$ 80 por barril.
O ouro também volta ao radar. Em momentos como esse, o investidor mais cauteloso procura ativos que preservem valor, e o ouro tradicionalmente cumpre esse papel de proteção no curto prazo.
“No Brasil, vejo um cenário de maior pressão sobre o mercado acionário, com possibilidade de queda do Ibovespa e reação do dólar no mercado doméstico, especialmente se houver redução na oferta de moeda e saída de capital. O mercado brasileiro fica mais exposto à conjuntura externa em momentos de estresse global”, afirma Queiroz.
De acordo com ele, do ponto de vista de política monetária, isso pode trazer um desafio adicional para o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central. Se o conflito persistir ou escalar, um ambiente com dólar mais forte e petróleo mais caro dificulta a construção de um cenário confortável para iniciar um ciclo de cortes de juros. A decisão da próxima reunião, em 17 e 18 de março, passa a depender ainda mais do comportamento do câmbio e das expectativas.
“Dito isso, reforço que ainda é cedo para conclusões definitivas. Estamos no primeiro momento do conflito e acredito que o mercado, nesta semana, vai dar sinais mais claros sobre a intensidade da reação. Se houver mitigação e retomada das negociações, o impacto pode ser mais contido. Se houver prolongamento, o mercado tende a permanecer mais nervoso, com os preços reagindo diretamente aos desdobramentos do conflito”, conclui o especialista.


