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Assessores de Sóstenes e Jordy movimentaram R$ 27 milhões sem identificar origem, aponta PF

Investigação aponta que os deputados federais do PL teriam desviado recursos da cota parlamentar em “benefício próprio”, com ajuda de servidores comissionados

BRASÍLIA – Quatro assessores dos deputados federais Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) e Carlos Jordy (PL-RJ) movimentaram R$ 27 milhões, em 2023 e 2024, sem identificar a origem do dinheiro. A informação consta em relatório que levou a operação deflagrada nesta sexta-feira (19/12) e que teve como alvos os dois parlamentares.

A PF diz que ambos integram uma organização criminosa, com divisão clara de tarefas, destinada a ocultar os valores desviados. Investigação aponta que os deputados teriam desviado recursos da cota parlamentar em “benefício próprio”, com ajuda de servidores comissionados – que ocupam cargos sem concurso – e uso de empresas de fachada.

Na decisão que autorizou a operação, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), diz que o pedido da PF está amparado em relatórios de inteligência financeira e em conversas extraídas de celulares apreendidos no curso da investigação. A decisão diz que esses elementos revelam “indícios robustos” da prática de crimes e demonstram a necessidade de medidas cautelares, como a quebra de sigilo bancário.

A ação desta sexta-feira é um desdobramento da Operação Rent a Car, deflagrada em dezembro de 2024, que apurou crimes de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Na ocasião, os alvos foram assessores dos dois parlamentares, e a PF apreendeu celulares. O conteúdo extraído desses aparelhos contribuiu para o avanço das investigações que resultaram na nova fase, a Operação Galho Fraco.

Na decisão, Dino cita que a PF apontou indícios de uso irregular da cota parlamentar para o pagamento de “despesas inexistentes ou incompatíveis com a atividade legislativa”. Trechos de conversas obtidas via WhatsApp sugeriram a realização de pagamentos “por fora” a prestadores de serviço. O esquema envolveria pagamentos de aluguéis de carros que nunca foram usados, com notas fiscais falsas para justificar serviço não realizado.

Fracionamento de saques e depósitos dificultariam investigação

Ainda, conforme a decisão de Dino, há a suspeita de lavagem de dinheiro por meio da prática conhecida como “smurfing”, caracterizada pelo fracionamento de saques e depósitos em valores inferiores a R$ 10 mil, para dificultar a identificação das operações pelos órgãos de controle.

Para Dino, há elementos indiciários de que Sóstenes e Jordy desviaram recursos da cota parlamentar por intermédio de servidores comissionados, especialmente Adailton Oliveira dos Santos e Itamar de Souza Santana. Para viabilizar o esquema, teriam sido usadas empresas como a Harue Locação de Veículos e a Amazon Serviços e Construções.

“Constatou-se a movimentação total de R$ 11.491.410,77 em créditos e R$ 11.486.754,58 em débitos, com maior concentração nos anos de 2023 e 2024. Parte expressiva dessas transações permanece sem identificação de origem ou destino, especialmente aquelas classificadas como ‘pagamentos diversos’ e ‘lançamento avisado’’, diz relatório da PF.

“Verificou-se, ainda, que R$ 2.789.526,93 foram remetidos a beneficiários não identificados, sob a rubrica ‘NOME NÃO IDENTIFICADO’. O conjunto dessas movimentações – marcado por alto volume, repasses ágeis e utilização recorrente de meios eletrônicos de pagamento – mostra-se incompatível com a capacidade econômica declarada do titular, considerando-se seu vínculo funcional e contexto familiar”, obervaram os investigadores.

Flávio Dino ressaltou que, diante dos “elevados montantes” movimentados pelos assessores parlamentares, a investigação não descarta a existência de outros vínculos e envolvidos ainda não identificados, o que seria identificado em novas fases de apuração.

Antes de autorizar a operação, Dino enviou os pedidos da PF à Procuradoria-Geral da República (PGR), que analisou os indícios e concluiu que eram suficientes para as ordens de busca e apreensão contra os parlamentares, além de outras medidas, como as quebras de sigilos.

Nesta sexta, policiais federais cumpriram sete mandados de busca e apreensão no Distrito Federal e no estado do Rio de Janeiro, no âmbito da Operação Galho Fraco.

Agentes encontraram R$ 430 mil casa de Sóstenes

Policiais federais apreenderam R$ 430 mil na casa de Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara, durante operação deflagrada nesta sexta-feira. As notas de R$ 100 estavam em um saco de plástico preto, dentro de um armário do apartamento onde o deputado mora, em Brasília.

À época da primeira fase da investigação, Sóstenes Cavalcante afirmou que não havia qualquer irregularidade nas despesas de seu gabinete. Até a última atualização desta reportagem, o deputado não havia se manifestado sobre a operação deflagrada nesta sexta-feira.

Já Carlos Jordy usou as redes sociais para comentar a ação policial. Em vídeo publicado no Instagram, ele confirmou que recebeu agentes federais em casa e afirmou ser alvo de perseguição.

“Hoje, no aniversário da minha filha, a PF fez busca e apreensão novamente na minha casa por determinação de Flávio Dino. Perseguição implacável”, disse. Na gravação, o parlamentar aparece vestindo uma camiseta com o nome e fotos da filha.

Além do salário, cada deputado e senador recebe esse tipo de recurso para cobrir despesas ligadas diretamente ao exercício do mandato, como aluguéis de veículos, passagens aéreas, hospedagens em hotéis e alimentação. Os valores mensais variam entre R$ 30 mil e R$ 45 mil, de acordo com o estado de origem do parlamentar.

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