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Cristão pode fazer terapia? Por que relação entre fé evangélica e a psicologia é tão polêmica

Em um vídeo com milhares de visualizações no YouTube, o pastor Rodrigo Mocellin diz que a psicologia está "contra o cristianismo", e não ao lado.

"Estão no mesmo campo de batalha, mas batalhando um contra o outro", argumenta o líder da Igreja Resgatar, que tem quase 640 mil seguidores na plataforma de vídeos.

"É óbvio que a fé cristã não pode ter parceria com a psicologia. São como água e óleo. Não tem como andar junto."

Em outro vídeo, César Augusto, pastor da Igreja Apostólica Fonte da Vida, diz que as pessoas "podem frequentar psicólogo ou seja lá o que for".

Mas recomenda aos quase 200 mil seguidores ali: "Já experimentou ter o momento de uma consulta com o maior psicólogo do mundo, que é Jesus?".

Em post publicado em seu canal, o bispo Walter McAlister, da Igreja Cristã Nova Vida, até reconhece que "a psicologia tem ajudado muito o ser humano". Mas faz uma ressalva.

"Recomendaria que [o cristão] consultasse um psicólogo que também fosse cristão. Porque esses conflitos não resolvidos não podem ser fundamentados apenas em comportamento, traumas de infância ou desejos enrustidos. Alguns são de ordem espiritual."

Pastor evangélico, o senador Magno Malta (PL-ES) é autor de uma proposta, atualmente em consulta pública, para instituir no Senado uma Frente Parlamentar em Defesa da Liberdade Religiosa dos Psicólogos Cristãos.

Um dos pontos de seu projeto é que seja instaurada uma mobilização para que sejam combatidas o que ele chama de "medidas normativas que imponham restrições desproporcionais ao exercício profissional em razão de convicções religiosas".

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O Conselho Federal de Psicologia diz que acompanha os debates sobre fé e a prática profissional e afirma ter um compromisso com o respeito à diversidade de crenças e convicções.

Mas ressalta que nenhum profissional da área deve se apresentar como "psicólogo cristão" para não "levar à crença equivocada de que a prática é exclusivista ou baseada em dogmas, o que contraria a universalidade e a laicidade da ciência psicológica".

A relação entre cristianismo e psicologia sempre teve suas arestas. Para especialistas, a dificuldade desse diálogo nasce justamente da concorrência do objeto tratado por ambas as searas: a psiquê ou a alma humana.

O título do vídeo do pastor Mocellin é emblemático: "Psicologia e fé cristã: irreconciliáveis". Ele é taxativo. Diz que a psicologia é "o homem dizendo que não precisamos da Bíblia" e que essa ciência não passa de "doutrina de demônios".

"A Bíblia diz que ansiedade é pecado. A psicologia diz que é transtorno", argumenta.

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"Só a Bíblia pode desnudar a alma humana. [O pai da psicanálise, Sigmund] Freud se considerava aquele sujeito que veio para desvendar a alma humana."

Autor do recém-lançado livro 'Cristianismo Leve' e pastor na Igreja Batista Filadélfia, o teólogo Pedro Pamplona entende que terapias psicológica ou psicanalítica podem ser complementares ao trabalho espiritual no cuidado com a mente humana.

Mas, para ele, essa interface tem limites. Ele vê "incompatibilidades" entre a atuação do terapeuta e o aconselhamento religioso. "A Bíblia tem uma antropologia própria, que chamamos de antropologia cristã."

Maneira própria

Pamplona defende que sua religião tem uma forma de entender o ser humano e suas questões que foi dada por uma revelação de Deus.

"Essa antropologia cristã influencia o modo como cuidamos das pessoas, como entendemos seus propósitos de vida, o efeito do pecado em suas vidas e como lidamos com a diversidade de seus pensamentos, emoções e questões", explica o pastor.

As diferentes psicoterapias abordam o ser humano a partir de uma perspectiva conflitante com o que determina sua fé, diz ele.

"Essas antropologias podem ser bem distintas da antropologia cristã e, por isso, a abordagem clínica pode ser tornar incompatível com a fé cristã", pondera.

"Visões diferentes nas antropologias geram fundamentos éticos e valores de vida diferentes. O psicólogo não deve fazer proselitismo religioso em seu ambiente de trabalho, mas, mesmo sem essa prática, ele pode ir contra o padrão de vida que a Bíblia orienta para seus seguidores."

É uma questão permeada por valores. O pastor lembra que muitas vezes aquilo que é "normal ou natural" para a psicologia, é "pecado" para os religiosos.

Então, ele argumenta que o profissional da psicologia pode acabar "incentivando" o paciente "a fazer coisas que a Bíblia proíbe".

Para a psicóloga e psicanalista Beatriz Breves, autora do livro 'Eu Fractal – Conheça-te a Ti Mesmo', não deveria haver motivos para essa dificuldade de conciliação.

"A psicoterapia é um processo de ampliação de autoconhecimento. Quando a pessoa está segura em sua fé religiosa, não há incompatibilidade, ou seja, a psicoterapia não interfere na fé, nem a fé impede o processo terapêutico", diz Breves.

"A verdadeira incompatibilidade surge quando a pessoa não dispõe de abertura para se implicar no próprio processo, o que não tem relação com religião, mas com a disponibilidade interna necessária para que a terapia aconteça."

Embora o processo terapêutico leve a pessoa a confrontar seus valores, isso não cria incompatibilidade, defende a psicóloga.

"A fé não impede o questionamento, pelo contrário. Quando alguém pode interrogar a própria fé e, ainda assim, reconhecer que ela permanece, a fé se fortalece", diz Breves.

"O questionamento não a enfraquece, a torna mais consciente. E é justamente nesse movimento que o equilíbrio se torna possível."

Cristão pode fazer terapia?

Para o teólogo e historiador Gerson Leite de Moraes, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie, a dificuldade de conciliação entre psicologia e religião está em uma suposta concorrência entre ambos.

"Os líderes religiosos que querem combater a psicanálise e a Psicologia estão lutando por uma reserva de mercado. Eles querem ter o direito de ser os conselheiros espirituais dessas pessoas. Para isso, demonizam a psicologia."

Moraes pontua que essa leitura é comum a segmentos teológicos fundamentalistas, quando o pastor tende a orientar que a solução para qualquer problema "está na Bíblia".

"Eles transformaram a Bíblia em um livro mágico. E a Bíblia não é isso. Mas isso funciona no campo subjetivo para eles", critica o teólogo.

"Há esferas de atuação. Padres e pastores podem continuar orientando seus fiéis, mas isso é em aliança, sem nenhuma incompatibilidade com outras formas de tratamento. Deve se desejar a melhora do fiel."

O pastor Pamplona não concorda com religiosos que dizem que "cristão não deve fazer terapia", embora reconheça que seja uma visão que esteja "ganhando adeptos" ultimamente.

Para ele, esse tipo de pregação revela "ignorância geral sobre o tema da saúde mental".

O religioso explica que a confusão se dá por conta de uma doutrina cristã chamada de "suficiência das Escrituras".

Tal entendimento advoga que a Bíblia seria suficiente para lidar com tudo o que tange ao ser humano.

Pamplona acredita que a interpretação correta é que o livro sagrado resolve tudo o que é "suficiente para a salvação" do ser humano, mas não os problemas desses em sua totalidade.

"É claro que a Bíblia tem princípios que norteiam toda nossa vida, mas, quando precisamos de ajuda profissional especializada, procuramos por médicos, dentistas, psicólogos ou qualquer outro profissional", diz o pastor.

"Portanto, fazer uso da psicologia ou da medicina não significa ser contra a suficiência das escrituras, pois a Bíblia nunca se propôs a ser um manual médico ou de psicologia. Novamente, essas coisas podem se complementar."

Há um efeito colateral desse entendimento restritivo, afirma o pastor. Muitos cristãos que precisam recorrer a tratamentos psicoterapêuticos acabam se sentindo culpados por fazerem isto. De certa forma, isso deixa seu fardo ainda maior.

A escritora Magali Leoto, integrante da associação Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos, diz que a crença de quem professa essa fé não pode fazer terapia é compartilhada por alguns grupos religiosos.

"Mas é importante entender que psicologia é uma ciência e tem critérios técnicos para embasar suas práticas e conclusões", afirma Leoto, que é missionária na Igreja Batista de Água Branca e na Igreja Batista Memorial de Alphaville.

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Terapeutas cristãos

Na psicologia, há um vasto campo daqueles que são assumidamente cristãos.

Professor na Faculdade São Basílio Magno, o psicólogo Pierre Patrick Pires é fundador da empresa Atos 20, uma consultoria de psicologia especializada em tratar saúde mental em contextos religiosos, especialmente no meio católico.

Para ele, psicologia e fé precisam ser compreendidas "como campos distintos, mas não opostos". A primeira seria uma ciência voltada a um compromisso ético e ao cuidado da saúde mental. Já a outra está interessada no sentido da vida e na espiritualidade.

"A psicologia não precisa negar a fé para ser científica. Nem a fé precisa negar a psicologia para ser autêntica", resume Pires.

Na visão dele, a psicoterapia precisa "acolher" a religiosidade do paciente "como parte de sua história e identidade". Sem induzi-la. Aí reside um "diálogo ético no processo clínico".

"As incompatibilidades surgem quando há confusão das funções. A psicologia deixa de ser ética quando ela tenta substituir a religião e impor valores morais e doutrinários", diz Pires.

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"Da mesma forma, a fé se fragiliza quando tenta negar a subjetividade humana, o sofrimento psíquico, os processos mentais, e substituir o cuidado psicológico com respostas exclusivamente espirituais."

O psicólogo diz que um discurso que demoniza a psicologia "é preocupante", porque pode "gerar culpa, silenciamento no sofrimento psíquico e atraso para buscar uma ajuda profissional diante da necessidade".

Por conta disso, muitos acabam encarando o sofrimento psicológico como "fracasso espiritual", explica Pires.

Em sua dissertação de mestrado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, a psicóloga Andréia Aparecida de Melo Coliath concluiu que, em geral, pessoas cristãs preferem profissionais de psicologia também cristãos.

Compartilhar do mesmo universo de referências conferiria uma maior garantia de respeito por suas experiências religiosas, suas crenças e os significados que isso tudo tem para sua existência.

Pires não acha relevante que um cristão procure um profissional que seja necessariamente também cristão.

"O critério deve ser a formação, a competência técnica e o compromisso ético desse profissional. Sendo cristão ou não, um psicólogo tem o compromisso de respeitar a singularidade de cada paciente."

O pastor Mérlinton de Oliveira é psicólogo e teólogo e tem visão semelhante. "Se um cristão encontra um profissional assim, ético, mesmo não sendo também um cristão como ele, será bem acolhido em sua pessoalidade", analisa Oliveira.

Para Oliveira, a terapia "é compatível com as experiências espirituais e religiosas".

"Uma condição psicoemocional saudável e equilibrada é essencial para a devida experiência religiosa saudável, bem como uma experiência saudável é uma prática que colabora com um bem-estar psicoemocional", diz Oliveira, que é professor na Faculdade Adventista do Paraná,

Cada prática tem seus próprios métodos, ressalta o pastor. "Enquanto a prática religiosa é exercida sob a perspectiva da fé, dos ritos sacros, da relação transcendental, do uso de escritos sagrados, entre outras, a prática terapêutica se dá sob a perspectiva das técnicas científicas, do uso de instrumentos elaborados e validados humanamente, de elaborações teóricas desenvolvidas ao longo do tempo, entre outras."

Ele defende que a psicologia e a fé são complementares. "Contudo, é necessário ter prudência para que uma prática não diminua a importância da outra, afinal, embora possam ter metodologias próprias, ao final ambas atuam visando a um objeto em comum, o ser humano", afirma Oliveira.

Ele lembra que, em um encontro terapêutico, se houver formas distintas de ver a vida e o mundo, o código de ética da profissão ensina que "o terapeuta deve respeitar a realidade do seu cliente". Para ele, isso "deveria tranquilizar um cristão ao buscar esse profissional".

A psicóloga e missionária Leoto afirma que ela e seus colegas "têm enfrentado" dificuldades dentro da sua profissão. Ela comenta que a relação com o Conselho Federal de Psicologia e os profissionais cristãos é de "um equilíbrio institucional".

"Mas algumas controvérsias têm acontecido. Em alguns momentos, as normas dos conselho podem ser interpretadas como limitadoras", diz Leoto.

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Por exemplo, temos como regra que não podemos manifestar publicamente nossa fé em redes sociais. Se eu mostrar que sou uma psicóloga cristã, alguém pode me denunciar."

Mas, na prática, ela vê mais convergência do que divergência entre uma coisa e outra.

"Tanto a psicologia quanto a fé bíblica se encontram em alguns sentidos e alguns movimentos e algumas interfaces", argumenta Leoto.

Para ela, se a psicologia "está em busca do sentido e da compreensão do ser humano" e "Deus é quem criou o ser humano e conhece todo o potencial do ser humano", esta intersecção é inevitável. "A psicologia não descobriu a roda", comenta.

"Muito do que eu aprendi na faculdade, muitos conceitos, já estavam na Bíblia. E aparecem no meu dia a dia, na prática da terapia", diz ela, pontuando que tanto a Psicologia quanto a fé "trazem esperança e caminhos, inclusive metodológicos, para a restauração e a ressignificação de conflitos e problemas".

Ela defende ser preciso cuidado para que o atendimento não seja enviesado. "Ética bíblica e ética psicológica se complementam, mas não podem se confundir", afirma.

Fonte: Saúde Brasil

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