A fotógrafa Renata Garbocci foi vítima de um golpe financeiro e teve um prejuízo de mais de R$4 mil ao tentar comprar uma câmera fotográfica pela internet. Ela conta que o site parecia legítimo — com CNPJ, selos de segurança e avaliações positivas, mas era uma página clonada. “Fiz tudo certo, mas acabei caindo no golpe”, lamenta. O prejuízo, diz ela, foi não só financeiro, mas também emocional: “Fiquei com medo de comprar online de novo e com a sensação de ter sido ingênua.” Renata endossa a estatística de que um em cada quatro brasileiros sofreu um golpe pela internet nos últimos 12 meses, de acordo com uma pesquisa encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Em Belo Horizonte, de acordo com um estudo da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL/BH), o valor médio perdido pelos moradores em golpes chega a R$ 1.638,24. “O que mais chama atenção é que o prejuízo financeiro é apenas parte do problema. As vítimas enfrentam cobranças indevidas, cancelamento de cartões e danos psicológicos”, destaca Marcelo de Souza e Silva, presidente da entidade.
A pesquisa também mostra que 84% dos consumidores já desistiram de uma compra online por desconfiarem de fraude. Para o presidente da CDL, o efeito é nocivo para o comércio local. “Os comerciantes sérios, que investem no digital, acabam penalizados pela falta de confiança.”
Quem sente isso, na prática, é Wellington Wagner, proprietário da Cabana Zé da Lapinha, uma pousada em Lagoa Santa, na região metropolitana de BH. Golpistas criaram uma conta falsa nas redes sociais com o mesmo nome da empresa dele. Usando perfis clonados, os golpistas criaram reservas falsas e receberam os valores das hospedagens. A fraude fez com que vítimas fossem até a pousada acreditando ter uma reserva verdadeira — algumas delas, inclusive, tentaram entrar no local à força. “É muito triste ver o nome da nossa cabana associado a algo tão negativo. Sempre alertamos: nunca faça Pix para CPF. Peça o CNPJ e pesquise a empresa antes de fechar qualquer compra”, aconselha.
O problema não é isolado apenas a alguns Estados e envolve também facções criminosas. Uma pesquisa do Datafolha, encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revela que um em cada quatro brasileiros sofreu um golpe pela internet nos últimos 12 meses, o que representa cerca de 56 milhões de vítimas. O prejuízo total chega a R$ 111,9 bilhões. O levantamento aponta ainda que facções criminosas como o PCC e o Comando Vermelho também operam fraudes digitais para lavar dinheiro e ampliar lucros.
A advogada Viviane Belfort, especialista em direito digital, explica que golpes como sites clonados e perfis falsos configuram crimes como estelionato, falsidade ideológica e furto mediante fraude eletrônica. “Os criminosos usam identidades falsas, contas de laranjas, hospedagem em servidores estrangeiros e criptomoedas. Isso dificulta o rastreamento e a responsabilização”, explica.
A especialista ressalta que, mesmo com as qualificações do crime e até mesmo com o boletim de ocorrência, muitos casos acabam sem punição. “O Ministério Público só pode prosseguir se a vítima formalizar representação. Como muitos desistem, os casos são arquivados e a impunidade prevalece”, afirma.
Para evitar cair em golpes, a delegada Cristiana Angeline, da Delegacia Especializada em Crimes Cibernéticos, orienta atenção aos detalhes. “Erros sutis no endereço do site, ausência do cadeado de segurança, formas de pagamento restritas e preços muito abaixo do mercado são sinais de alerta. Também é preciso desconfiar de perfis comerciais com comentários bloqueados ou sem CNPJ”, alerta.
Para quem já caiu em um golpe, a delegada reforça: “O primeiro passo é registrar boletim de ocorrência e reunir todos os comprovantes. Quanto mais rápido for o registro, maiores as chances de bloquear a transação e identificar os responsáveis.”
O que tradicionalmente, os golpes digitais eram associados a pessoas idosas, segundo a delegada, o perfil das vítimas mudou. “Se antes os golpes atingiam majoritariamente idosos, hoje qualquer pessoa pode ser vítima. As fraudes ficaram sofisticadas e exploram gatilhos psicológicos, como urgência e confiança em perfis conhecidos.”
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