“Queria que tudo voltasse ao normal, que fosse apenas um pesadelo. Mas, infelizmente, não é assim”. O desejo de Yara Garcia, de 25 anos, contrasta com a dura realidade. Uma semana após as fortes chuvas que provocaram deslizamentos e mataram 65 pessoas em Juiz de Fora — sendo 17 delas familiares da jovem —, moradores buscam forças para retomar a rotina. Contudo, as lembranças da noite de 23 de fevereiro ainda estão longe de serem superadas.
A lama que antes tomava conta de diversos bairros do município da Zona da Mata mineira agora dá lugar à poeira, que já causa problemas respiratórios em parte da população. Por onde se caminha na cidade, o cenário é de reconstrução dolorosa: moradores limpam suas casas e descartam itens que foram fruto de anos de trabalho.
Yara estava em casa quando o mar de lama destruiu tudo. Sentada diante do que restou de sua moradia no Parque Burnier — local com o maior número de mortos (22) —, seus olhos vermelhos pela privação de sono e pelo choro incessante dão a dimensão da dor.
“Eu lembro de tudo porque estava dentro de casa. Escutei os barulhos e saí correndo. Consegui salvar apenas quem morava no mesmo terreno que eu. Tentamos ajudar os outros, mas não conseguimos. Os sobreviventes estão no hospital, entre a vida e a morte. Está muito difícil”, desabafa a jovem, que perdeu irmãos, avós e tios.
Desde a catástrofe, a empregada doméstica Nathalie de Moraes, de 39 anos, afirma que o bairro perdeu sua identidade. “Essa família que se foi era a mais animada do Burnier. O coração do nosso bairro foi embora. Agora é um deserto, um silêncio triste. Onde havia casas, hoje não há nada. A visão é de destruição total. Só consigo pensar nas vidas que não voltam mais”.
A dor da despedida
Perder vizinhos e amigos de longa data é uma das etapas mais cruéis deste processo. O bombeiro hidráulico Adilson de Oliveira Santana, de 54 anos, conhecia o casal Antônio e Concebida “desde que se entende por gente”. Eles morreram soterrados no bairro.
“Confesso que, depois que eles foram encontrados, o bairro sentiu uma paz melancólica, pois estávamos angustiados com as buscas. Tentamos retomar a rotina devagar, mas cada vez que olhamos para o barranco e vemos a destruição, o sentimento de perda retorna”, conta Adilson. Ele recorda que o Sr. Antônio mantinha a tradição de distribuir vinho aos adultos e brinquedos às crianças no fim de ano. “Eles tinham um carinho enorme por todos nós. É a essa lembrança amorosa que nos apegamos para seguir em frente”.
O medo do amanhã
Diante de uma tragédia sem precedentes, o temor de novos desastres assombra os sobreviventes. No Parque Burnier, muitos abandonaram suas casas para buscar refúgio com amigos e parentes. Rômulo Garcia Neta, de 34 anos, colocou o que pôde no carro e deixou a casa alugada onde vivia com a esposa e os três filhos.
“Não consigo pensar no amanhã. O foco agora é apoiar quem está sofrendo. No futuro a gente pensa em reconstruir, mas hoje não há certeza de nada”, lamenta.
Para a pensionista Cláudia da Silva, de 51 anos, a casa que era sinônimo de acolhimento tornou-se fonte de pavor. Além do risco geológico, ela teme o esquecimento público. “Agora tudo isso dá audiência, mas daqui a duas semanas ou um mês, ninguém mais lembrará. Nos sentimos abandonados. Vou para a casa de uma amiga porque não me sinto segura; não durmo há uma semana. Nosso bairro querido agora é sinônimo de morte”, afirma, emocionada.
O esvaziamento da região também é sentido pelo comerciante David Costa, de 39 anos. Com as vendas em queda livre e a vizinhança debandando, ele descreve o sentimento de impotência. “Olhamos para os escombros e vemos a morte. Esses destroços trazem agonia. Eu nasci e fui criado aqui, nunca imaginei algo assim. Parece um eterno pesadelo”.
Enquanto as máquinas da prefeitura ainda removem a terra e o entulho, o que resta em Juiz de Fora é uma lacuna impossível de preencher. O luto das famílias se mistura à incerteza sobre o futuro habitacional da região. Mais do que obras de infraestrutura e contenção de encostas, a cidade agora demanda um longo e delicado processo de assistência psicológica e social para que, um dia, o silêncio deixe de ser sinônimo de trauma e passe a ser apenas o respeito à memória de quem partiu.


