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Mulheres negras desejam poder de escolha sobre ter filhos e parto sem violência

No Dia Internacional da Mulher Negra, Folha perguntou sobre sonhos em relação à maternidade e aos direitos reprodutivos

Dados apontam que 7 em cada 10 meninas que engravidam antes dos 19 anos são pretas ou pardas

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A administradora Nathália Rodrigues, 26, conhecida como Nath Finanças, quer que mulheres negras possam escolher o momento certo para ter filhos. A educadora Bárbara Carine, 39, sonha com gestações e partos livres de violência. Já a corretora de imóveis Patrícia Andrade, 46, deseja um futuro de afeto e acolhimento para os filhos.

No Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, celebrado neste sábado (25), a Folha ouviu mulheres de diferentes perfis sobre seus desejos em relação à maternidade e aos direitos reprodutivos.

Para elas, esse direito vai além da decisão de interromper ou levar adiante uma gravidez. Inclui poder escolher se e quando ter filhos, com acesso à informação e a métodos contraceptivos. Envolve também ter a dor considerada nas consultas ginecológicas, receber atendimento digno no parto e viver a maternidade sem que o racismo determine o destino de mães e filhos.

A comunicadora Bruna Dias, 32, cresceu na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, vendo meninas deixarem a escola por causa da gravidez. Hoje, ela defende mais acesso à informação e à educação sexual para adolescentes.

Sete em cada dez meninas que engravidam antes dos 19 anos são negras, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Seis em cada dez mães adolescentes não estudam nem trabalham.

Patrícia engravidou aos 22 anos e precisou desistir da faculdade. Ainda sonha em cursar letras. "Hoje em dia, as meninas menstruam com 11 anos. A menina que teve a menarca tem direito a entender sobre a sexualidade, com tempo e na linguagem correta."

Segundo as entrevistadas, esse acesso à informação evita que meninas sejam forçadas a escolher entre maternidade e carreira. "Uma mulher negra sadia e segura de sua decisão ganha o mundo, e o mundo ganha com ela", diz Michele Salles, 44, diretora de impacto social na Profile, consultoria especializada em reputação e impacto.

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Michele perdeu três gestações antes de conseguir realizar o sonho de ter um filho —hoje, Caetano tem sete anos. Ao longo do processo, teve a própria decisão de ser mãe questionada e foi submetida a procedimentos dolorosos sem anestesia.

"Alguns médicos foram extremamente racistas. Essa coisa de achar qur a mulher negra tem mais tolerância à dor", diz. Um estudo de 2024 publicado no Journal of Pain mostrou que profissionais de saúde subestimam de forma desproporcional a dor de mulheres negras, em comparação a mulheres brancas e também a homens negros e brancos.

"Todas as mulheres precisam fazer exames ginecológicos. Mas às vezes somos tratadas sem atenção nenhuma. São invasivos, dolorosos. Por que não pensar em uma estratégia para amenizar isso?", questiona a professora Luciana Azevedo, 43.

Na sociedade que as entrevistadas imaginam, mulheres negras que não quisessem engravidar seriam respeitadas nessa escolha. As que optassem pela gravidez poderiam decidir o melhor momento e viver a gestação e o parto em paz, sem procedimentos dolorosos desnecessários.

Bárbara Carine, porém, precisou se mobilizar para conseguir uma equipe inteiramente negra em seu parto. Isso porque mulheres negras são as principais vítimas de violência obstétrica, segundo a pesquisa "Nascer no Brasil", coordenada pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz).

Foi o que viveu a servidora pública Heloisa Amâncio, 52. Em um dos partos, ela esperou mais de oito horas na maternidade sem ser observada pelos profissionais de saúde. Quando notaram sua presença, já estava em risco. Romperam sua bolsa e ela precisou caminhar até a sala de parto.

"Gostaria que fôssemos respeitadas como seres humanos. Quando uma mulher negra chega na maternidade, acham que ela vai aguentar a dor sem anestesia, que vai aguentar esperar mais tempo, que pode ficar de pé encostada em qualquer lugar. Acham que ela aguenta", diz Heloisa.

Patrícia considera a maternidade a área mais bem-sucedida de sua vida e deseja que outras mulheres negras tenham a mesma experiência que ela teve no parto. "Fui muito bem tratada."

Folha também perguntou às mulheres o que elas desejam na carreira e na política e ouviu meninas sobre seus sonhos

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Ela teve os três filhos pelo SUS (Sistema Único de Saúde), na maternidade de referência do Hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo. Em 2021, o convênio entre o hospital e a prefeitura foi encerrado. "Gostaria que mulheres negras pudessem ter bons hospitais para ter seus filhos."

Patrícia deseja ainda que elas encontrem acolhimento em seus parceiros ou parceiras. "Que tenham afeto e amor, porque é tão difícil a mulher negra ter isso", diz.

A cada cem lares brasileiros, 52 são chefiados por mulheres, em sua maioria pretas e pardas e com ensino superior incompleto, segundo o IBGE.

Os desejos das entrevistadas vão além dos próprios direitos reprodutivos. Elas querem que seus filhas e filhos tenham um caminho mais leve do que o vivido por elas.

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"Na última semana, levei minha filha a uma dentista que eu não conhecia. Só queria que ela arrancasse o dente. De repente, a dentista disse que não precisava de anestesia. Não sabia se era um novo método ou se ela achava que minha filha, por ser negra, não sentia dor", diz Bárbara.

"Eu queria ter paz para simplesmente ir a um lugar e minha filha arrancar o dente, sem precisar fazer várias elaborações sobre o que está acontecendo", afirma.

Patrícia deseja que os filhos tenham acesso a uma educação de qualidade e cresçam em um ambiente de afeto e acolhimento. Já a advogada Tulani Hipólito, 26, ainda não tem filhos, mas quer que eles tenham mais liberdade de escolha do que ela teve. "Desejo sonhos ambiciosos para meus filhos."

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Colaborou Havolene Valinhos

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Fonte: Saúde Brasil

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