Na semana passada, o delegado Rivaldo Barbosa fez um pedido escrito à mão para ser ouvido pela Polícia Federal
BRASÍLIA – O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou nesta segunda-feira (27) o depoimento do delegado da Polícia Civil do Rio de Janeiro Rivaldo Barbosa, preso sob acusação de participar do plano que levou ao assassinato da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL).
Na semana passada, o delegado fez um pedido escrito à mão para ser ouvido pela PF. Ao ser intimado a responder à denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR), Rivaldo pediu “pelo amor de Deus” e “por misericórdia” para prestar depoimento. Ele está preso no presídio federal em Brasília.
Barbosa foi preso na mesma operação que levou à cadeia o conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro Domingos Brazão e o deputado federal (sem partido-RJ) Chiquinho Brazão. Irmãos, eles foram denunciados ao Supremo pela PGR por homicídio e organização criminosa.
Após a apresentação da denúncia, a defesa de Rivaldo Barbosa questionou a credibilidade dos depoimentos de delação premiada do ex-policial militar Ronnie Lessa, réu confesso do assassinato e que apontou o delegado e os irmão Brazão como participantes do crime.
Delegado teria se comprometido a proteger irmãos Brazão
Parte da delação de Lessa foi tornada pública pelo programa Fantástico, da TV Globo, no último domingo (26). Entre outras coisas, Lessa confirmou que Chiquinho Brazão e Domingos Brazão foram os mandantes do assassinato.
Lessa afirmou ainda que, durante esses encontros, os irmãos Brazão falaram que o delegado Rivaldo Barbosa, então chefe da Delegacia de Homicídios do Rio, participava do plano e iria protegê-los da investigação depois do assassinato.
Além de Lessa, o Macalé (apelido do ex-PM Edimilson de Oliveira), participava das negociações. Apontado como responsável por fornecer a arma para o crime, ele foi assassinado em novembro de 2021.
Rivaldo Barbosa se tornou o chefe de polícia do Rio de Janeiro um dia antes do assassinato. E, no dia posterior ao crime, ele nomeou o delegado Giniton Lajes para comandar a Delegacia de Homicídios. Para a PF, a escolha de uma pessoa de confiança para o cargo serviu para que os trabalhos de sabotagem se iniciassem no momento mais sensível da apuração do crime.
Lessa afirma que lucraria R$ 100 milhões com a morte de Marielle
Ronnie Lessa afirmou ainda que, ao executarem o plano de assassinato da vereadora, ele e seus comparsas iriam receber um loteamento clandestino em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, avaliado em R$ 100 milhões. O local seria explorado pela milícia. Segundo Lessa, o valor alto contribuiu para que ele aceitasse fazer parte do esquema.
A PF afirma em relatório que mesmo após buscar informações por meio de fontes abertas, fontes humanas, material apreendido no curso das apurações e investigações-satélites, não foi possível encontrar evidências concretas de planejamento para ocupar a área. Na delação, Lessa não detalha quando o plano seria colocado em prática.
“A gente ia assumir e criar uma nova milícia. Então ali já teria a exploração de gatonet, a exploração de cones, a exploração de… qualquer outra coisa que a milícia explora. Venda de gás. A questão valiosa ali é o que? É depois. É a manutenção da milícia porque a manutenção da milícia vai trazer voto. Então, na verdade, eu não fui contratado para matar a Marielle como assassino de aluguel. Eu fui chamado com a sociedade, tá?”, contou o ex-policial.
Ronnie Lessa também contou em depoimento à PF que, além de Marielle Franco, monitorava outros políticos do PSOL no Rio de Janeiro que incomodam um grupo miliciano de Rio das Pedras, na Zona Oeste da cidade.
De acordo com Lessa, Chiquinho Brazão e o irmão dele, o ex-conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro Domingos Brazão, infiltraram o miliciano Laerte Silva de Lima e a mulher, Erileide Barbosa da Rocha, no PSOL. A filiação do casal ao partido ocorreu em abril de 2017 – eles foram expulsos da sigla em dezembro de 2020 “em função da real atuação de ambos”.
“O Domingos, por exemplo, não tem papas na língua. Ele simplesmente fala que… ele colocou, digamos assim, um espião no PSOL, no partido da Marielle. E o nome desse espião seria Laerte, que é uma pessoa do Rio das Pedras, que depois eu soube se tratar de um miliciano. Uma pessoa responsável por várias atividades da milícia lá. E essa pessoa trazia informações para os irmãos com relação ao PSOL em si”, disse Ronnie aos investigadores.
Lessa afirmou que antes de planejar o crime contra Marielle, os irmãos Brazão haviam citado outro político do PSOL do Rio de Janeiro como alvo: Marcelo Freixo. Atual presidente da Embratur, ele foi deputado estadual e presidiu uma CPI que investigou as milícias no Estado. “Em determinado momento, já em 2017, se eu não me engano, ele veio com um assunto relacionado ao Marcelo Freixo”.
Um dos entraves, conforme o delator, era conseguir atirar no político sem errar e sair ilesos, uma vez que Freixo sempre andava rodeado de seguranças. “No meio de 20 seguranças… Eu acho que não vou ali provocar uma pessoa qualquer, a gente está provocando o Marcelo Freixo. Fui tirando isso da cabeça dele. Aí ele aceitou, não cobrou mais. Ali foi a nossa primeira entrada com relação a crimes”, declarou Lessa.
“É um verdadeiro psicopata. Mas quantas pessoas ele matou antes da Marielle? Foram centenas. Todo mundo sabe disso no Rio de Janeiro. A psicopatia dessa pessoa somada à covardia – porque ele escolhe a Marielle porque é covarde – se soma ao Rio de Janeiro onde polícia e política não se separam ”, declarou Freixo ao Fantástico.
Conforme o delator, a insatisfação com Marielle teria ocorrido por causa da votação de um projeto que flexibilizava as regras de regularização fundiária na Zona Oeste. Na época, Chiquinho era vereador e se irritou com a bancada do PSOL que votou contra o texto. A lei foi aprovada, mas depois vetada pelo então prefeito Marcelo Crivella. Por fim, o Tribunal de Justiça julgou a matéria inconstitucional.
Ao Fantástico, a defesa de Domingos Brazão afirmou que não há elementos que sustentem a versão de Lessa e que não há provas da narrativa apresentada. Já os advogados de Chiquinho afirmaram que a delação de Lessa “é uma desesperada criação mental na busca por benefícios, e que são muitas as contradições, fragilidades e inverdades”.
A defesa de Rivaldo Barbosa, por sua vez, alegou que ele nunca teve contato com supostos mandantes do crime e que não há registro de recebimento de valores provenientes de atos ilícitos. Também criticou a atuação da PF, dizendo que o relatório da investigação se baseia só nas palavras de um assassino, sem provas concretas.
Já os advogados de Giniton Lajes disse que a delação de Lessa é uma “infâmia grosseira”, e afirmou ainda que ele é o responsável por descobrir a autoria do crime e não a Polícia Federal. “Ele é o herói, e não o bandido”, declarou a defesa.


