Um imponente prédio de vidro no Centro de Belo Horizonte — projetado e vendido aos investidores como o que seria o maior hotel de Minas Gerais — permanece como um símbolo de promessas não cumpridas da Copa do Mundo de 2014. O edifício, que pertence aos negócios de Daniel Vorcaro, principal personagem do que é apontado como o maior escândalo financeiro da história do Brasil, está completamente abandonado. Mais de uma década depois da data prometida para a inauguração do empreendimento que teve investimento anunciado de R$ 200 milhões, ele sequer possui alvará de funcionamento para qualquer tipo de atividade, o que gera dúvidas em representantes do setor hoteleiro sobre a origem de um recurso usado em um prédio sem nenhum tipo de uso ou ocupação.
Localizado na avenida do Contorno, esquina com rua Rio de Janeiro, o imóvel é conhecido como “Beira-Rio”, por estar às margens do Ribeirão Arrudas. Embora a carcaça original date da década de 1990, o projeto de revitalização ganhou força em 2011, com a promessa de transformar a estrutura em um luxuoso hotel. Com investimento anunciado de R$ 200 milhões, a expectativa era de que o empreendimento ficasse pronto no primeiro trimestre de 2013. O empresário Daniel Vorcaro envolveu-se no projeto por meio do grupo Multipar, fundado por seu pai e um dos responsáveis pelo desenvolvimento do negócio. Na época do anúncio, em novembro de 2011, que o hotel teria 405 unidades. Destas, 200 seriam colocadas à venda para investidores por R$ 460 mil cada, enquanto a outra metade permaneceria com o grupo controlador.
O projeto era ambicioso: diárias para apartamentos de luxo (40 m²) estimadas entre R$ 300 e R$ 350 — valores à época —, além de quatro suítes presidenciais e uma suíte real com valores superiores a R$ 7 mil. Na ocasião, Daniel Vorcaro justificou o investimento afirmando que, em Belo Horizonte, “faltava hotel de alto padrão”. Hoje, mais de uma década após o prazo de entrega, a torre de vidro segue vazia, sem nunca ter recebido um único hóspede.
O impacto do projeto inacabado ainda ecoa no mercado hoteleiro da capital mineira. Para uma fonte do setor, que preferiu não se identificar, o episódio prejudicou a credibilidade da cidade junto a investidores. “O impacto na confiança do mercado foi péssimo. Na época, atraíram um grande fundo de investimento, usaram o Roberto Justus como ‘garoto-propaganda’ e contrataram a marca de luxo Golden Tulip. No entanto, ali jamais poderia ser um hotel de luxo, mas os proprietários vendiam o projeto de forma muito agressiva”, afirma com a segurança de quem acompanhou de perto o projeto desde o início.
A investida do Vorcaro no mercado deixou um preço pago também por outros empresários que atuam no setor. “O pior legado foi fazer o mercado desacreditar na hotelaria local. Agora, com investigações como a ‘Compliance Zero’ vindo à tona, segredos de anos começam a ser expostos. No meio empresarial de BH, todos conhecem o histórico da família Vorcaro. Eles dão o cano mesmo”, disse a fonte ligada ao setor e que acompanhou o projeto desde o início. A Operação Compliance Zero citada foi deflagrada pela Polícia Federal e investiga fraudes financeiras bilionárias envolvendo o Banco Master, de Vorcaro. Ele é acusado de liderar um esquema que criou carteiras falsas de crédito para inflar o patrimônio do Master e, em seguida, vender a instituição financeira ao BRB (Banco de Brasília). Em 17 de novembro, ele foi preso quando, segundo a PF, tentava fugir do país. A reportagem questionou à PF sobre a possível utilização do investimento no prédio no esquema ilegal em apuração. Em nota, ela respondeu “não comenta sobre investigações que por ventura possam estar em andamento”.
Imóvel tem débitos, diz PBH
A Prefeitura de Belo Horizonte informou que o empreendimento foi aprovado de acordo com as leis urbanísticas que estavam em vigor na época. Segundo a Secretaria Municipal de Política Urbana, o projeto seguiu regras gerais do município e não faz parte da lei que concedeu incentivos para a construção de hotéis durante a Copa do Mundo de 2014.
De acordo com a prefeitura, embora a obra tenha começado naquele período, a autorização foi concedida com base na legislação comum, e não nas normas criadas especificamente para a Copa.
A PBH informou ainda que o imóvel não tem Alvará de Funcionamento e, portanto, não está autorizado a exercer nenhuma atividade atualmente. O sistema da prefeitura aponta a existência de débitos relacionados à regularização da construção, que são cobrados quando a obra é feita sem licença prévia ou acima do permitido.
Esses débitos estão em cobrança administrativa. A prefeitura informou que houve um acordo de parcelamento no passado, mas que o pagamento não foi concluído. O valor restante segue em processo de cobrança, conforme a legislação municipal. Por regra de sigilo fiscal, a PBH disse que não pode divulgar os valores envolvidos.
O impasse social e o futuro da estrutura
Sem o destino hoteleiro previamente idealizado, a estrutura permanece parada, conforme confirmado pela PBH. O local, que já foi sondado para abrigar um hospital, se encontra sem qualquer utilidade social.
“O solo urbano é caro porque nele há investimento público, como asfaltamento, saneamento, transporte e infraestrutura geral. Não se pode manter um imóvel desse porte vazio, pois isso prejudica o bem público e a própria dinâmica da cidade. O edifício não deveria estar nessas condições”, afirma o urbanista e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Roberto Andrés.
Para o especialista, o Executivo municipal dispõe de mecanismos legais para intervir: “A prefeitura poderia aplicar multas, aumentar o IPTU progressivamente ou até desapropriar o imóvel para transformá-lo em habitação de interesse social. É preciso usar as ferramentas previstas em lei. Se a PBH deseja atrair mais moradores para o Centro, a oportunidade está ali”, defende Andrés.
Já para a fonte do setor hoteleiro, a única saída viável seria converter o projeto em um “hotel econômico”. “O estacionamento é pequeno para um hospital ou para prédios corporativos. A viabilidade técnica hoje aponta apenas para um hotel com diárias inferiores a R$ 200, oferecendo o serviço básico de cama e café da manhã”, explica.
A fonte encerra com duras críticas à impunidade que cerca o caso. “O lamentável é que muitos investidores sofreram prejuízos e o caso pode acabar sem punições. Existe uma percepção de que a família Vorcaro possui uma rede de influência tão vasta que alcança até as instâncias superiores do Judiciário”, finaliza.
A defesa de Daniel Vorcaro e do grupo Multipar foram procuradas pela reportagem. Os retornos são aguardados.


