Grazi Massafera afirma: “Dona Beja é uma mulher que não pede licença para existir”. Essa característica, segundo a atriz, foi um dos motivos que a fez aceitar o convite para interpretar essa mulher, que viveu em Minas Gerais no século XIX, na nova versão da novela “Dona Beja”, que estreia na segunda-feira, 2 de fevereiro, na HBO Max.
A história volta ao ar 40 anos após a exibição da obra de Wilson Aguiar Filho na extinta TV Manchete, que se tornou um ícone da teledramaturgia brasileira, e trouxe Maitê Proença no papel de Dona Beja. “Falei com a Maitê, ela me recebeu. Fui pedir bênção, né? É minha musa, uma inspiração”, revela Grazi, que brinca: “Fiquei amiga da Beja!”.
Escrita por Daniel Berlinsky e António Barreira, a trama, que terá 40 capítulos, é apresentada não como um remake, mas como uma releitura. Agora, o folhetim aposta em uma abordagem contemporânea para revisitar uma personagem que se consolidou como símbolo de liberdade, transgressão e enfrentamento às convenções sociais. A nova versão vai abordar temas como racismo, machismo, homofobia, transfobia e desigualdade social sem deslocá-los do contexto histórico.
Berlinsky explica que a força da personagem sempre esteve em sua capacidade de romper limites. “A novela original de 1986 que eu assisti quando eu era criança era uma novela de uma mulher à frente do tempo. Isso para mim era mais importante. Isso é que guiava toda a narrativa”, afirma.
Quatro décadas depois, ele destaca, essa condição ganha novas camadas. “A sociedade mudou muito menos do que a gente gostaria, mas a consciência sobre quem somos enquanto sociedade se ampliou”, observa o autor. Para ele, a Beja de agora pode ir mais longe justamente porque carrega esse olhar contemporâneo, capaz de tensionar valores ainda arraigados. “Ela avança e, com ela, arrasta todos os outros personagens”, resume.
A trama tem como ponto de partida a história de Ana Jacinta de São José, mulher que viveu na cidade mineira de Araxá, no século XIX, cuja trajetória foi atravessada por preconceitos e leituras distorcidas. Berlinsky detalha que as informações históricas sobre essa mulher são poucas, e que foram distorcidas ao longo do tempo.
“O que se sabe de verdade sobre ela cabe em meia página. Ela era uma mulher solteira, com duas filhas, que se sustentava sozinha. Só isso já bastava para virar escândalo”, conta ele, citando o material que teve acesso no museu dedicado à Beja, em Araxá. “Nada ali diz que ela era cortesã ou mulher da vida”, afirma. Segundo o autor, a associação com a prostituição nasce do olhar preconceituoso lançado sobre uma mulher que vivia fora das regras.