Economia“O cooperativismo é o invento mais civilizatório da humanidade”

“O cooperativismo é o invento mais civilizatório da humanidade”

Economia Cooperativa

Por Nelson Moreira, especial para a Gazeta do Povo

Por Nelson Moreira, especial para a Gazeta do Povo

29/10/2026 às 16:40

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Nenhuma outra criação humana organizou tão bem as pessoas em torno de um bem comum quanto o cooperativismo. Quem faz a afirmação é José Luiz Tejon, jornalista, publicitário, professor e uma das principais referências no país em marketing do agronegócio. Doutor e mestre stricto sensu, especialista em educação e autor de 35 livros, Tejon ousa dizer que o cooperativismo é “o invento mais civilizatório da humanidade”.

Esse movimento, que nasceu como meio de sobrevivência diante do desemprego, da fome e da miséria no contexto da Revolução Industrial, ganhou força na Europa ao longo do século XIX e se espraiou pelo mundo. Hoje, no Brasil, são cerca de 4,4 mil cooperativas em atividade, com 29,02 milhões de cooperados, 613.375 empregos diretos, R$ 848,37 bilhões em ingressos e R$ 1,60 trilhão em ativos. No agronegócio estão algumas das maiores cooperativas do país em faturamento.

Tejon vive o cooperativismo desde 1976, quando, aos 22 anos, teve os primeiros contatos com o setor. Nesta entrevista, ele explica por que cooperar não basta (“existe a cooperação para o mal”, alerta) e por que o modelo cooperativista, ao unir pessoas em torno do bem coletivo, ainda tem muito a oferecer ao desenvolvimento do Brasil.

O senhor afirma que o cooperativismo é “o invento mais civilizatório da humanidade”. Por quê?

— O cooperativismo significa organizar as forças humanas para criar o bem e promover a evolução de todos. A cooperação, por si só, também pode ser usada para o mal. O que caracteriza o cooperativismo é justamente a decisão de unir pessoas para construir algo que beneficie o conjunto. É uma forma de organizar a sociedade para que as pessoas possam evoluir juntas, em vez de depender exclusivamente da capacidade individual de cada um.

Quando essa visão passou a fazer parte da sua vida?

— Meu contato com o cooperativismo começou aos 22 anos, quando trabalhava na Jacto, em 1976. Foi ali que recebi essa influência, especialmente por meio do agrônomo José Maria Jorge Sebastião, diretor da empresa naquele período. Ele me ajudou a compreender a importância dessa forma de organização. Desde então, passei a enxergar o cooperativismo como um caminho para gerar desenvolvimento, agregar valor ao trabalho das pessoas e criar condições para que todos possam prosperar.

Na prática, o que uma cooperativa oferece que um produtor dificilmente conseguiria alcançar sozinho?

— A cooperativa organiza a produção, promove educação, agrega valor, viabiliza a comercialização e investe em infraestrutura. São iniciativas que, individualmente, milhões de produtores não teriam condições de realizar. Quando as pessoas se unem, conseguem construir estruturas que ampliam sua capacidade de produzir, competir e acessar mercados. Mas isso exige organização e responsabilidade. O cooperativismo tem regras, leis, auditorias e mecanismos de governança. Por isso, precisa de uma gestão ética e de lideranças comprometidas com os interesses coletivos.

O cooperativismo agropecuário brasileiro ganhou dimensão econômica e presença em diferentes regiões. Como o senhor explica essa força?

— As cooperativas agrícolas reúnem cerca de 1,2 milhão de famílias e respondem por aproximadamente 55% do que o Brasil produz. Mas é importante olhar para além dos indicadores econômicos. Uma cooperativa também contribui para a qualidade de vida nas regiões onde atua, cria oportunidades, fortalece comunidades e ajuda a construir condições para a continuidade das atividades rurais entre gerações. Quando o produtor prospera e a cooperativa se desenvolve, os efeitos podem alcançar toda a região.

O cooperativismo também tem presença expressiva nos países mais ricos. Isso demonstra que o modelo pode funcionar em diferentes realidades econômicas?

— O cooperativismo tem uma presença expressiva no mundo, inclusive em países entre os mais ricos. Isso mostra que não se trata de uma solução restrita a economias menos desenvolvidas ou a produtores de pequeno porte. A cooperação pode ser um instrumento de organização econômica em diferentes realidades. O que importa é a capacidade de reunir pessoas, estabelecer objetivos comuns, construir uma estrutura sólida e administrar essa estrutura com responsabilidade.

Se o modelo tem tantas vantagens, por que algumas cooperativas enfrentam crises e dificuldades?

— As situações críticas aparecem quando há erros graves de gestão ou de liderança. Uma cooperativa precisa pensar no longo prazo. Quando seus dirigentes passam a privilegiar resultados imediatos, deixam de considerar os fundamentos que sustentam o negócio e os interesses de seus cooperados. Não basta reunir pessoas em torno de uma organização; é necessário saber conduzi-la e preservar os princípios que justificam sua existência.

O cooperativismo exige lideranças éticas, capazes de compreender que a responsabilidade não se limita aos interesses individuais ou imediatos. José Luiz Tejon

O cooperativismo exige lideranças éticas, capazes de compreender que a responsabilidade não se limita aos interesses individuais ou imediatos.

Recentemente, o senhor defendeu que o presidente do Brasil poderia se inspirar em líderes cooperativistas. O que a experiência desse sistema pode ensinar à liderança pública?

— A experiência cooperativista mostra a importância de organizar esforços em torno de objetivos que beneficiem o conjunto. Isso exige lideranças éticas, capazes de compreender que a responsabilidade não se limita aos interesses individuais ou imediatos. É preciso ter visão de longo prazo, estabelecer regras, respeitar a governança e trabalhar para que os resultados alcancem as pessoas envolvidas. Esses princípios não dizem respeito apenas à gestão de uma cooperativa. São referências importantes para pensar a sociedade e o desenvolvimento de um país.

O senhor afirma que a sucessão começa no berço e que a educação para a cooperação é vital desde a infância. Como as cooperativas podem preparar as novas gerações para assumir responsabilidades e permanecer no campo?

— Sem cooperação, não teremos sucesso. A sucessão começa no berço, e a educação para a cooperação é vital desde a infância. Precisamos formar pessoas que compreendam a importância de participar, assumir responsabilidades e construir soluções coletivas. Para que os jovens vejam perspectivas no campo, precisam encontrar oportunidades, acesso ao conhecimento e condições para participar do desenvolvimento de suas comunidades. As cooperativas precisam envolver seus membros, suas famílias e as novas gerações, para que todos compreendam seu funcionamento e percebam que também são responsáveis pela construção do futuro.

Olhando para o futuro, qual é o tamanho do desafio que o cooperativismo brasileiro ainda precisa enfrentar?

— O futuro é gigantesco. O Brasil tem cerca de 5,5 milhões de produtores, e aproximadamente 4,5 milhões estão fora do mercado e da ciência. Esses produtores dificilmente conseguirão avançar sem organização, acesso ao conhecimento e condições para participar das oportunidades econômicas. O cooperativismo pode ajudar a construir esse caminho, reunindo pessoas e criando estruturas que permitam ampliar o acesso à tecnologia, à comercialização e ao desenvolvimento. É uma questão que vai além do crescimento de cada cooperativa: diz respeito à capacidade do país de incluir produtores e fortalecer sua produção.

Que mensagem o senhor deixaria a quem já participa do sistema cooperativista e a quem ainda não conhece suas possibilidades?

— Participe. Seja membro de uma boa cooperativa, envolva-se, leve sua família. Não importa o tamanho do produtor. No cooperativismo, você será sempre melhor e contribuirá para fazer um mundo cada vez melhor para todos. A cooperativa é construída pelos seus membros e depende da participação de cada um. Quanto mais as pessoas entenderem isso, mais poderão contribuir para o desenvolvimento coletivo.

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Fonte: Gazeta Economia

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