Celebrado nesta quinta-feira (29), Dia Mundial do AVC reforça importância de enfrentar desigualdades na assistência
Acesso ao tratamento na rede pública depende da disponibilidade de serviços especializados e da rapidez do encaminhamento
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O AVC (acidente vascular cerebral) é a causa de cerca de 7,3 milhões de mortes por ano no mundo, segundo a World Stroke Organization (Organização Mundial do AVC), associação médica internacional dedicada a reduzir o impacto global da doença. Para conscientizar a população sobre como evitá-la, o Dia Mundial do AVC é celebrado nesta quinta-feira (29).
O SUS (Sistema Único de Saúde) vem ampliando a oferta de tratamentos para o AVC isquêmico (AVCI), responsável por cerca de 85% dos casos no país. Apesar dos avanços, o acesso ainda varia conforme o local onde o paciente mora e a rapidez com que chega a um hospital preparado.
O AVCI ocorre quando um coágulo bloqueia o fluxo de sangue para parte do cérebro. Um dos tratamentos disponíveis é a trombólise, que dissolve o coágulo com medicamentos intravenosos.
O protocolo nacional prevê o uso do medicamento alteplase desde abril de 2012, em geral até quatro horas e meia após o início dos sintomas. Antes da aplicação, é indispensável fazer uma tomografia para diferenciar o AVCI do hemorrágico, causado pelo rompimento de um vaso e cujo sangramento pode ser agravado pelo medicamento.
Apesar do aumento, a trombólise ainda é registrada em uma parcela pequena das internações por AVCI: a proporção passou de 1,5% em 2017 para 2,52% em 2024 e 2,71% no primeiro semestre de 2025. Os dados são de um estudo baseado no DataSUS, que analisou 1,66 milhão de internações entre 2017 e junho de 2025.
Outra opção é a trombectomia mecânica, indicada em casos de obstrução de grandes artérias cerebrais. O procedimento consiste em introduzir um cateter, geralmente por um vaso na virilha, até o local do bloqueio para retirar o coágulo e restabelecer a circulação.
A intervenção pode ser realizada até 24 horas após o início dos sintomas. A indicação depende de exames de imagem que localizam a obstrução e avaliam os danos cerebrais.
Os tratamentos não são excludentes: pacientes elegíveis podem receber trombólise e, em seguida, passar pela trombectomia. Outros podem ser encaminhados diretamente para o procedimento, conforme o quadro clínico e os resultados dos exames.
A trombectomia foi incorporada ao SUS em novembro de 2023. Desde então, o número de procedimentos registrados passou de 37, em 2023, para 1.026, em 2025, segundo o Ministério da Saúde. O aumento, porém, não significa que o tratamento esteja disponível em todo o país.
Um levantamento da SBAVC (Sociedade Brasileira de AVC) aponta desigualdades na oferta e afirma que o sucesso da incorporação não deve ser medido apenas pelo número de procedimentos realizados, "mas pela capacidade do sistema de oferecer essa chance ao brasileiro em todas as suas regiões".
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Centros especializados são desigualmente distribuídos
Segundo o CNES (Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde), o Brasil tem 129 centros de atendimento de urgência ao AVC habilitados pelo Ministério da Saúde. Do total, 56% (73) são privados sem fins lucrativos, 41% (52) são públicos e 3% (4) são privados com fins lucrativos.
O número não abrange todos os hospitais que atendem pacientes com AVC no país, mas apenas aqueles que cumprem critérios específicos de estrutura e equipe definidos pelo Ministério.
Para obter a habilitação, o hospital deve encaminhar o pedido por meio da secretaria municipal ou estadual de Saúde, com aprovação dos gestores regionais, além de comprovar que atende aos requisitos técnicos e aos protocolos clínicos.
A autorização permite acesso aos incentivos federais previstos para o serviço, conforme sua estrutura e capacidade de atendimento.
Para Michel Machado, coordenador do atendimento ao AVC no Hospital Santa Marcelina, em São Paulo, a quantidade de centros habilitados ainda é insuficiente para atender à demanda de pacientes com a doença, que é uma das principais causas de morte e incapacidade no país.
A distribuição também é desigual pelo território. O Sudeste concentra 42% (54) dos centros habilitados, seguido pelo Sul, com 39% (50); Nordeste, com 12% (16); Centro-Oeste, com 5% (7); e Norte, com 2% (2).
"Do ponto de vista geográfico, a população não está coberta de forma homogênea. Nem todos vivem em locais onde há um serviço preparado para atender ao AVC. Na prática, a possibilidade de receber o tratamento depende de onde a pessoa mora", afirma Frederico Alves, presidente da SBAVC.
Além disso, apenas 19 hospitais têm habilitação específica para realizar a trombectomia mecânica pelo SUS, sete deles (37%) em São Paulo.
A habilitação permite receber o financiamento federal previsto para o procedimento, mas não garante a cobertura de todos os custos.
A trombectomia exige uma sala de hemodinâmica, equipada com aparelhos de imagem que orientam a passagem de cateteres pelos vasos sanguíneos, além de materiais específicos e uma equipe de neurorradiologia intervencionista disponível continuamente.
Segundo Alves, o valor reembolsado pelo SUS é inferior à metade do custo real para os hospitais, o que dificulta a ampliação da oferta. Ele afirma que alguns estados complementam os recursos federais, como ocorre em São Paulo, enquanto outros dependem principalmente do financiamento da União.
Corrida contra o tempo
Mesmo quando há um serviço preparado, o paciente precisa chegar a tempo. A interrupção do fluxo sanguíneo pode causar danos permanentes às células cerebrais, e quanto mais rápido o tratamento, maiores as chances de preservar funções como fala e movimentos, afirma Alex Baeta, neurologista da Beneficência Portuguesa de São Paulo.
"Ainda assim, algumas pessoas demoram a procurar ajuda porque não reconhecem os sintomas ou esperam que desapareçam", afirma Machado. Os sinais incluem fraqueza ou formigamento de um lado do corpo, boca torta e dificuldade para falar ou compreender. Também podem ocorrer alterações súbitas da visão e do equilíbrio.
Outros procuram primeiro uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) ou UBS (Unidade Básica de Saúde), que geralmente não dispõem de tomógrafo, essencial para confirmar o diagnóstico.
Nesses casos, a transferência para um hospital com os recursos necessários pode consumir um tempo precioso para o tratamento.
Por isso, diante de uma suspeita, a recomendação é acionar o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), pelo número 192. A central de regulação avalia o caso e orienta o encaminhamento para um serviço adequado, conforme a necessidade do paciente e a estrutura disponível na rede.
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Protocolos podem reduzir atrasos
Alguns hospitais adotam estratégias para reduzir o tempo entre a chegada do paciente e o início do tratamento.
No Hospital Santa Marcelina, por exemplo, unidades de pronto atendimento da região funcionam como pontos de encaminhamento de casos suspeitos. A mais distante fica a 16 km do hospital, segundo Machado. "A gente enxerga essas unidades como a porta remota do hospital", diz.
No HC-FMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP), pacientes de outras regiões do estado são encaminhados por meio da regulação estadual, que organiza transferências para serviços especializados. "Há uma equipe específica responsável por essa comunicação e pela organização das transferências, segundo os fluxos estabelecidos na rede", afirma a instituição.
Já o Hospital Municipal Dr. Moysés Deutsch, o M’Boi Mirim, gerido pelo Einstein Hospital Israelita em parceria com o Centro de Estudos e Pesquisas Dr. João Amorim, utiliza a plataforma JOIN para receber antecipadamente informações sobre pacientes encaminhados pelo Samu. Com isso, a equipe pode se preparar antes da chegada deles.
Segundo Alves, hospitais públicos e privados também têm adotado a tenecteplase, alternativa à alteplase para a trombólise.
Disponível comercialmente no Brasil para o tratamento do AVC desde abril, ela é administrada em uma única dose intravenosa, em poucos segundos, enquanto a alteplase exige uma infusão de cerca de uma hora. "Isso simplifica o fluxo de atendimento", diz.
A telemedicina também pode agilizar o tratamento. No HC-FMUSP, médicos que recebem pacientes na emergência podem discutir os casos em tempo real com neurologistas à distância, o que ajuda a acelerar as decisões clínicas. Segundo o hospital, o modelo é utilizado tanto em redes privadas quanto em serviços públicos, como os do estado de São Paulo.
Principais sinais de AVC
Confusão mental;
Alteração da fala ou compreensão;
Alteração na visão (em um ou ambos os olhos);
Dor de cabeça súbita, intensa, sem causa aparente;
Alteração do equilíbrio, coordenação, tontura ou alteração no andar;
Fraqueza ou formigamento em um lado do corpo (rosto, braço ou perna).
Caso qualquer um desses sintomas apareça, é fundamental ligar para o Serviço de Atendimento Médico de Urgência (SAMU – 192), Bombeiros (193) ou levar a pessoa imediatamente a um hospital para avaliação clínica detalhada. Quanto mais rápido for o atendimento, maior a chance de sobrevivência e recuperação.
O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.
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Fonte: Saúde Brasil


