Os juros da dívida pública superaram a marca de R$ 1 trilhão em 2025 e representaram 7,9% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil. É a primeira vez na história que o pagamento do estado brasileiro para os empréstimos do setor financeiro alcançou a marca do trilhão de reais. Os dados foram divulgados pela Secretaria do Tesouro Nacional (STN) na última semana.
É por meio da dívida pública que o governo federal pega dinheiro emprestado com investidores para pagar as contas, quando a arrecadação com impostos e outras receitas não é suficiente para cobrir todas as despesas. Uma das formas de captar recursos é pela emissão de títulos públicos pelo Tesouro, uma espécie de “empréstimo” com o setor financeiro.
Em outras palavras, quando um investidor compra um título público, ele empresta dinheiro para o governo honrar seus compromissos. Em troca, o governo paga o empréstimo futuramente com o acréscimo de juros. São esses juros que custaram mais de R$ 1 trilhão para a União em 2025.
O valor estratosférico fica distante da discussão sobre a situação fiscal do país que domina o noticiário econômico. O resultado primário do estado brasileiro em 2025, a conta oficial entre o que o governo arrecadou e o que gastou, desconsidera as despesas com os juros da dívida.
As contas públicas dos governos federal, estaduais e municipais apresentaram um déficit de R$ 61,7 bilhões. Algumas dessas despesas foram excluídas da contabilização do arcabouço fiscal. Com isso, o déficit das contas públicas “oficial” caiu para R$ 13 bilhões, o equivalente a 0,1 % do PIB – resultado dentro da banda de tolerância do arcabouço.
Ou seja, o gasto real do setor público para cobrir o déficit nas finanças no ano passado foi muito superior a R$ 61,7 bilhões – as despesas superaram as receitas em R$ 1,06 trilhão e somente os juros da dívida custaram R$ 1,008 trilhão.
Vista de forma isolada, a dimensão dos números soa um bocado assustadora em um país com tantos problemas sociais como o Brasil: o estado brasileiro gastou quase 10% de toda a riqueza produzida no país somente para remunerar o setor financeiro pelos seus empréstimos. O orçamento do Ministério da Saúde, por exemplo, ficou na casa dos R$ 250 bilhões.
Economista e conselheiro de política econômica, Stefan D’Amato aponta que o gasto com os juros da dívida pública reduz o espaço no orçamento para áreas como saúde, educação, infraestrutura, habitação e geração de empregos.
Este custo também encarece o crédito para empresas e famílias, desestimula investimentos, comprimem o consumo e acabam freando o crescimento econômico. “Na prática, isso se traduz em menos obras, menos oportunidades de trabalho e uma economia operando abaixo do seu potencial”, disse.
Para o economista, é necessário mudar a lógica da política econômica. O caminho passa por uma melhor coordenação entre as políticas fiscal, do governo federal, e monetária, do Banco Central (BC), e pela busca de um câmbio mais equilibrado que favoreça a produção nacional.
Além, é claro, de uma redução responsável da taxa básica de juros (Selic), voltada para uma realidade mais condizente com a economia brasileira, baseada em metas de inflação menos rígidas, que considere também o nível de atividade, o emprego e o investimento produtivo.
Boa parte da dívida pública está atrelada à taxa de juros. Segundo estimativa do BC, cada subida de 1% da Selic aumenta a dívida pública em R$ 55 bilhões.
“Uma política monetária mais coordenada com a política fiscal e com uma estratégia de desenvolvimento produtivo, incorporando explicitamente objetivos de crescimento e empregos, cria um ambiente mais favorável ao investimento, fortalece a capacidade produtiva do país e contribui para um ajuste sustentável da dívida, substituindo a lógica de contenção permanente por um projeto consistente de crescimento econômico e inclusão social”, argumenta.
Já para o professor de economia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Mauro Sayar, o custo com os juros da dívida pública é alto para o país por uma falta de sinalização do governo federal de uma política fiscal que planeje uma redução do seu endividamento.
Ao ver a situação das contas públicas, com uma dívida que atualmente corresponde a 78,7% do PIB – o equivalente a R$ 10 trilhões – e a projeção de que ela alcance 83,6% ao final de 2026, o mercado financeiro classifica o financiamento do governo como de risco elevado e, consequentemente, aumenta os juros cobrados para conceder empréstimos.
Se os juros cobrados para financiar os custos do governo diminuem, aponta Sayar, o próprio governo terá uma menor necessidade de absorver recursos que estão na economia. Isso favorece aportes em outras áreas da economia brasileira e cria um ambiente propício para investimentos de longo prazo.
Um investimento que hoje vai para um título público, que promete retorno maior para o investidor, poderia ser destinado a títulos para o financiamento de obras de infraestrutura.
“Se a dívida pública for menor, o governo demandar menos recursos, vai sobrar mais recursos que vamos alocar para outras modalidades para financiar investimentos em projetos produtivos”, explica. “A pressão sob a inflação vai ser menor, e a Selic também vai poder ser menor, o que influencia o financiamento de curto prazo também”, completa.
Foi o que ocorreu no Brasil em três momentos deste século, em três governos diferentes, aponta Sayar. O mercado diminuiu o risco classificado para o estado brasileiro e reduziu os juros da dívida pública após as aprovações da Reforma da Previdência, durante o Governo Bolsonaro (PL), e do Teto de Gastos, do Governo Temer (MDB), e ao ver o desempenho fiscal do primeiro Governo Lula (PT), quando a geração de superávits primários amenizou o chamado “risco Lula” nas contas públicas, temido pelo setor financeiro nas eleições de 2002.
“Enquanto não houver uma política que tenha uma sinalização que a dívida pública caia, o mercado incorpora mais juros na dívida pública. Muita gente olha os juros elevados e falam que a dívida pública está aumentando. Só que os juros estão elevados por causa da trajetória da política fiscal, que não envolve juros”, analisa Sayar.


