EconomiaBrinquedosCresce interesse em brinquedos artesanais para evitar excesso de telas entre crianças

Cresce interesse em brinquedos artesanais para evitar excesso de telas entre crianças

Artesãos comemoram aumento na demanda em momento em que o mundo repensa contato de crianças com equipamentos eletrônicos

Em um mundo bastante digital, e que já é assim há muito tempo, a diversão das crianças tem ficado nas mãos dos celulares e videogames enquanto brinquedos e brincadeiras são deixados de lado. Porém, por diferentes caminhos, mães, pais, escolas, entre outras pessoas que vivem o dia a dia dos pequenos e das pequenas, têm buscado brinquedos artesanais para oferecer às crianças a oportunidade de uma atividade livre do universo das telas.

E engana-se quem acha que este não é um mercado com uma boa demanda a ser explorada. A jovem Lavínia Resende, 21, estava otimista com seu estande da sua loja, Lavínia Amigurumi, na 36ª Feira Nacional de Artesanato (FNA), realizada no Expominas, em Belo Horizonte. Ela abriu seu negócio de brinquedos de pano há cerca de seis anos para, como ela mesmo disse, “levar este momento em off (desligado, em inglês)” ao público infantil.

Apesar do início ter tido alguma dificuldade para explicar à clientela sobre seus produtos, com o passar do tempo ela desenvolveu a habilidade das vendas. Ao ver a busca de pais e mães para deixarem seus filhos e filhas fora das telas, ela apostou nos seus brinquedos de enchimento similar a um ursinho de pelúcia e praticamente sem partes metálicas, fora detalhes de decoração, que permitem a criança brincar, levar o brinquedo para outros lugares e depois lavar com água e sabão.

Ela apontou que nos dois últimos anos as vendas aumentaram cerca de 50%. “Eu sinto que depois da pandemia os pais tiveram essa necessidade de estar buscando algo que fosse além, porque as crianças ficaram muito tempo em casa, muito tempo parado. Os pais perceberam como foi prejudicial esse tempo tendo acesso só a telefone e certos brinquedos. Senti muito esse aumento de demanda, principalmente de brinquedos”, contou.

Há muitos anos na convivência com crianças, o arte-educador e também músico Marcos Rhossar decidiu produzir instrumentos musicais para levar às salas de aulas há mais de dez anos. Com seus instrumentos com tamanho adequado para seus pequenos alunos, logo apareceram convites para ele desenvolver kits musicais para escolas da primeira infância.

Os convites para a produção de instrumentos para crianças da Omkara Percussão, de Rhossar, evoluíram para os brinquedos artesanais, como carrinhos e bonecos, segmento que ele se dedica nos últimos quatro anos. E o educador notou que que, se antes os pais e mães entravam em contato com a direção das escolas para ir atrás de seus brinquedos, que viam nas apresentações culturais e feiras, agora muitos o procuram diretamente para comprar um presente de aniversário.

“Uma diretora me comprou os instrumentos de percussão e me fez um desafio: ‘eu preciso de carrinhos, de caminhãozinhos assim, assado, para a minha escola. Você faz?’ – eu aceitei o desafio e fiz. Nessa aí já vendi mais de 40 carrinhos. É uma demanda real que vem acontecendo”, comentou.

Os presentes de brinquedos artesanais são vistos como essenciais para as crianças pequenas, pontuou o arte-educador, por serem brinquedos naturais, que podem ser utilizados em brincadeiras na terra, no barro, na água, espaços que a criançada se diverte livremente. A próxima iniciativa do artesão é produzir brinquedos sonoros.

“De um tempo para cá, tivemos também um fenômeno social e educacional, que é o seguinte, uma rapaziada pensando na pedagogia, não mais essa pedagogia ligada às escolas, mas ligada pela pedagogia ao livre brincar. Aí esse território do livre brincar você tem que ter brinquedos”, explicou o educador.

O uso excessivo de telas por crianças se tornou uma preocupação mundial – tanto que a Austrália chegou a proibir o acesso a redes sociais entre menores de 16 anos. Uma pesquisa publicada pelo Projeto Brief, a partir de entrevistas com 1.800 pais e mães brasileiros, aponta um desequilíbrio entre a quantidade de jovens que usam o celular e a capacidade que os país têm de proteger os filhos no ambiente digital. Entre as crianças de até 12 anos, 47% já têm celular próprio, mas apenas 37% dos pais dizem saber usar ferramentas de controle parental. Ainda segundo o estudo, 45% já ouviram falar das ferramentas de controle parental, mas não as utilizam. Além disso, 18% disseram nunca ter ouvido falar desse termo.

Livre brincar e aprendizagem

Para além do livre brincar, os brinquedos artesanais também são uma excelente oportunidades para o desenvolver habilidades e aprendizado. Há quatro décadas, o artesão Raul Lisboa deixou o emprego no banco para se dedicar à produção de brinquedos na Estratégia Jogos Inteligentes, voltados para o desenvolvimento cognitivo. Além do popular quebra-cabeça, Lisboa também produz brinquedos com jogos autorais.

Suas criações são para trabalhar funções executivas, como atenção, concentração, coordenação motora, visão espacial e memória, por exemplo. Até por isso, boa parte dos seus clientes são psicólogos, pedagogos e psicopedagogos, que utilizam seus jogos para crianças e até idosos que já apresentam algumas dificuldades cognitivas.

Com uma clientela mais de nicho, Lisboa construiu boa parte do seu mercado em congressos e cursos dessas áreas. Até por isso, ele lamenta a queda nas vendas no período pós-pandemia, já que muitos congressos e cursos passaram a ser on-line durante o período pandêmico e assim permaneceram depois. Até mesmo nos congressos que ainda são presenciais o público presente diminuiu.

A venda pela internet ainda continua da mesma forma, afirmou, território que ele ainda dará mais atenção. Assim, ele aposta na participação de feiras, como a FNA, para poder ganhar visibilidade, além dos próprios psicólogos, pedagogos e psicopedagogos que, além de comprarem seus brinquedos, sempre o retornam com a indicação de novos clientes.

“Tem pais que que que me procura por indicação, que é psicopedagogo, que a criança foi, jogou lá com ela, o menino gostou muito, ou esse profissional achou que a criança está desenvolvendo com o jogo”, apontou.

Pais e filhos

O artesão Robert Moura, 45, está há 14 anos no ramo com a Brinquedos Presotti e estava junto de outros vendedores de brinquedos artesanais na 36ª FNA. Ele aprendeu o ofício com seu pai, já falecido, que construía seus brinquedos. Primeiramente começou no acabamento e, com a evolução do negócio, passou também para a produção dos carrinhos, campos de futebol e bonecos, entre outros. A herança paterna hoje garante o sustento da família e ainda gera alguns brinquedos para sua filha, feitos por ele mesmo.

“A procura não só de pais não, as crianças também, quando passa na feira e vê, já chama atenção. É coisa nova, porque às vezes a criança só tá no celular, ou no videogame, ou na televisão, não tem tanto contato com esse tipo de brinquedo. Então, essa é a demanda. É manter uma coisa que agrada a todos, mas também que agrega, porque é pedagógico”, disse.

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