SaúdeNove em cada dez publicações virais sobre saúde são falsas, aponta relatório

Nove em cada dez publicações virais sobre saúde são falsas, aponta relatório

Agência Lupa verificou 764 afirmações publicadas entre 2017 e 2026

Material inclui promessas de cura, teorias sobre vacinas e vídeos que simulam declarações de médicos

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Quase nove em cada dez alegações sobre saúde verificadas pela Agência Lupa entre 2017 e junho de 2026 eram falsas.

Das 764 afirmações analisadas, 667 (87,3%) receberam essa classificação, segundo o relatório Raio-X da Desinformação em Saúde, produzido pelo Observatório Lupa, núcleo de pesquisa da agência, com apoio da Afya, grupo de educação médica e soluções digitais para profissionais de saúde.

O levantamento reuniu 498 checagens de conteúdos virais ou potencialmente virais. Como uma mesma checagem pode examinar várias afirmações, o total de alegações supera o de publicações analisadas.

A Lupa não estabelece um número mínimo de visualizações ou compartilhamentos para classificar um conteúdo como viral. A agência também considera o contexto de circulação, as plataformas em que aparece e as sugestões de checagem recebidas do público.

Pandemia multiplicou as checagens

Em 2020 e 2021, a Lupa verificou 452 conteúdos sobre saúde, cerca de dez vezes os 44 analisados entre 2017 e 2019. A Covid-19 respondeu por 82,3% das alegações checadas durante a pandemia.

O aumento refletiu a insegurança e as dúvidas sobre a doença, as vacinas e as medidas de prevenção, mas também mudanças no trabalho da agência, que intensificou as checagens e lançou um serviço para receber sugestões pelo WhatsApp, no fim de 2020.

No período analisado, a Covid-19 esteve presente em 61% das checagens. Tratamentos, curas e prevenção representaram 34% das alegações, e alimentos, bebidas e nutrição, 24%. As categorias não são excludentes.

Uma publicação, por exemplo, afirmava que um chá de limão, alho e jambu aliviaria os sintomas da Covid e permitiria a recuperação sem necessidade de ir ao hospital.

Vacinas continuam no alvo

Antes da pandemia, entre 2017 e 2019, vacinas correspondiam a 9,1% das alegações analisadas.

A proporção subiu para 33,2% em 2020 e 2021, quando circularam afirmações de que os imunizantes contra a Covid causariam infertilidade, complicações na gravidez e danos à saúde de crianças, por exemplo, além de teorias de que as vacinas contêm chips ou grafeno ou causariam alterações genéticas.

O percentual chegou a 38,9% entre 2022 e 2024. Nesse período, ganharam espaço alegações sobre supostos efeitos nocivos das vacinas e métodos para "desintoxicar" o organismo, como protocolos que recomendavam vitaminas, carvão ativado e ivermectina contra a Covid.

De janeiro de 2025 a junho de 2026, a proporção caiu para 20%, mas permaneceu acima do nível pré-pandemia. Das 244 alegações sobre vacinas examinadas em todo o período, 86,9% foram classificadas como falsas.

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Falsas autoridades e alarmismo convencem

A estratégia mais frequente, segundo verificou a agência, era recorrer a uma falsa autoridade médica ou científica —foi assim em 21,6% dos casos. Linguagem alarmista (17,1%), distorção de estudos e dados (15,7%) e promessas de soluções simples para problemas complexos (12,6%) também eram comuns.

A tática de explorar o medo e a urgência também cresceu: passou de 18,3% das alegações entre 2022 e 2024 para 33,8% de janeiro de 2025 a junho de 2026, a maior proporção entre os períodos analisados.

Mensagens que anunciam perigos graves e pressionam o público a agir ou compartilhar rapidamente podem dificultar a checagem, sobretudo quando prometem soluções milagrosas.

Vídeos manipulados por inteligência artificial também dão aparência de legitimidade a informações falsas.

"É o caso, por exemplo, dos vídeos que mostram o médico Drauzio Varella supostamente falando sobre os benefícios de algum produto", afirma Maiquel Rosauro, analista de inteligência júnior da Lupa.

Em setembro, o Ministério da Saúde informou ter identificado 97 perfis que simulavam médicos e outros profissionais, com uso de IA, para divulgar informações falsas e promessas de cura. A AGU (Advocacia-Geral da União) notificou o YouTube sobre os conteúdos.

Desinformação também vira negócio

A Lupa também identificou a exploração comercial da desinformação, com publicações que direcionam o público para a compra de produtos ou serviços.

O diabetes foi a doença mais explorada, em publicações que prometiam controlar ou reverter a doença, dispensar o uso de insulina e outros medicamentos ou permitir uma alimentação sem restrições.

"Quando há essa combinação entre apelo emocional, soluções milagrosas e uma suposta validação por autoridades médicas, temos grandes chances de ter aí uma desinformação em saúde", afirma Victor Terra, coordenador de Educação da Lupa.

Algoritmos podem ampliar alcance

O WhatsApp apareceu em mais de 70% das checagens analisadas, mas também é o principal canal usado pelo público para sugerir conteúdos à Lupa. Facebook e Instagram apareceram em 25,3% e 7% dos casos, respectivamente.

Os dados não significam que o WhatsApp concentre mais desinformação; uma mesma publicação pode circular em várias redes, e o levantamento não mede a exposição total do público.

Segundo Terra, os sistemas de recomendação das plataformas usam sinais como visualizações, comentários e compartilhamentos para distribuir conteúdos.

"O problema é que esse tipo de análise não leva em conta o teor do conteúdo em si, se é verdadeiro, falso, se algo ali foi retirado de contexto", diz. Assim, publicações que despertam medo ou indignação podem ganhar alcance.

Ele defende mecanismos de denúncia rápidos e acessíveis, "com instruções mais claras, botões mais visíveis e diligência das plataformas". O relatório também recomenda reduzir os incentivos econômicos à desinformação, especialmente quando conteúdos enganosos promovem a venda de produtos.

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Fonte: Saúde Brasil

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