Número de pessoas obrigadas a deixar suas casas devido ao conflito é o maior da atualidade
Esta é uma “guerra esquecida” pela comunidade internacional, que não emprega os mesmos esforços adotados nos conflitos em Gaza e na Ucrânia. Em abril deste ano, quando a guerra completou um ano, doadores internacionais levantaram US$ 2 bilhões para ajudar os sudaneses. Comparativamente, só os EUA enviaram o equivalente a US$ 6,5 bilhões a Israel em esforços de guerra. “Frequentemente, refere-se ao Sudão como uma crise esquecida. Mas a questão é quantas pessoas sequer sabiam sobre ela para poder esquecê-la”, pontuou o chefe do Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha, na sigla em inglês) da ONU, Justin Brady, em entrevista à agências de notícias da organização.
A guerra começou em abril de 2023, movida pela divergência entre o líder da Forças Armadas Sudanesas, Abdel Fattah al-Burhan, e o comandante das Forças de Apoio Rápido (RSF, na siga em inglês) paramilitares, Mohamed Hamdan Dagalo, conhecido como Hemedti. Eles foram aliados como representantes de um movimento que depôs o presidente Omar al-Bashir, cujo regime durou 30 anos. Desde então, o país, que já vivia uma crise humanitária devido à instabilidade econômica e política, mergulhou em um caos mais profundo.
O conflito também estraçalha a vida de mulheres. Nos primeiros meses da guerra, registrou-se uma onda de estupros em massa no país, que agora resultaram em partos forçados em que as mães não têm forças sequer para amamentar os bebês. Em entrevista à agência de notícias da ONU, a chefe de operações de campo da organização no Sudão, Jill Lawler, contou a história de uma criança “sortuda o bastante” que conseguiu tratamento médico, diferentemente da maioria. “Uma mãe não conseguiu prover leite ao seu filho de três meses, então recorreu a leite de cabra, que levou a um caso de diarreia” — o quadro, quando sem tratamento adequado, é a terceira causa de morte de crianças abaixo de cinco anos no mundo.
Como ocorre na Faixa de Gaza e na Ucrânia, a ajuda humanitária encontra dificuldade para entrar no país. Antes mesmo do conflito, o histórico econômico e político instável já levava quase 16 milhões de pessoas a necessitar de ajuda, e a guerra elevou a situação a níveis extremos, especialmente na capital do Sudão, Cartum, que até estava relativamente livre da violência dos conflitos.
No centro da guerra do Sudão, está uma disputa por poder de forças ex-aliadas. Em 2019, militares deram um golpe de estado para depor o presidente autoritário Omar al-Bashir, após fortes manifestações. Dois anos depois, o então primeiro-ministro interino também foi derrubado e, desde então, o Sudão é governado por uma junta de generais.
Em meio a essa instabilidade, dois dos principais generais da junta, que até então lideravam em aliança, passaram a divergir sobre os rumos do país e a disputar o controle do governo — o líder da Forças Armadas Sudanesas, Abdel Fattah al-Burhan, e o comandante das Forças de Apoio Rápido (RSF, na siga em inglês) paramilitares, Mohamed Hamdan Dagalo, ou Hemedti.
Um dos maiores pontos de discordância entre eles é a inclusão das RSF nas forças militares oficiais do país, o que Hemedti apoia. Agora, justamente essas duas forças aterrorizam os sudaneses em uma escalada de violência.
Hoje, novamente há indícios de um genocídio na região, segundo a organização pelos direitos humanos Human Rights Watch (HRW). A “BBC” internacional ouviu vítimas do conflito que afirmam as RSF têm utilizado xingamentos raciais e étnicos durante os ataques a grupos não árabes, que culminam em dezenas de mortes.
O Brasil na guerra do Sudão
O Itamaraty se pronunciou sobre a guerra do Sudão já no primeiro dia do conflito, em abril de 2023. Naquele mesmo dia, o Itamaraty divulgou uma nota em que disse acompanhar o conflito com preocupação. Neste ano, os ministros de Relações Exteriores dos Brics, que incluem o Brasil, emitiram um comunicado em que clamam pela paz no país. “Os ministros reiteraram seu apelo por um cessar-fogo imediato e incondicional e pela resolução pacífica do conflito no Sudão e o acesso irrestrito da população sudanesa à assistência humanitária e a ampliação da assistência humanitária ao Sudão e estados vizinhos”, diz o texto.


