EconomiaTabelamento de juros racha base aliada e Lula ignora tombo do mercado

Tabelamento de juros racha base aliada e Lula ignora tombo do mercado

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Por Rose Amantéa

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05/11/2026 às 11:49

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A possibilidade de mudança na política monetária e a adoção de um mecanismo para limitar os juros intensificaram o racha entre a equipe econômica e a base aliada do governo Lula.

A divisão, que já havia sido sinalizada na semana passada com a discussão do ajuste fiscal, ganhou novos contornos no domingo (1º), quando um colunista do jornal O Globo informou que o economista André Lara Resende teria um encontro marcado com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Um artigo publicado pelo economista no fim de setembro, em que defende uma mudança no regime monetário, foi resgatado e ganhou repercussão. No texto, Lara Resende propõe a redução gradual da Selic de 13,75% para cerca de 7,5% ao ano em 12 meses, além da criação de um mecanismo para estabelecer metas conjuntas para a política fiscal e a monetária.

A ideia ganhou respaldo de dois nomes ligados ao PT e à campanha de reeleição de Lula. A ex-presidente do partido e ex-ministra Gleisi Hoffmann classificou o artigo do economista como “fundamental para enfrentar essa ofensiva terrorista sobre a política fiscal brasileira”.

Já José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras e coordenador do programa de governo de Lula, celebrou o "fim do pensamento único" sobre teoria monetária e afirmou que merece “atenção especial” a ideia de criar um mecanismo mais amplo que o Conselho Monetário Nacional (CMN) para coordenar as políticas monetária e fiscal.

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Mercado e economistas reagem

No mercado financeiro e entre economistas, a proposta caiu como uma bomba. Investidores interpretaram a possibilidade de Lula aderir à ideia como uma ameaça à autonomia do Banco Central.

Economistas também criticaram duramente a medida, alertando para a pressão sobre as expectativas de inflação, a elevação dos juros de longo prazo e o risco de uma crise cambial decorrente da perda de confiança dos investidores.

John Cochrane, professor da Universidade Stanford e um dos economistas citados por Lara Resende, fez ressalvas sobre a aplicação prática da proposta no Brasil. O sucesso dependeria, sobretudo, da confiança dos investidores em superávits fiscais duradouros do governo, além de instituições capazes de sustentar o compromisso ao longo do tempo.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, teve que atuar como bombeiro. Negou a existência de um encontro agendado entre Lula e Lara Resende e disse que a proposta de "tabelamento de juros" não está na mesa do presidente.

Nesta terça-feira (3), voltou a se manifestar para tentar acalmar os investidores. "Há uma precipitação muito grande sobre quem o presidente vai falar ou não, porque não há agenda colocada", disse Durigan. "Nas agendas comigo, nós não estamos tratando de nada que justifique o mercado ter uma posição de medo."

Na tentativa de acalmar o mercado, é esperado que o próprio Lula faça um pronunciamento no próximo domingo (8). A intenção, segundo o Estadão, é dizer que o governo buscará cumprir as metas fiscais no próximo mandato e que manterá os compromissos de campanha sem cometer estelionato eleitoral.

Ibovespa sangra desde o pós eleição

A declaração do ministro da Fazenda não impediu que o Ibovespa registrasse a sexta queda consecutiva, de 1,42%. O dólar, por sua vez, subiu 0,79%, fechando a R$ 5,48. Os juros futuros, que refletem o quanto o investidor aceita para financiar o Tesouro, fecharam em alta nesta terça-feira (3), com pressão maior nos vencimentos de médio e longo prazo.

A taxa do DI para janeiro de 2029 passou de 14,962% para 15,070%, enquanto a do contrato para janeiro de 2031 subiu de 15,272% para 15,370%.

A desconfiança dos investidores e a turbulência do mercado já vinham sendo agravadas pelas declarações de integrantes da base aliada desde a queda histórica do Ibovespa na segunda-feira (26).

Parlamentares e dirigentes petistas foram às redes para descartar o ajuste fiscal sob o argumento de que o "tesouraço do Flávio" foi derrotado nas urnas.

O resultado foi a queda acumulada de 18,12% no Ibovespa na semana de 26 a 30 de outubro, a pior desde março de 2020. No mesmo período, as empresas listadas na B3 perderam R$ 963 bilhões em valor de mercado, segundo a Elos Ayta.

Mercado cobra; Lula não tem pressa

Para analistas ouvidos pela Gazeta do Povo, o silêncio do presidente Lula sobre o ajuste fiscal e os rumos da política econômica para o quarto mandato tem contribuído para ampliar a incerteza e as perdas.

“O governo não parece estar nem um pouco disposto a pacificar o mercado. Não está conseguindo transmitir uma ideia de governo para 2027. O mercado está aguardando isso”, afirma Felipe Sant’Anna, analista da Axia Investing.

Um interlocutor do governo, no entanto, afirmou à reportagem que tanto o presidente quanto parte da base do PT têm interpretado as reações dos investidores e os alertas de economistas ortodoxos como “terrorismo”. "Lula não está preocupado e o governo não pode ceder à pressão da Faria Lima", afirmou.

Para Sant’Anna, no entanto, as incertezas e as projeções econômicas já começam a pressionar a economia real. O Boletim Focus divulgado nesta terça-feira (3) elevou as estimativas para o dólar, de R$ 5,05 para R$ 5,34; para a Selic, de 13,25% para 13,50%; e para o IPCA, de 5,19% para 5,22%.

Na quarta-feira (4), na primeira reunião após a reeleição de Lula, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central interrompeu o ciclo de cortes e manteve a Selic em 13,75% ao ano. A decisão foi unânime e demonstra a apreensão com a piora nas expectativas de indicadores econômicos.

O analista também avalia que as alas mais radicais entre os aliados ignoram o funcionamento da economia. “Guilherme Boulos, Gleisi Hoffmann e até o presidente nacional do PT, Edinho Silva, estão dizendo que tanto faz, que ‘o mercado que lute, que não faz diferença’. Mas não é assim que funciona”, diz.

“O discurso de que ‘o mercado não manda no país’ é para a plateia cativa do Lula. Na prática, o mercado é dono do dinheiro. E isso vai dar continuidade a uma piora nos preços dos ativos e nas posições do Brasil. O capital nacional e estrangeiro se coloca à disposição do desenvolvimento do país na medida em que há previsibilidade e segurança jurídica”, acrescenta.

Lula vai decidir "no seu tempo"

Isadora Araújo, economista da GEP Brasil, também aponta a falta de definições sobre a política fiscal como um fator de preocupação. “Ainda não há anúncio do nome para a pasta da Fazenda, não há um programa de transição para uma possível nova regra fiscal e, ao mesmo tempo, a taxa de câmbio está se depreciando dia a dia”, diz.

Apesar disso, afirma que a expectativa da consultoria é de que o ajuste fiscal seja anunciado, uma vez que integrantes do próprio governo vêm reconhecendo há algum tempo a necessidade de dar um direcionamento mais claro à política fiscal.

O impasse, segundo ela, está na falta de definição sobre como isso será feito: “Ainda não está totalmente certo de onde vai sair esse ajuste”. Também não se sabe se virá por meio do aumento da arrecadação, do corte de despesas ou do fim de renúncias tributárias.

Para ela, as declarações da ala mais "desenvolvimentista" do Planalto indicam que esse grupo manterá espaço em áreas estratégicas — como no atual mandato, por meio da execução do Novo PAC e das políticas industriais —, mas não assumirá a condução da política fiscal.

Já o cientista político Leandro Gabiati, diretor da Dominium Consultoria, acredita que o próprio Lula pode estar comandando o jogo de ideias e propostas lançadas como “balões de ensaio” para observar a reação dos diferentes setores.

“O Lula, nesse início de governo, vai conversar com muita gente”, afirma. Para ele, ouvir diferentes posições é uma estratégia ponderada: “Eu escuto A, B, C, D. Eu escuto Lara Resende, falo com alguém do mercado. Você recebe informações e posições, recebe interesses de diversos atores”.

Gabiati avalia, porém, que caberá ao presidente definir os anúncios sobre a política econômica. "A vitória inédita para um quarto mandato e a vantagem de milhões de votos sobre o segundo colocado dão a Lula margem política para não tomar decisões precipitadas nem ceder à pressão imediata do mercado", avalia.

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Fonte: Gazeta Economia

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