São Paulo
Paraná
Santa Catarina
Por Luisa Purchio
Por Luisa Purchio
09/06/2026 às 10:36
09/06/2026 às 10:36
Ouça este conteúdo
O dono do Grupo Refit, Ricardo Andrade Magro, 51 anos, não estava no Brasil para acompanhar as notícias sobre a operação Sem Refino, que bloqueou R$ 52 bilhões em ativos e suspendeu as atividades do conglomerado de combustíveis, no mês passado.
Ele não retorna oficialmente ao Brasil desde 2018 e é considerado foragido internacional com Difusão Vermelha da Interpol, alerta global para localizar e prender fugitivos provisoriamente. Para alcançá-lo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chegou a pedir ajuda a Donald Trump. Magro reside nos Estados Unidos.
A operação Sem Refino expôs o tamanho do problema: o maior devedor de impostos do Brasil construiu, ao longo de décadas, uma suposta rede de proteção política que atravessa o Congresso Nacional e governos estaduais.
Além disso, Magro é suspeito de ter ligações com o crime organizado, hipótese apontada em investigação feita pela Polícia Federal na operação Carbono Oculto, que investiga o avanço do Primeiro Comando da Capital (PCC) no setor de combustíveis e no mercado financeiro para lavagem de dinheiro.
Refit acumula dívida bilionária com atuação em SP e RJ
Paulistano, formado em Direito pela Universidade Paulista (Unip) com especialização em direito tributário, Magro começou a carreira como advogado de postos de bandeira branca — aqueles sem exclusividade de marca.
A família controlava uma rede de postos da bandeira Esso, os postos Tigrão, que enfrentaram dificuldades nos anos 1990 com a reestruturação do mercado de combustíveis.
Em 2008, Magro assumiu o controle da refinaria de Manguinhos, na zona norte do Rio de Janeiro. À época, um dos centros de processamento mais antigos do país já estava mergulhado em dívidas de tributos e salários. O investimento para retomar as atividades foi de cerca de R$ 100 milhões, aplicados na modernização do parque de refino e estocagem.
Segundo a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), as dívidas do conglomerado Refit — somando empresa, distribuidoras vinculadas e pessoas físicas — totalizam R$ 52 bilhões, sendo 94% desse passivo, ou R$ 48,8 bilhões, concentrado na própria refinaria.
Segundo as Procuradorias-Gerais de São Paulo e Rio de Janeiro, a sonegação de ICMS soma R$ 24,4 bilhões nos dois estados, os mais afetados pelas operações do grupo. A estrutura do grupo envolve offshores em jurisdições de sigilo societário, trusts, fundos de investimento e empresas de fomento mercantil, segundo a decisão do STF.
De acordo com a PF, os fundos operavam para absorver créditos das distribuidoras e devolver recursos ao próprio grupo sob aparência lícita — mecanismo clássico de lavagem de capitais.
VEJA TAMBÉM:
Combustível supera cocaína e vira uma das maiores fontes de renda do crime organizado
Cláudio Castro concedeu benefício fiscal à refinaria já investigada
No último dia 15, agentes da Polícia Federal bateram à porta da residência do ex-governador fluminense Cláudio Castro (PL) num condomínio de luxo na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, para cumprir um mandado de busca e apreensão durante a operação Sem Refino.
Em outubro de 2025, Castro sancionou a lei complementar 225, apelidada pela própria Polícia Federal de “Lei Ricardo Magro”, pois as condições se amoldavam aos interesses do conglomerado Refit.
A legislação foi publicada um mês após a interdição do parque industrial da refinaria pela ANP e pela Receita Federal, e previa condições de parcelamento que podiam reduzir em até 95% a dívida da empresa com o estado. À época, a Refit já era investigada por suspeitas de fraude fiscal e lavagem de dinheiro.
Em nota à imprensa, a defesa de Castro afirmou que todos os procedimentos da gestão "obedeceram aos critérios técnicos e legais previstos na legislação vigente" e destacou que o governo conseguiu que a refinaria pagasse parcelas de dívidas num montante próximo a R$ 1 bilhão.
O ex-governador deixou o cargo em março de 2026, na véspera da condenação pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre abuso de poder nas eleições de 2022. Em vídeo publicado nas redes sociais, Castro anunciou a desistência da candidatura ao Senado.
"Resolvi retirar a minha candidatura ao Senado Federal para que eu possa focar completamente em minha defesa", afirmou. "Não tenho dúvida que a verdade será esclarecida", complementou.
Na operação Carbono Oculto, empresas do grupo Refit foram citadas em investigação sobre infiltração do PCC no setor de combustíveis — acusação que Magro nega. "Eu sou a pessoa que mais combateu o PCC", disse em entrevista à Folha de S.Paulo em setembro de 2025.
Procurados pela Gazeta do Povo, a Polícia Federal informou não se manifestar sobre investigações em andamento e o Ministério Público Federal afirmou não comentar processos em sigilo. A defesa de Ricardo Magro e o advogado Carlo Luchione, que representa o ex-governador Cláudio Castro (PL), não responderam até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto para manifestação.
VEJA TAMBÉM:
Jantares de luxo e degustação de uísque de US$ 1 milhão em NY: PF lista favores de Vorcaro a Castro
Senador apresentou emendas que beneficiariam grupo investigado
Em maio de 2025, a Refit patrocinou uma conferência no hotel St. Regis, em Nova York, com diárias acima de R$ 11 mil. O evento reuniu governadores cotados para a disputa presidencial de 2026 e autoridades dos três poderes — entre eles o senador Ciro Nogueira (PP-PI), presidente nacional dos Progressistas.
Meses antes, o senador havia apresentado emendas ao projeto de lei sobre o devedor contumaz que, de acordo com investigadores, dificultariam o enquadramento de empresas do setor de combustíveis na categoria. Nos bastidores do Legislativo, as propostas ficaram conhecidas como "emendas Refit". Nenhuma foi aprovada.
A investigação foi além do episódio em Nova York. A Polícia Federal identificou um pagamento de R$ 14,2 milhões de uma empresa ligada ao Grupo Refit para a Ciro Nogueira Agropecuária e Imóveis — empresa da família do senador.
Em nota divulgada à imprensa, Nogueira afirmou que o valor corresponde à venda regular de um terreno de mais de 40 hectares em Teresina, destinado à construção de uma distribuidora de combustíveis, declarada às autoridades, e que a participação na empresa era inferior a 1% à época. A PF analisa se a operação foi regular ou se serviu para ocultar eventual vantagem indevida.
A decisão do STF aponta ainda um segundo vínculo: Jonathas Assunção Salvador Nery de Castro, ex-secretário executivo da Casa Civil quando Nogueira era ministro e diretamente subordinado ao senador, recebeu cerca de R$ 1,3 milhão de empresas do Grupo Refit em poucas semanas — padrão que a decisão classifica como típico de empresa de passagem, sem despesas operacionais compatíveis com a atividade declarada.
Procurada pela Gazeta do Povo, a assessoria de imprensa do senador Ciro Nogueira não retornou até a publicação desta reportagem — o espaço segue aberto.
VEJA TAMBÉM:
Cinco fatos que justificam a classificação do PCC e CV como organizações terroristas
TSE mantém decisão que tornou Cláudio Castro inelegível até 2030
Castro atuou com Vorcaro para Rioprevidência aplicar R$ 3,6 bilhões no Master
Você pode se interessar
Servidores do BC citam Pix em pedido de avanço da PEC da autonomia
Servidores do BC citam Pix em pedido de avanço da PEC da autonomia
Custo de vida sobe e acumula alta de 4,61% em 12 meses, aponta FGV
Custo de vida sobe e acumula alta de 4,61% em 12 meses, aponta FGV
Henry Nowak: o jovem britânico que morreu por ser branco
Henry Nowak: o jovem britânico que morreu por ser branco
Enade usa questões ideológicas para avaliar novos professores
Enade usa questões ideológicas para avaliar novos professores
Deixe sua opinião
Encontrou algo errado na matéria?
Comunique erros
Use este espaço apenas para a comunicação de erros
Principais Manchetes
Contrato de R$ 50 milhões coincide com valor que Master devia ao escritório da mulher de Moraes
STF quer poder sobre eleições; acompanhe o Sem Rodeios
PF vê comitiva de advogados do Centrão na cela de Vorcaro; lista de visitas tem sigilo de 100 anos
Discurso histórico do Papa desafia governo espanhol sobre aborto e eutanásia
Tudo sobre:
combustíveis
Impostos
Polícia Federal
Receita Federal
Rio de Janeiro
Receba nossas notícias NO CELULAR
WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.
Fonte: Gazeta Brasil


