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Jornalista de ciência e ambiente, autor de “A Ciência Encantada de Jurema" (ed. Fósforo)
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Um quarto de século após sequenciamento do DNA humano, tumores ainda resistem
Avanços obtidos são positivos, mas incrementais, não estrondosos como se prometia
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A empresa Moderna, que salvou milhões de vidas com vacinas de mRNA contra Covid, anunciou novo imunizante com essa tecnologia que reduz em 42% o risco de retorno do câncer de pele melanoma e de pacientes morrerem com ele ao longo de 25 meses, duração do ensaio clínico até aqui. Os dados foram apresentados em Madri, num congresso de oncologia.
Notícias como essa renovam minha fé comedida na biologia molecular como arauto de uma medicina de precisão salvacionista, que nos livraria a todos dos tumores. Faz 26 anos que o então presidente dos EUA, Bill Clinton, afirmou, na cerimônia de conclusão do rascunho do genoma humano, que os filhos de nossos filhos conheceriam o termo câncer só como uma constelação de estrelas.
A primeira neta de Clinton fez 12 anos, e só no Brasil morrem a cada ano 260 mil pessoas com a doença, entre 10 milhões de óbitos anuais por essa condição no mundo. A redenção pela genômica ainda não chegou, e parece duvidoso que isso ocorra antes de Charlotte Clinton Mezvinsky ter seus próprios filhos.
Isso não significa que tecnologias de sequenciamento e edição de DNA ou RNA sejam inúteis –longe disso. A inovação da Moderna, batizada intismeran, lança mão das duas técnicas para identificar mutações específicas nos tumores de cada paciente para, a partir da informação, injetar em seu corpo uma vacina personalizada, capaz de fazer o sistema imune reconhecer células tumorais e deslanchar um ataque a elas.
Além do imunizante, a pessoa em tratamento tem de receber o medicamento prembolizumab, um anticorpo monoclonal já utilizado para tratar melanoma. Como depende de sequenciar o DNA numa amostra do tumor, esse tratamento só permite prevenir a recidiva em quem teve o câncer extraído em cirurgia, ou seja, trata-se de uma intervenção curativa, não profilática.
Participaram do ensaio clínico liderado por Georgina Long, do Instituto Austrália de Melanoma em Sydney, um total de 1.137 portadores de melanoma moderado ou avançado, recrutados em 157 clínicas. Metade recebeu o duplo tratamento em teste e outra metade, só o prembolizumab com um placebo ativo.
O resultado de 42% de recidivas evitadas ao longo de dois anos, embora animador, não equivale a panaceia milagrosa. Os outros 58% não respondem à vacina, e houve vários casos em que a quantidade de amostra retirada cirurgicamente não se mostrou suficiente para identificar todas as mutações de DNA no tumor para orientar a elaboração do imunizante sob medida.
As ações da Moderna e da Merck já vinham em alta desde agosto, quando se soube que a empresa concluíra o teste clínico. A apresentação dos dados seria só no sábado (24), mas a notícia vazou. Curiosamente, as ações das farmacêuticas caíram após o anúncio, mas tudo indica que foi só uma correção de expectativas exageradas do mercado, não desconfiança com os resultados obtidos.
Desde a cerimônia bombástica com Clinton, Tony Blair, Francis Collins e Craig Venter em junho de 2000, a retórica sobre as promessas da genômica vem sendo calibrada para corresponder melhor às conquistas nesse campo, que são várias, mas não tão estrondosas quanto se propagava então. Há mais coisas entre o céu da genética e o terreno da saúde humana do que podemos sonhar.
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Fonte: Saúde Brasil


