EconomiaEndividamento dos mais pobres, base eleitoral de Lula, pode travar economia em...

Endividamento dos mais pobres, base eleitoral de Lula, pode travar economia em 2027

Receba notícias por email

Banco Master

Banco Central

Por Vandré Kramer

Por Vandré Kramer

26/08/2026 às 17:50

26/08/2026 às 17:50

Dê de presente

Prefira a Gazeta no Google

Ouça este conteúdo

O alto endividamento das famílias mais pobres pode derrubar o consumo e travar a economia a partir de 2027. O endividamento das famílias brasileiras atingiu recorde de 82% do total em julho de 2026. Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o peso recai sobre a base da pirâmide – a mesma parcela que forma a principal base eleitoral do presidente Lula (PT).

Entre quem ganha até três salários mínimos, 38,5% das famílias estão inadimplentes. Com o esgotamento dos efeitos dos estímulos fiscais, as famílias podem ser obrigadas a apertar o orçamento, comprimindo o consumo.

Analistas consultados pela Gazeta do Povo apontam que a expansão do crédito dos últimos anos, impulsionada pela digitalização e por incentivos fiscais, cobra um preço desproporcional de quem ganha menos. O emprego em alta e o impulso fiscal temporário têm mascarado as pressões financeiras até agora, mas o peso das dívidas já é maior para famílias de baixa renda.

VEJA TAMBÉM:

Por que organizar as contas é o primeiro passo para tomar boas decisões com o dinheiro

Confiança de empresários do comércio cai ao menor patamar do ano em agosto

Mais pobres concentram dívida e inadimplência

Quem recebe até três salários mínimos lidera o endividamento geral, segundo o levantamento da CNC. O número de famílias com compromissos financeiros chegou a 84,9% em julho, ante 81,2% em julho de 2025.

A concentração não é um fenômeno recente. Segundo economistas do BTG Pactual, houve um aumento da concentração entre famílias de baixa renda entre 2017 e 2022, em grande parte impulsionado pelas transformações estruturais do sistema de pagamentos e pela digitalização bancária.

Mais preocupante é a incapacidade de honrar os compromissos. Enquanto a inadimplência recuou entre quem ganha mais, as famílias com renda de até três salários mínimos foram as únicas com crescimento dos atrasos no comparativo entre julho de 2025 e julho de 2026. Já são quase duas em cada cinco nessa situação.

Para essas famílias, o atraso é especialmente danoso. Os dados da entidade representativa do comércio mostram que, entre elas, 17,8% declararam que não terão condições de quitar dívidas em atraso, liderando com folga o indicador de insolvência. Apenas 15,1% das famílias com renda superior a dez salários mínimos têm contas em atraso, e 5,2% admitem que permanecerão inadimplentes.

VEJA TAMBÉM:

Lula enfrenta pressão econômica parecida com a que atingiu Dilma

Com setores em crise, recuperações judiciais avançam no Brasil. Veja o raio-X de cada segmento

Famílias chegam a 2027 em situação mais frágil do que na crise de 2014-2016

A situação financeira das famílias brasileiras é mais desconfortável do que na pré-recessão de 2014, durante o governo de Dilma Rousseff (PT). Dados do Banco Central (BC) mostram que, em março de 2014, o endividamento total representava 38,2% da renda disponível; no ciclo recente, alcança 49,7%.

O comprometimento de renda com juros e amortizações subiu de 22,9% para 29,3% — próximo à máxima histórica da série do BC. A deterioração patrimonial e o aperto sobre o fluxo de caixa das famílias estão hoje em níveis piores que os de 2014.

Endividamento dos mais pobres ameaça o consumo

Especialistas ouvidos pela reportagem explicam que as expansões do endividamento frequentemente antecedem a desaceleração da atividade. Quando o endividamento se concentra entre aqueles que ganham menos, que proporcionalmente tendem a gastar mais e quase não têm reserva, o impacto sobre o consumo tende a ser maior.

Um estudo do BTG Pactual publicado no final de julho, assinado por Mansueto Almeida, economista-chefe, e Thiago Berriel, chefe de pesquisa macroeconômica, ressalta que o mesmo real gasto com o serviço da dívida tende a reduzir mais o consumo quando pesa sobre famílias de menor renda.

Além disso, as famílias de menor renda absorveram as modalidades de crédito de maior risco e custo, como cartão de crédito e crédito pessoal não consignado — combinação que, segundo o banco, reúne o pior das duas dimensões quando se pensa em fragilidade financeira e virada de ciclo.

VEJA TAMBÉM:

Gigante de viagens CVC perde 90% do valor de mercado e tenta reencontrar o caminho

O que aconteceu com o Habib’s? A crise na rede que popularizou a esfiha barata no Brasil

Crédito caro aumenta o peso das dívidas

Apesar dos cortes do Banco Central na taxa básica de juros (Selic), o alívio ainda não chegou aos consumidores. Fábio Bentes, economista-chefe da CNC, atribui a demora na redução dos juros cobrados pelos bancos ao risco de crédito ainda elevado. A inadimplência alta confirma esse risco.

Enquanto a Selic caiu de 15% para 14% ao ano, a taxa ao consumidor seguiu subindo e chegou a 64% ao ano em junho. A disparidade pesa especialmente sobre quem depende de crédito livre de alto custo, como cartão de crédito e empréstimo pessoal não consignado.

A digitalização bancária e o Pix ampliaram o acesso ao crédito, enquanto os estímulos fiscais e creditícios aumentaram temporariamente a renda disponível. Segundo o BTG Pactual, esse ambiente permitiu que famílias de baixa renda contraíssem mais dívidas mesmo com juros elevados, mas também aumentou sua vulnerabilidade quando os estímulos forem retirados.

O que pode acontecer com o consumo em 2027

É a partir dessa base frágil que partem as projeções para a atividade econômica. O consumo familiar, o principal componente do PIB, está no centro do ajuste. Segundo o BTG, um ajuste no orçamento das famílias pode levar, no melhor dos cenários, a um crescimento bem mais moderado do consumo.

Com as famílias controlando mais as suas finanças em 2027, o banco projeta que o nível de endividamento cairá de 49,4% da renda disponível em dezembro para 47,9% no mesmo mês do próximo ano. O número médio ficaria próximo ao de 2025.

Os ajustes no orçamento doméstico e uma retirada de incentivos fiscais levariam a uma queda no crescimento real do consumo familiar para 0,8%. Com a renda real avançando cerca de 2,0% e a estabilização do mercado de crédito, a recuperação viria em 2028, com alta de 2,5%, não ancorada no endividamento artificial.

Um cenário pior ocorreria se um eventual ajuste da política fiscal e das políticas de crédito desacelerasse a economia bem além do esperado em 2026.

Com a retirada dos estímulos fiscais e a manutenção de juros elevados, as famílias seriam forçadas a cortar dívidas preventivamente a partir do fim de 2026, reduzindo a busca de crédito em 5% do PIB em 2027. O BTG projeta que o consumo teria uma retração de 0,4% no próximo ano e limitaria o crescimento em 2028.

O temor, entretanto, é de que o governo adote novas medidas de estímulo fiscal neste ano, contribuindo para que o endividamento das famílias chegue a 51% da renda disponível. Os economistas apontam que, nesse cenário, haveria uma contração de 6% no crédito em 2027, causando retração no consumo e levando a economia a uma recessão.

VEJA TAMBÉM:

Endividamento chega a 81% das famílias brasileiras, sendo 3 em cada 10 inadimplentes

Juros e endividamento em alta “comem” renda das famílias na gestão Lula

Deixe sua opinião

Encontrou algo errado na matéria?

Comunique erros

Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Principais Manchetes

Plano de Lula promete mais regulação das redes e “soviete” da soberania digital

PF mira sociedade oculta entre Lulinha e dono do sítio de Atibaia

Mendonça chama STF de “ápice do poder” e relata “muita infelicidade” na Corte

Como Janja comanda e ajuda (ou atrapalha) a campanha de Lula

Tudo sobre:

Bancos

consumo

Lula

Pix

Receba nossas notícias NO CELULAR

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.

Fonte: Gazeta Economia

DestaquesNo ZUG!

Subscribe
Notify of
guest
0 Comentários
Newest
Oldest Most Voted
Ipatinga
nublado
21 ° C
21 °
21 °
88%
1m/s
100%
qui
32 °
sex
26 °
sáb
32 °
dom
28 °
seg
27 °