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Sobreviventes de temporal que matou 72 pessoas na Zona da Mata têm risco de adoecimento mental

Moradores de Juiz de Fora convivem com pesadelos e medo: ‘Barulho de chuva é terror’, diz motoboy

Da janela de casa, o aposentado José Joaquim de Freitas, de 74 anos, ainda tenta compreender a mudança brusca na paisagem ao redor. Para qualquer lado que se olhe, o verde típico das montanhas deu lugar à terra vermelha que deslizou dos morros durante o temporal de 23 de fevereiro, que matou 72 pessoas na Zona da Mata mineira. Morador do bairro Alto Grajaú, em Juiz de Fora, ele não perdeu a casa nem precisou sair dela, mas, diante de tudo o que viu, convive desde então com a sensação de insegurança. O que antes era refúgio, hoje também carrega medo.

Após um longo suspiro, com os olhos cheios de lágrimas, ele resume o que ficou: “É um trauma. Foi muito difícil ver tudo descendo, isso mexe com a gente. Minha filha também está traumatizada. Quando começa a chover, ela chora, já teve crise de ansiedade”, desabafa o idoso, que vive há 40 anos no local.

O depoimento de José Joaquim reflete um sentimento coletivo que toma conta de boa parte da população afetada direta ou indiretamente pela catástrofe na Zona da Mata. Em meio ao luto e à dor pelos mais diversos tipos de perda, surgem sinais daquilo que psicólogos classificam como reação aguda ao estresse. Uma situação que, se não for tratada adequadamente, pode se tornar crônica e se transformar efetivamente em trauma. “Nas primeiras semanas, é muito comum a gente observar nas pessoas medo intenso. Aquela hipervigilância, ou seja, esse medo de barulho de chuva, ou medo de um ruído estranho, ou medo de que alguma coisa possa acontecer”, esclarece Cláudio Paixão, doutor em psicologia social.

O especialista explica que reações do tipo são observadas com frequência após catástrofes, como enchentes, deslizamentos, rompimentos de barragens e outros eventos extremos. “Essas situações criam no sistema nervoso esse estado de alerta permanente”, ressalta Paixão. É o que relata o motoboy Maicon Oliveira de Almeida, de 38 anos. A qualquer sinal de mudança no clima, o morador do bairro Alto Grajaú, também em Juiz de Fora, entra em alerta. “Eu moro debaixo de barranco, então fico com medo. Todo mundo está assim… começa a garoar e o medo já vem. Barulho de chuva hoje é terror”, desabafa.

A servidora municipal Simone Aparecida Mendes, de 48 anos, também revive mentalmente todo o drama das últimas semanas. No dia do temporal, ela ajudou no resgate de vizinhos após o desabamento de uma casa onde estavam três adultos e três crianças. Apenas duas pessoas sobreviveram. “Eu carreguei crianças no colo”, lembra. “Fiquei quatro dias sem comer e dormir. Aquilo fica na cabeça da gente, machuca, dói. Foi um trauma. Começa a chover e ninguém consegue dormir, fica todo mundo assustado”, desabafa.

A psicóloga Viviane Rogêdo pontua que distúrbios alimentares e do sono, incluindo pesadelos, também são comuns em quem presencia desastres como o da Zona da Mata. Ela orienta, porém, que a busca por ajuda especializada é essencial, principalmente se os sintomas perdurarem por mais de 30 dias. “O acompanhamento psicológico pode ajudar a pessoa a superar o luto e evitar que o trauma se fortaleça”, ressalta a especialista.

Entre as intervenções precoces, os especialistas listam, por exemplo, a necessidade de validar o sentimento das vítimas, para que elas entendam que sentir medo logo após um desastre é normal. A partir daí, porém, ele defende que uma série de cuidados, que incluem a retomada gradual da rotina e a construção de uma rede de apoio, se tornam essenciais para que o trauma não se torne um problema crônico.

Equipes de saúde atuam no suporte psicossocial

Em Juiz de Fora, cidade mais afetada pela tragédia, com 65 mortos e mais de 8.500 desabrigados ou desalojados, a prefeitura informou ter estruturado um núcleo específico para acolhimento e apoio às famílias atingidas pelo temporal, com oferta de suporte psicossocial. “O atendimento psicológico às vítimas das chuvas está sendo realizado de forma integrada, principalmente por meio das equipes de saúde que atuam nos abrigos emergenciais e na rede municipal”, informou a prefeitura, por meio de nota.

Psicólogos da Força Nacional do SUS também reforçam o acolhimento à população tanto em Juiz de Fora quanto em Ubá e Matias Barbosa, também devastadas pelo temporal. Segundo o governo federal, psicólogos integram a equipe multidisciplinar, com 18 especialistas, que foi enviada à Zona da Mata. Procurado para detalhar as ações para atendimento psicológico à população da região, o governo de Minas não se manifestou. No último dia 2, a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Sedese) informou ter garantido um aporte superior a R$ 5 milhões para as cidades atingidas.

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