Parte cognitiva responsável pela localização no espaço se desenvolve mais entre esses profissionais, segundo estudos
Perda da geolocalização é um dos primeiros sintomas da doença, por vezes anterior às deficiências de memória
Diminuir fonte
Hatim Sharif é hidrólogo e professor de engenharia civil e ambiental e gestão da construção na Universidade do Texas em San Antonio
Motoristas de táxi e de ambulância americanos têm menos chances do que profissionais de quase qualquer outra área de morrer de doença de Alzheimer. Esse foi o resultado surpreendente de um estudo de 2024 que analisou as certidões de óbito de quase 9 milhões de pessoas nos Estados Unidos.
Essas descobertas me deixaram perplexo, pois essas duas profissões dependem da mesma coisa que o meu próprio trabalho: mapas.
Passei mais de duas décadas olhando para mapas. Não mapas de papel na parede, mas mapas digitais com várias camadas: limites de inundações sobrepostos a blocos censitários, pontos críticos de acidentes de carro mapeados em relação à geometria das estradas e leituras de satélite de precipitação sobrepostas a bacias hidrográficas.
Grande parte do meu trabalho como engenheiro civil e ambiental é feito por meio de SIG —ou seja, sistemas de informação geográfica. Engenheiros como eu mantêm várias relações espaciais em mente ao mesmo tempo, raciocinando sobre onde as coisas se situam em relação umas às outras em escalas que vão de um quarteirão a toda uma bacia hidrográfica.
Sempre presumi que o raciocínio espacial entre camadas de mapas fosse puramente profissional. Mas aquele estudo sobre motoristas de táxi e de ambulância me fez pensar se todo esse trabalho mental poderia estar fazendo algum bem ao cérebro.
Metade dos casos de demência no mundo são associados a 14 fatores; veja quais são
Metade dos casos de demência no mundo são associados a 14 fatores; veja quais são
Musculação ajuda a prevenir Alzheimer e melhora independência de pessoas que têm a doença
Musculação ajuda a prevenir Alzheimer e melhora independência de pessoas que têm a doença
Exame de sangue para Alzheimer nos EUA desperta dúvidas e ansiedade; médicos pedem cautela
Exame de sangue para Alzheimer nos EUA desperta dúvidas e ansiedade; médicos pedem cautela
Remédios para dormir aumentam as chances de Alzheimer? Confira o que a ciência já sabe
Remédios para dormir aumentam as chances de Alzheimer? Confira o que a ciência já sabe
Maior aptidão cardiorrespiratória está relacionada a menor risco de depressão e demência
Maior aptidão cardiorrespiratória está relacionada a menor risco de depressão e demência
Aprender coisas novas e ter vida social ativa são centrais para envelhecimento saudável, diz livro
Aprender coisas novas e ter vida social ativa são centrais para envelhecimento saudável, diz livro
Os cérebros dos motoristas de táxi
Dos 9 milhões de atestados de óbito de janeiro de 2020 a dezembro de 2022 que os pesquisadores examinaram, os motoristas de táxi e de ambulância apresentaram o menor risco de morrer de doença de Alzheimer entre 443 profissões. Após ajustar os dados por idade, sexo, etnia e escolaridade, aproximadamente um em cada cem motoristas de táxi e ambulância morreu de Alzheimer, em comparação com um em cada 60 pessoas no total.
Esse padrão não se estendeu a outras profissões que envolvem dirigir. Os pesquisadores concluíram que a chave para reduzir o risco de Alzheimer não era o ato de dirigir em si, mas a navegação contínua em tempo real: o trabalho constante de se localizar no espaço, rastrear um destino e atualizar um mapa mental à medida que as condições mudam. Motoristas cujo trabalho dependia de rotas fixas ou predeterminadas, como os de ônibus e pilotos de avião, não pareciam ter uma vantagem semelhante.
Os pesquisadores acreditam que a associação entre trabalhos que exigem muita navegação e menor risco de Alzheimer está relacionada ao hipocampo, uma parte do cérebro que controla a memória e a navegação espacial. É uma das primeiras regiões cerebrais a ser afetada pela doença de Alzheimer: problemas com a navegação espacial e a orientação estão entre os primeiros sinais da doença, às vezes surgindo antes mesmo de uma perda de memória evidente.
E não foi a primeira vez que pesquisadores observaram este tipo de associação. Em um estudo marcante de 2000, neurocientistas compararam os cérebros de motoristas de táxi licenciados de Londres com os de pessoas que não dirigiam táxis. Suas descobertas forneceram a primeira evidência, por meio de imagens estruturais, de que regiões do cérebro adulto podem sofrer alterações mensuráveis sob demanda contínua de navegação.
Para obter sua licença, os taxistas de Londres precisam memorizar mais de 25 mil ruas em um raio de 6 milhas (aproximadamente nove quilômetros) de Charing Cross, um desafio apelidado como "The Knowledge" (O Conhecimento) que leva em média de três a quatro anos para ser cumprido.
Os pesquisadores descobriram que os motoristas de táxi de Londres tinham uma quantidade significativamente maior de matéria cinzenta no hipocampo posterior, uma área do cérebro associada ao armazenamento de mapas espaciais em grande escala. Esse aumento no volume acompanhava a experiência dos taxistas: quanto mais tempo alguém dirigia pela cidade, maior era essa parte do cérebro. A mudança foi construída por meio da prática, não era inata. Embora pessoas com facilidade para navegação possam ser atraídas por esse tipo de trabalho, a profissão em si tem um impacto no cérebro.
Juntos, esses dois estudos apresentam um argumento coerente: o trabalho que exercita intensamente o hipocampo pode remodelá-lo, e essa remodelação pode proteger contra uma das doenças mais temidas do envelhecimento.
O papel dos especialistas em mapas
Cartógrafos, urbanistas e analistas geoespaciais passam seus dias de trabalho em raciocínio espacial contínuo. Um especialista em sistema de informação geográfica pode usar um computador para sobrepor dados populacionais a mapas de exposição a inundações a fim de identificar quem está em risco, ou analisar imagens de satélite para mapear a cobertura do solo após um incêndio florestal. Os pesquisadores lidam simultaneamente com várias camadas de dados, sistemas de coordenadas e escalas.
Mais
O raciocínio espacial por meio de uma tela envolve o hipocampo da mesma forma que se deslocar por uma cidade real?
Enquanto um motorista de táxi navega de dentro da cena, ao nível da rua, os pesquisadores de SIG visualizam o espaço de cima como um mapa —o que os cientistas cognitivos chamam de raciocínio alocêntrico. Mas essas duas perspectivas se sobrepõem no cérebro: o hipocampo também constrói mapas a partir de pontos de vista externos, não apenas a partir da própria posição do navegador.
Pesquisas sobre mapas cognitivos apontam para a mesma conclusão que o estudo sobre motoristas de táxi. Em 2023, pesquisadores aplicaram um modelo de aprendizado de máquina a mais de 22.500 pessoas em um conjunto de dados nacional e conseguiram prever quais CEPs apresentavam taxas mais altas de Alzheimer com 84% de precisão, com base apenas na complexidade do ambiente. Aqueles que vivem em ambientes espacialmente complexos –do tipo que exigem a construção ativa de mapas, como redes densas de ruas com inúmeros cruzamentos, diversos pontos de interesse e pontos de referência, além de múltiplas opções de trajetos – apresentavam menor probabilidade de desenvolver Alzheimer.
Mais
Um estudo posterior associou a complexidade geoespacial do ambiente a um maior volume nas regiões cerebrais responsáveis pela navegação espacial. Os pesquisadores levantaram a hipótese de que a construção rotineira de mapas cognitivos exercita exatamente os circuitos que a doença de Alzheimer ataca primeiro. O uso repetido dos sistemas cognitivos envolvidos na navegação espacial poderia ajudar a retardar os sintomas da doença.
Esses dois estudos, no entanto, se concentram no local onde as pessoas moram, e não no trabalho que realizam. Ainda não se sabe se o raciocínio espacial por meio de uma tela exercita os mesmos circuitos que a navegação na cidade na vida real.
Protegendo seu cérebro
As implicações de se o raciocínio espacial contínuo protege o cérebro vão além dos cartógrafos e motoristas de táxi. Estudos têm constatado repetidamente uma ligação entre ocupações mentalmente complexas e retardamento do declínio cognitivo e menor risco de demência, mesmo após levar em conta o nível de escolaridade.
Pesquisas sobre a reserva cognitiva —a capacidade do cérebro de continuar funcionando apesar da doença— podem ajudar a explicar por que duas pessoas com uma carga de doença semelhante podem apresentar níveis marcadamente diferentes de comprometimento cognitivo. Se o raciocínio espacial exigente protege o cérebro, então a forma como as sociedades estruturam a educação escolar, a formação profissional e a aposentadoria passa a ser uma questão de saúde cerebral.
Mais
O raciocínio espacial pode ser treinado, e oportunidades de treinamento já são amplamente difundidas. O ensino de SIG e sensoriamento remoto está disponível em cursos de geografia, engenharia, saúde pública e ciências ambientais em todo o mundo.
Se o envolvimento contínuo com o raciocínio espacial puder ajudar o cérebro a fortalecer os circuitos que a doença de Alzheimer ataca em primeiro lugar, seu valor vai muito além das habilidades técnicas que desenvolve.
Tópicos relacionados
Leia tudo sobre o tema e siga:
alzheimer
ciência
Envelhecimento
Estados Unidos
Idoso
saúde
saúde mental
The Conversation
Envie sua notícia
Erramos?
Ombudsman
Comentários
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Carregando…
Fonte: Saúde Brasil


