Por Fábio Galão
Por Fábio Galão
10/06/2026 às 21:46
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A Copa do Mundo de futebol de 2026 começa nesta quinta-feira (11) novamente com uma ausência que não deve ser sentida esportivamente, mas que chama a atenção em termos geopolíticos: a da China.
Apesar de ter a segunda maior economia e a segunda maior população do mundo, o gigante asiático não se classificou para o Mundial dos EUA, do México e do Canadá e segue tendo no currículo apenas uma participação na Copa do Mundo masculina, em 2002, quando foi eliminado na primeira fase com três derrotas e sem marcar gols, uma delas um 4 a 0 para o Brasil.
Em 2011, um ano antes de assumir o comando do regime chinês, o ditador Xi Jiping disse que tinha “três desejos” no futebol: que a China se classificasse novamente para a Copa do Mundo masculina (na feminina, é presença frequente, e chegou a ficar entre os quatro primeiros duas vezes); que o país sediasse o torneio; e fosse campeão.
Em 2016, a Associação Chinesa de Futebol delineou uma estratégia para transformar o país num gigante da modalidade, estabelecendo metas como ter 70 mil campos de futebol espalhados pela China e 30 milhões de crianças em idade escolar praticando o esporte até 2020.
Porém, uma reportagem da semana passada da emissora americana CNN mostrou que a China não chegou nem perto desses objetivos: o país possui atualmente cerca de 980 mil jogadores registrados e 40 mil equipes em nível amador, enquanto a Inglaterra, com uma população muito menor, tem mais jogadores registrados e três vezes mais times.
Dados oficiais apontam que o futebol não é sequer um dos seis esportes mais populares da China, ficando atrás de modalidades pouco populares em outros países, como badminton e ciclismo.
Não faltou dinheiro para tentar tirar a China da lista dos países pernas de pau. As equipes da Superliga Chinesa gastaram bilhões de dólares a partir de 2015 e transformaram o campeonato local numa constelação de astros, como o argentino Carlos Tévez e os brasileiros Oscar e Hulk, e o técnico italiano Marcello Lippi e o brasileiro Luiz Felipe Scolari, campeões do mundo com as seleções dos seus países, treinaram o então grande time chinês, o Guangzhou Evergrande.
Porém, segundo analistas, o objetivo das grandes incorporadoras que mantinham a maioria dos times da Superliga Chinesa não era tanto desenvolver o futebol local, mas usar a influência do esporte para ter acesso a vantagens dentro da ditadura comunista, como empréstimos e terrenos.
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“Nunca se tratou de futebol. Sempre se tratou de estabelecer uma relação mais próxima com o governo”, disse à CNN Tobias Ross, autor de um livro sobre os bastidores do falso boom do futebol chinês.
Como resultado, a maioria dos times da liga operava no vermelho e a crise imobiliária que atingiu a China nos últimos anos foi o tiro de misericórdia. Mais de 40 clubes fecharam as portas e o caso mais exemplar foi o do Guangzhou Evergrande.
O octacampeão da Superliga Chinesa e bicampeão da Liga dos Campeões da Ásia foi ferido de morte pela falência da gigante do setor imobiliário Evergrande. No início de 2025, o clube foi impedido pela Associação Chinesa de Futebol de participar de competições profissionais devido às suas imensas dívidas. Como resultado, o clube foi extinto.
Outro forte golpe no futebol chinês foram as denúncias sobre manipulação de resultados, envolvimento em esquemas de apostas e corrupção. Este ano, nove equipes começaram a temporada da Superliga Chinesa com pontuação negativa devido à participação nas irregularidades. Outras quatro foram rebaixadas pelo mesmo motivo.
Mais de 70 pessoas envolvidas foram banidas do futebol, entre eles, Li Tie, ex-jogador e ex-técnico da seleção da China e que em 2024 havia sido condenado a 20 anos de prisão por subornos.
Em artigo para a revista inglesa The Economist, Mark Dreyer, fundador e editor da consultoria China Sports Insider, escreveu que os “escândalos de corrupção, interferência política e uma filosofia de futebol imposta de cima para baixo em vez de construída de baixo para cima” levaram ao fiasco chinês na modalidade.
“Sob o governo de Xi Jinping, o futebol se tornou um projeto político completo, com metas, slogans e diretrizes oficiais. A China consegue produzir em massa veículos elétricos de alta qualidade. Isso é mais difícil com jogadores de futebol”, ironizou.
“Covid Zero” também freou plano da China para o futebol, diz analista
Em entrevista à Gazeta do Povo, Rodolfo Coelho Prates, professor do curso de ciências econômicas da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), disse que o plano chinês de se tornar uma potência futebolística esbarrou em problemas estruturais, como a “forte ênfase na construção de estádios e na contratação de jogadores renomados de países estrangeiros, sem que se consolidasse uma cultura futebolística comparável à existente em países como Brasil, Argentina, Alemanha ou Espanha”.
“Segundo, a formação de base não evoluiu na velocidade esperada. Embora milhares de escolas tenham incorporado o futebol aos currículos, criar uma geração de jogadores com alta performance exige décadas de desenvolvimento, treinadores qualificados e competições juvenis e profissionais consistentes”, disse Prates, que acrescentou que o foco em contratações caras, sem o mesmo investimento na formação de jogadores locais, fez com que a qualidade da seleção chinesa não acompanhasse os gastos realizados.
Outro ponto citado pelo especialista foi a política chinesa de “Covid Zero”, quando o país impôs alguns dos lockdowns mais severos do mundo entre 2020 e 2022.
“As consequências para o futebol foram diversas, como campeonatos disputados em ‘bolhas sanitárias’; jogos sem público durante longos períodos; dificuldades para contratar e manter jogadores estrangeiros e treinadores. No entanto, a pandemia deve ser vista mais como um agravante do que como a causa principal do fracasso do projeto”, disse.
O especialista afirmou que a crise do setor imobiliário e as investigações sobre corrupção, manipulação de resultados e apostas ilegais geraram uma necessidade de reestruturação na Superliga Chinesa que pode render resultados mais sustentáveis, porém, mais demorados.
“Hoje, a tendência parece ser outra: uma liga financeiramente mais sustentável, com maior controle de gastos, menos estrelas estrangeiras e foco gradual na formação local. No entanto, parece ser um caminho mais natural, o que demanda um período de tempo muito maior, podemos dizer décadas e não anos, como o governo pretendia”, enfatizou Prates.
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Fonte: Gazeta Mundo


