EntretenimentoMúsicaReggaeton: 'efeito Benito' e o pertencimento latino em Belo Horizonte

Reggaeton: ‘efeito Benito’ e o pertencimento latino em Belo Horizonte

Apresentação do músico porto-riquenho no Super Bowl fomentou o orgulho e a admiração pela latinidade, refletindo nas pistas de dança de BH

O colombiano Gabriel Sebastian, de 24 anos, chegou a Belo Horizonte há cinco. Conhecido como DJ Gabii, ele, que nasceu em Medellín, resume em poucas palavras o que muitos migrantes sentem. “No começo foi lindo, tudo novo, mas é diferente ser turista e ser migrante. Com o tempo, a nossa essência vai se misturando… o espanhol com o português, a comida, o jeito de socializar. Era como se um novo Gabii estivesse sendo criado, metade daqui, metade de lá. E aí surge a pergunta que todo migrante já fez: eu sou daqui ou sou de lá?”, lembra.

Comandando as pistas de dança, ele tocava o que as casas pediam, mas sempre questionava: “E se eu tocar reggaeton aqui? Será que o povo vai gostar?”. Mas nada de “Gasolina” ou “Despacito”, ele queria tocar o reggaeton raiz que realmente estava acontecendo lá fora.

“Eu vivi o medo de todo DJ, toquei Bad Bunny… e a pista parou. Todo mundo olhou pra cabine com cara de ‘Que música estranha é essa?’. Ali eu entendi que o Brasil ainda não consumia reggaeton como cultura, só como hit isolado”, recorda o DJ.

Mas Gabii insistiu na teimosia e passou a postar vídeos nas redes sociais procurando pessoas que gostassem do ritmo de verdade, até que um público fiel começou a se formar na pista. “Gente que esperava até o final da festa para ouvir o set latino. Era ali que os migrantes se reconheciam”, conta.

Depois de fazer uma festa pequena e despretensiosa ao ritmo de reggaeton, salsa e merengue, pensada para 50 pessoas, que terminou com 250, ele entendeu que a saudade que sentia da música latina era a saudade de muita gente. “No dia 3 de dezembro, no bairro Caiçara, nasceu a primeira Kechimba (termo colombiano utilizado como gíria para expressar que algo é incrível, legal ou fantástico), com temática colombiana de Día de las Velitas, que culminou na criação de algo ainda maior.

No fim do ano passado, foi inaugurada a Casa Cultural Latina Kechimba, na rua Leopoldina, 85, no bairro Santo Antônio, na região Centro-Sul. O que era pra ser apenas uma boate de reggaeton, se tornou café, bar e pista de dança. “Virou ponto de encontro, virou casa. Porque no fundo, o sonho nunca foi só tocar reggaeton. Foi criar pertencimento”, observa Gabii.

Fenômeno

Essa busca por pertencimento ganhou força explosiva neste ano com o fenômeno Bad Bunny. Em fevereiro, Benito Antonio Martínez Ocasio fez história no intervalo do Super Bowl LX ao realizar a primeira apresentação majoritariamente em espanhol no evento, com homenagens a Puerto Rico, Celia Cruz, Tego Calderón, Don Omar e Daddy Yankee.

Ele ainda encerrou nomeando todos os países das Américas. “Juntos somos a América”, ressaltou. O show, com Lady Gaga, Ricky Martin e outros, foi o mais visto da história, com mais de 1 milhões de espectadores. Buscas por viagens a Porto Rico explodiram. Semanas antes, no Grammy 2026, venceu Álbum do Ano com “DeBÍ TiRAR MáS FOToS”, o primeiro todo em espanhol na categoria.

Na Kechimba, o “efeito Benito” reflete em mais procura, mais brasileiros cantando em espanhol e mais emoção na pista. “Não é só sobre reggaeton. É sobre reconectar com quem a gente é”, afirma Gabii.

Tradicional

O histórico Bar Paco Pigalle também sentiu essa virada. Nascido em Marrocos, o DJ Paco, de 61 anos, abriu o bar em 1990 e é uma das figuras expoentes da música latina na capital mineira. Segundo ele, o reggaeton sempre esteve presente. “Antes, ocupava de 30 a 40% do meu repertório. Hoje ele ocupa de 80 a 90%. Sempre houve grandes artistas latinos, como Pit Bull e Rosalia, mas o Bad Bunny fez mais barulho do que os outros porque houve um envolvimento político”, analisa.

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