O capítulo que fala do tenor italiano demonstra que Remnick tem ali um personagem que, musicalmente, não é tão familiar ao autor. Aí vem o talento jornalístico, que oferece um texto delicioso sobre um Pavarotti fortemente gripado durante turnê em Cingapura.
Entre as agruras de Pavarotti, o autor insere algumas passagens de sua carreira de sucesso mundial. Aqui está clara a proposta de Remnick. Os perfis não são biografias resumidas dos artistas, algo fácil de encontrar na Wikipedia. Nada didáticos, foram escritos, ao que parece, para levar a um entendimento mais profundo sobre o papel desses artistas e flagrar essas lendas, a maioria já em idade avançada, em momentos de intimidade que ajudam a pintar retratos carinhosos.
A escolha de Leonard Cohen para ser o capítulo de abertura é muito feliz. Talvez seja o melhor representante dessa proposta. Remnick usa como fio condutor do texto uma visita ao cantor e poeta canadense, pouco antes de sua morte, em 2016.
Sempre um entrevistado falador, mesmo debilitado Cohen mantém um discurso articulado, consciente da finitude próxima. E o autor transporta para as páginas instantes incríveis dessa conversa, muitos deles bem distantes da música. “Arrumar a casa, se você puder, é uma das atividades mais reconfortantes que existem, e os benefícios são incalculáveis”, dispara o poeta mais sedutor do rock.
Às vezes, a grande sacada não vem do discurso do entrevistado, mas da observação aguçada do jornalista. Ao narrar uma recepção que a mulher de Paul McCartney organizou nos Estados Unidos, Remnick exibe o ex-Beatle cercado de políticos, governantes, estrelas de Hollywood, esportistas famosos e astros da música e das artes. Enfim, celebridades.
O autor percebe o que aquelas pessoas famosas têm em comum: todas são fãs de Paul McCartney e dos Beatles! Essa observação aparenta ser óbvia e simples, mas propicia a qualquer um sentir um pouco do peso que representa ser um Beatle. Como conviver com a constatação de que ninguém é mais famoso do que você? Como em outros momentos do livro, é um convite à reflexão.
Ao falar de McCartney, é fácil encontrar uma imensa admiração de Remnick pelo personagem. O capítulo sobre Bob Dylan também despeja no leitor a mesma impressão. Mas a coisa muda de figura em relação a Keith Richards, uma estrela roqueira da mesma grandeza dos outros dois.
O autor não gosta dos Stones. O capítulo sobre Richards é o mais burocrático da coletânea. Faltam as boas sacadas que Remnick extraiu para os perfis dos outros. E essa frieza fica mais problemática em se tratando de uma das figuras mais singulares do rock, para dizer o mínimo.
A baixa tolerância com os Stones é explícita, como nesse trecho: “Poucos espetáculos da vida moderna são mais sublimemente ridículos do que os geriátricos Stones tocando os acordes iniciais de Street Fighting Man”.
Ele afirma, com todas as letras, que há mais de 30 anos os Stones não produzem um álbum relevante, comparável a seus melhores trabalhos. É verdade, mas essa afirmação poderia ser direcionada a outros de seus perfilados, como McCartney, Dylan, Bruce Springsteen, Patti Smith ou Aretha Franklin. Por que abrir a artilharia pesada apenas para Jagger e Richards?
Essa implicância pode irritar o leitor fã dos Stones, mas não compromete um livro tão poderoso. E a obra vai muito além do rock. blues, jazz e soul, menos consumidos no Brasil, têm ótimos representantes no guitarrista Buddy Guy, no saxofonista Charlie Parker e nas cantoras Aretha Franklin e Mavis Staples.
O próprio Remnick reconhece que existem entrevistados mais fáceis do que outros. E isso fica claro no último capítulo, com Patti Smith. Conhecida por longas e relevantes entrevistas, sua inclusão no livro não exigiu muito do autor. Ele simplesmente editou perguntas e respostas de duas conversas com a cantora para a The New Yorker. É incrível e fecha em grande estilo um livro singular, instigante e necessário. (Thales de Menezes)
SUSTENTAR A NOTA: PERFIS MUSICAIS
– Avaliação Ótimo
– Preço R$ 109,90 (336 págs.); R$ 44,90 (ebook)
– Autoria David Remnick
– Editora Companhia das Letras
– Tradução: Isa Mara Lando e Mauro Land