EconomiaDívidasJaneiro, mês das dívidas? Como se organizar financeiramente sem surtar

Janeiro, mês das dívidas? Como se organizar financeiramente sem surtar

Especialista em finanças esclarece como atitudes e dinheiro costumam se conectar e oferece dicas preciosas para pagar as faturas em aberto e controlar os gastos

Definir janeiro em poucas palavras é fácil: pagamento de contas e impostos. IPTU, IPVA/DPVAT, matrículas e material escolar fazem parte da realidade de muitos brasileiros que, assim que recebem o décimo terceiro, já separam uma “fatia” desse dinheiro para não sofrer tanto no começo do ano seguinte. É também nesse período que cresce a busca por mais organização financeira e controle do orçamento.

Muita gente procura dicas para colocar as finanças em ordem, planejar melhor os gastos e sair do endividamento depois dos excessos do fim de ano. Ao mesmo tempo, aumenta o interesse por investimentos para começar o ano com o pé direito: renda fixa, como Tesouro Direto e CDBs, fundos imobiliários, e, mais recentemente, os chamados criptoativos. Para quem quer mudar a vida e finalmente ficar no azul, isso aparece até nas buscas da internet. Termos como “empréstimo”, “quitar dívidas” e “Serasa” costumam disparar no Google Trends nesta época, refletindo uma procura intensa por soluções para os apertos financeiros que janeiro costuma escancarar.

A fonoaudióloga Josiana Rocha, de 35 anos, conta que já se atrapalhou com as contas, mas hoje tem uma situação estável. “Parei de comprar o supérfluo e consegui colocar meu foco e minha atenção no que era indispensável”, observa. Por outro lado, o advogado Fernando Ribeiro, de 46, afirma que é cada vez mais complicado organizar as finanças. “A conta não fecha porque está tudo muito caro e o nosso salário já não acompanha não é de hoje”, desabafa. A percepção é a mesma da servidora Lívia Custódio, de 42 anos. “Infelizmente, é difícil pedir contenção financeira para a gente que vive equilibrando os pratos, no aperto para dar conta do básico com gastos como escola, saúde e alimentação”, informa.

Limites

Fato é que, para muitos brasileiros, todo ano é a mesma novela. Janeiro mostra o que muitas vezes foi empurrado com a barriga ao longo dos meses: gastos sem controle, falta de planejamento e aquela sensação de que o dinheiro simplesmente evapora. Para o mentor financeiro Rodrigo Schumacher, o susto que muitos experimentam ao abrir a fatura do cartão em janeiro está diretamente relacionado a um comportamento recorrente.

“Muitas vezes o cartão tem limite, mas a pessoa não tem. Esse problema, infelizmente, é cultural na maioria dos brasileiros. O susto gera arrependimento, mas não adianta apenas reclamar do leite derramado, das contas e dos cartões estourados, e repetir o mesmo cenário todos os anos com a promessa de que no próximo tudo será diferente”, aponta. Ele recomenda fazer uma análise detalhada dos gastos de fim de ano, identificando o que é essencial e aquilo que pode ou deve ser descartado.

“É fundamental entender que gastar mais do que se ganha normalmente é um padrão que se repete e traz consequências emocionais. A solução é propor mudanças rápidas e definir orçamentos de gastos para o início do ano, com a necessidade de gastar menos do que se ganha, e, se possível, gerar renda extra para ajustar o orçamento comprometido e priorizar o pagamento das dívidas”, orienta. O especialista, no entanto, não ignora que a realidade política e econômica do país interfere diretamente na vida das pessoas.

“Infelizmente vivemos em um país em que as taxas de juros são muito elevadas. Costumo dizer que existe no Brasil uma agiotagem autorizada, praticada inclusive pelos bancos. Os juros do cartão de crédito são extremamente altos”, critica ele, para quem a pior opção disponível é “pagar o mínimo da fatura”. “Logo em seguida vem o parcelamento do cartão, que infelizmente é uma das práticas mais comuns dos brasileiros e também uma grande armadilha, pois multiplica a dívida e enriquece a instituição financeira em poucos cliques. Muitas vezes os juros ultrapassam 10% ao mês. Mesmo não sendo uma das melhores opções, usar o cheque especial por alguns dias e com a força-tarefa de cobrir esse gasto o quanto antes pode ser uma opção para pagar a dívida do cartão de crédito”, analisa.

Estratégias

De acordo com o profissional, a melhor saída para quem se endivida continua sendo “buscar dinheiro mais barato, se possível com algum parente, para liquidar todo o cartão”. “Caso isso não seja viável, procure um empréstimo consignado, crédito privado ou crédito parcelado no próprio banco, sempre comparando as taxas. Após quitar a dívida, reduza o limite do cartão para um valor compatível com sua capacidade de pagamento. Não aceite aumentos automáticos de limite que incentivem o consumo fora da sua realidade. Use o empréstimo para quitar à vista, e, se possível, antecipe valores futuros para enquadrar o orçamento”, ensina.

Schumacher deixa claro que “o ideal é sempre terminar o ano com reservas construídas, contas em dia e até mesmo com a condição de pagar as despesas de final e início de ano quase integralmente à vista”. Porém, se não for possível, priorizar o pagamento do cartão de crédito e do cheque especial, “que são dívidas extremamente onerosas, com taxas muito elevadas”, continua sendo a dica mais importante. “IPVA e IPTU podem ser pagos em outro momento, pois as taxas de juros por atraso são significativamente menores”, ressalta.

Gastos invisíveis

Schumacher pondera que os chamados “gastos invisíveis ou fantasmas” acontecem quase todos os dias e são, em sua maioria, “desnecessários ou de luxo”. “Eles devem ser reduzidos ao máximo para enquadrar o orçamento. Comece identificando serviços que não são utilizados, como streaming, planos de telefonia que podem ser reduzidos ou cancelados, e faça um verdadeiro pente fino nos gastos. Mesmo nos gastos necessários, é possível buscar oportunidades de redução, comparando ofertas de telefonia, internet e plano de saúde, entre outras”, garante.

Com o pressuposto de transformar a crise em criatividade, ele sustenta que o início do ano é um momento propício para comparar preços e trocar de fornecedor, caso o serviço esteja acima da média de mercado. “Entenda que uma redução, por exemplo, de R$50 em um plano de internet, gera uma despesa anual de R$600. Imagina se você conseguir vários outros descontos assim?”, propõe.

O especialista destaca que as conhecidas reservas de emergência servem exatamente para o momento em que as contas não fecham. “Não há investimentos de baixo risco que ofereçam rentabilidades sequer próximas às altíssimas taxas de juros do cartão de crédito, cheque especial ou outros empréstimos. Todos os brasileiros deveriam ter reservas, mas, caso seja necessário, faz sentido utilizá-las para quitar essas dívidas extremamente caras. Ainda assim, evite abrir mão de todas as reservas, e, se assim fizer, comece a refazê-las o quanto antes”, adverte.

Mudança de atitude

Quem não tem conseguido ajustar as contas do dia a dia deve mudar de atitude. Essa é a estratégia primordial apontada pelo especialista em finanças Rodrigo Schumacher. “Parar de cavar o buraco deve ser a primeira decisão de quem se meteu nele. A ideia de que é normal estar endividado e que todo mundo está assim não procede. O endividamento aumenta os problemas, gera privações e pode expor a pessoa a situações de constrangimento. Ter dívidas apenas por ser comum está longe de ser uma regra ou uma normalidade. Disciplina e mudança de comportamento são fundamentais”, reforça.

Nesse sentido, ele salienta que criar o hábito de investir é essencial para uma vida próspera. “Quem não tem investimentos com certeza ficará vulnerável ao endividamento, pois imprevistos acontecem com frequência. Com o hábito de investir, diversas conquistas se tornam possíveis e os compromissos financeiros passam a ser cumpridos com mais tranquilidade”, afiança. Schumacher defende que a organização financeira está relacionada tanto a números quanto ao comportamento. “O dinheiro é principalmente emocional. Controlar as emoções no consumo é desafiador, mas o autoconhecimento torna esse processo menos complicado. Perguntar a si mesmo se precisa, se pode e se quer é fundamental para um consumo consciente”, arremata.

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