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Putin enfrenta crises e imagem de líder forte da Rússia começa a ceder

Por John Lucas

Por John Lucas

08/05/2026 às 21:37

08/05/2026 às 21:37

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O tradicional desfile militar do Dia da Vitória na Rússia, realizado neste sábado (9) na Praça Vermelha, em Moscou, ocorrerá sem exibição de equipamentos militares e com a menor presença de líderes estrangeiros da história recente do país. A parada esvaziada reflete um cenário inédito vivido pelo ditador russo, Vladimir Putin: pela primeira vez em mais de duas décadas no poder, ele enfrenta simultaneamente uma economia em recessão, queda de popularidade e um ambiente de insegurança que o levou a se entrincheirar em bunkers reforçados.

A ausência dos blindados e armamentos foi justificada pelo Ministério da Defesa russo pela "situação operacional atual" – um eufemismo para os ataques ucranianos com drones, que atingem o território russo com frequência crescente, inclusive a capital. Na segunda-feira passada (4), por exemplo, um drone ucraniano atravessou as defesas aéreas de Moscou e atingiu um prédio de luxo a seis quilômetros do Kremlin.

A imprensa internacional também foi, em grande parte, impedida de cobrir o evento presencialmente, que será transmitido em grande parte pela mídia estatal russa. Entre os poucos líderes internacionais confirmados na cerimônia estão o ditador de Belarus, Alexander Lukashenko, o rei da Malásia, sultão Ibrahim Iskandar, e o líder do Laos, Thongloun Sisoulith. Já os ditadores da China, Xi Jinping, e Kim Jong-un, da Coreia do Norte não devem participar.

Em entrevista à emissora britânica BBC, o deputado russo Yevgeny Popov, aliado de Putin, tentou justificar a ausência dos blindados na parada: "Nossos tanques estão ocupados agora. Estão lutando. Precisamos deles mais no campo de batalha do que na Praça Vermelha", disse.

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Aprovação de Putin recuou nos últimos meses

O índice de aprovação do regime de Putin na Rússia, embora alto para padrões ocidentais, está em queda. Na última semana de abril, o apoio ao governo atingiu o menor patamar desde o início da invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022.

Pesquisa divulgada pela Fundação de Opinião Pública – instituto que passou a ser priorizado na imprensa alinhada ao regime – mostra que 73% dos russos avaliam o desempenho do ditador no poder como "satisfatório", um recuo de três pontos percentuais na comparação com a sondagem do começo de abril, igualando o piso histórico de popularidade registrado no fim de fevereiro de 2022, nos primeiros dias da ofensiva contra Kiev. A parcela que avalia o regime de Putin como "insatisfatório" subiu de 11% para 13%, e os que dizem não confiar no ditador chegaram a 17%, alta de três pontos.

Já o Centro Russo de Pesquisa de Opinião Pública, instituto estatal, apresenta uma queda mais aguda na aprovação de Putin: o índice caiu de 77,8% no início do ano para 65,6% no fim de abril, recuo de mais de 12 pontos e o menor nível desde antes do início da guerra.

A queda na popularidade de Putin ocorre em meio a uma combinação de pressões econômicas, sociais e políticas.

A economia russa, afetada pelas sanções ocidentais decorrentes da invasão à Ucrânia, entrou em recessão nos dois primeiros meses do ano, com retração de 1,8% do Produto Interno Bruto (PIB), dado reconhecido pelo próprio ditador.

Ao mesmo tempo, medidas de controle digital, como os bloqueios de aplicativos de mensagens e os apagões recorrentes da internet móvel, ampliaram a insatisfação e levaram até influenciadores antes distantes da política a romper o silêncio.

A oposição tolerada pelo Kremlin também passou a fazer alertas públicos sobre o risco de uma “repetição de 1917”, em referência à revolução comunista russa, reforçando os sinais de tensão dentro do próprio sistema político controlado por Moscou.

Economia em recessão expõe o Kremlin

A admissão pública de que a economia russa está patinando veio do próprio Putin. Ele reconheceu que o PIB do país recuou 1,8% nos dois primeiros meses de 2026 e cobrou explicações dos auxiliares sobre por que os indicadores macroeconômicos estavam abaixo do esperado.

Integrantes do alto escalão russo têm admitido o agravamento do cenário econômico. O vice-chefe de gabinete da Presidência, Maxim Oreshkin, falou em uma “situação muito difícil”, marcada por escassez de mão de obra, lentidão das mudanças estruturais e entraves tecnológicos, enquanto o ministro do Desenvolvimento Econômico, Maxim Reshetnikov, afirmou que as reservas que sustentaram o crescimento durante a guerra estão "amplamente esgotadas".

Segundo o economista russo Vladislav Inozemtsev, em análise publicada no portal Riddle Russia, o aumento das receitas de petróleo e gás – impulsionado pela alta dos preços do barril devido ao conflito entre Estados Unidos e Irã – não está gerando crescimento real na economia russa. Ele explicou que o dinheiro que entra nos cofres do país não está se transformando em investimento nem em consumo, porque acaba sendo usado para cobrir dívidas e ajustar contas.

Em entrevista ao jornal britânico Financial Times, o tenente-general Thomas Nilsson, chefe do Serviço de Inteligência Militar e Segurança da Suécia, afirmou que a Rússia precisaria manter o preço do petróleo Urals, principal mistura exportada pelo país, acima de US$ 100 (R$ 498, na cotação mais recente) o barril por um ano apenas para fechar o déficit fiscal – e por muito mais tempo para resolver os demais problemas estruturais.

Nilsson também disse que Moscou manipula sistematicamente dados para enganar os aliados ocidentais de Kiev, e que a inflação real no país estaria mais próxima de 15% ao ano do que dos 5,86% oficiais. Conforme o chefe da inteligência militar sueca, a economia russa caminha para um de dois cenários: declínio prolongado ou choque financeiro.

De acordo com levantamento do think tank Jamestown Foundation, quase 30% das empresas russas operaram no prejuízo em 2025, com perdas estimadas em 7,5 trilhões de rublos (cerca de US$ 100 bilhões ou R$ 500 bilhões).

O desequilíbrio fiscal também atingiu as administrações públicas locais russas, que encerraram 2025 com um déficit orçamentário de 1,5 trilhão de rublos (R$ 97,9 bilhões) – valor cinco vezes superior à previsão inicial do Ministério das Finanças.

Aumento do controle sobre a internet gera insatisfação

O bloqueio de aplicativos de mensagens e os apagões recorrentes da internet móvel no país serviram de estopim nos últimos meses para uma onda incomum de manifestações contra Putin desde o início da invasão russa à Ucrânia.

O regime decidiu bloquear o WhatsApp e o Telegram, que é utilizado por mais de 100 milhões de russos mensalmente para comunicação pessoal, notícias e transações comerciais. O acesso ao YouTube foi restrito e há apagões periódicos da internet móvel em grande parte do território russo, com o objetivo de empurrar a população para o aplicativo estatal MAX, que não tem criptografia e é de fácil monitoramento pelas autoridades.

As primeiras manifestações contra as restrições ocorreram em 2025, após o bloqueio de chamadas de voz no Telegram e no WhatsApp. Segundo o portal independente Meduza, em algumas cidades os atos foram os primeiros autorizados pelas autoridades em anos.

Com o endurecimento das medidas em 2026, a insatisfação cresceu e alcançou influenciadores com milhões de seguidores e sem histórico de posicionamento político, que passaram a criticar publicamente os bloqueios digitais e o distanciamento entre o Kremlin e a população.

Conforme análise do cientista político Mikhail Komin, do think tank Centro de Análise de Política Europeia, em declaração ao jornal The New York Times, "as restrições à internet fizeram um grande número de pessoas se voltar contra a classe dirigente, se não contra o próprio Putin pessoalmente".

A insatisfação atingiu até parlamentares fiéis ao regime russo. Vyacheslav Gladkov, governador da região de Belgorod, alvo de ataques frequentes da Ucrânia, declarou em suas redes sociais estar preocupado com o impacto das restrições ao Telegram sobre a vida de moradores que dependem do aplicativo para alertas de ataques aéreos. O Partido Comunista Russo, segundo o deputado Alexander Yushchenko, tem sido "inundado por queixas vindas de todo o país" por causa dos bloqueios.

Ameaças no Parlamento

Em meio a esse cenário pessimista, o líder do Partido Comunista, Gennady Zyuganov, fez um alerta incomum. Na tribuna da Duma – a câmara baixa do Parlamento russo – ele afirmou que, se medidas urgentes não forem adotadas, “no outono [leia-se, até o final deste ano] enfrentaremos o que aconteceu em 1917”. A fala faz referência à queda do czar Nicolau II e à tomada do poder pelos comunistas liderados por Vladimir Lenin.

Embora o Partido Comunista da Rússia neste momento faça parte da chamada “oposição sistêmica” tolerada pelo Kremlin, o tom do discurso chamou atenção por expor tensões que raramente aparecem de forma tão explícita dentro da estrutura política russa.

A especialista russa Tatiana Stanovaya escreveu, em artigo publicado no site Carnegie Russia Eurasia Center, que Putin enfrenta um cenário de desgaste interno e divisão crescente dentro da elite, com sinais de enfraquecimento da autoridade que sustentou seu regime por mais de duas décadas.

Pavel Baev, professor e pesquisador do Instituto de Pesquisa para a Paz de Oslo, afirma que Putin lida com a crise russa de modo semelhante aos últimos anos da União Soviética, quando o regime admitia apenas “pequenas deficiências”. Segundo ele, há hoje “um coro dissonante, mas cada vez mais alto” tentando alertar o líder russo de que a situação é mais grave do que seus subordinados ousam relatar.

Bunkers, vigilância e medo de golpe: guerra gera paranoia em Putin

A guerra na Ucrânia, os problemas de popularidade e os alertas vindos até da “oposição” tolerada passaram a alimentar um ambiente de paranoia em torno de Putin. É o que mostra um relatório de uma agência de inteligência europeia obtido pela emissora americana CNN, segundo o qual o Kremlin reforçou drasticamente a segurança pessoal do ditador e de seus auxiliares mais próximos diante de temores de assassinato, ataques de drones e até golpe interno.

De acordo com o documento, sistemas de vigilância foram instalados nas casas dos assessores mais próximos do ditador; cozinheiros, guarda-costas e fotógrafos que trabalham com Putin foram proibidos de usar transporte público; visitantes passam agora por duas revistas; e auxiliares próximos ao líder russo só podem usar telefones sem acesso à internet.

O número de locais frequentados regularmente por Putin também foi reduzido. O ditador e a família deixaram de ir a residências habituais na região de Moscou e a Valdai, a propriedade isolada de verão entre São Petersburgo e a capital.

O medo de ser alvo de ataques também fez Putin, segundo o relatório, não visitar nenhuma instalação militar russa neste ano. O relatório também aponta que o ditador tem passado semanas em bunkers reforçados, principalmente em Krasnodar, na região do Mar Negro.

O reforço na segurança de Putin ocorre após figuras de alto escalão do Kremlin terem sido mortas em ataques ucranianos. Em 22 de dezembro do ano passado, o tenente-general Fanil Sarvarov, de 56 anos, membro do Estado-maior responsável pelo departamento de treinamento operacional das forças russas, foi morto em Moscou quando seu carro explodiu logo após dar a partida. Segundo as informações, um dispositivo improvisado havia sido colocado sob o veículo, próximo ao banco do motorista. Investigadores russos atribuíram o ataque aos serviços secretos ucranianos.

Foi o terceiro assassinato de um oficial superior russo desde o início da guerra. Um ano antes, em dezembro de 2024, o tenente-general Igor Kirillov, chefe das Tropas de Proteção contra Armas Nucleares, Biológicas e Químicas do exército russo, também havia sido morto em Moscou em um ataque atribuído à Ucrânia – caso que o próprio Putin classificou como "falha grave" do aparato de segurança russo.

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Fonte: Gazeta Mundo

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